No acampamento da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), durante a programação de formação política, Afonso Teixeira Filho ministrou palestra sobre os Sermões de Padre Antônio Vieira, figura central do barroco brasileiro e português. A exposição situou o pregador no século XVII, marcado pelas grandes navegações, Reforma Protestante, Contrarreforma e catástrofes como o terremoto de Lisboa de 1755, que abalaram a fé europeia.
Na época de Padre Vieira, toda produção cultural girava em torno da Igreja. As grandes navegações impulsionaram avanços técnicos, como a melhoria das lentes para lunetas, levando ao uso difundido de óculos. O barroco surgiu como consolidação artística da Contrarreforma católica, embora existisse também um barroco protestante, exemplificado por Johann Sebastian Bach. Teixeira Filho enfatizou que a arte deve ser apreciada em seu aspecto essencial, nas relações humanas e no trabalho que a produziu, além da forma externa.
O palestrante explicou a divisão do barroco em cultismo (ênfase na forma) e conceptismo (prioridade ao conteúdo engenhoso), sendo Padre Vieira expoente máximo do conceptismo. Os sermões não eram escritos previamente na íntegra: Vieira resumia o que pretendia dizer e, após pregações em viagens missionárias, redigia-os no final da vida.
A aula destacou o Sermão da Sexagésima, onde Vieira questiona por que a palavra de Deus é tão pouco ouvida. Ele compara a pregação à parábola do semeador: “o trigo que semeou o pregador evangélico, Cristo diz que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa, em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes”.
Vieira indaga: se a palavra divina é poderosa, por que converte tão poucos? Teixeira Filho explica a visão de Vieira: a resposta envolve três elementos necessários à conversão: a graça de Deus, a doutrina do pregador e a disposição do ouvinte. Analogamente, “para uma alma se converter pelo sermão, é necessário a graça de Deus, o pregador (doutrina) e o ouvinte (conhecimento), assim como um homem ver a si mesmo precisa de um espelho, de luz e de um olho”.
“Se o pregador conseguir converter uma pessoa em mil sermões isso já seria um bom resultado”, observou Teixeira Filho ao explicar a visão de Vieira, o que colocaria o problema da palavra de Deus não ser ouvida na conta do pregador, porque, caso alguém não se converta, ainda há muitas outras pessoas a serem convertidas e, assim, o trabalho deve continuar. O pregador deve viver a doutrina e dar exemplo para converter os demais.

Nesse sentido, Teixeira observou que o trabalho do pregador assemelha-se ao da militância política: não adianta ser um católico ou comunista sem viver sua vida tentando convencer os demais de sua fé ou ideal.
A palestra abordou o contexto social nos sermões. Jesus defendia pescadores, maioria dos apóstolos, explorados por tributos ao governo e rentistas donos de barcos e redes, restando-lhes apenas 20% da pesca. Vieira criticava injustiças semelhantes em sua época.
Participantes levantaram dúvidas, como polêmicas em sermões (exemplo: Sermão das Boas Armas de Portugal contra as da Holanda) e temas teológicos. Sobre livre-arbítrio, Teixeira Filho mencionou que a palavra grega para “vontade” equivale a “apetite”, apontando uma defesa do determinismo. Questionado se Deus é todo-poderoso, esclareceu que o termo não aparece na Bíblia, derivando de uma tradução grega posterior.
Em breve, a palestra estará disponível, na íntegra, na Causa Operária TV (COTV).




