Um jornalista palestino-britânico ligado ao portal independente MintPress News, Ibrahim Abul-Essad, tornou-se alvo de uma campanha do grupo sionista Stop The Hate U.K., que passou a pedir sua responsabilização por supostos “crimes de ódio antissemitas”, segundo investigação publicada pelo próprio MintPress. O caso teve novo desdobramento em outubro, quando Abul-Essad afirmou ter sido procurado em sua casa por Patrick Sawer, repórter do The Daily Telegraph, que exigiu “respostas” a respeito da ofensiva do grupo.
De acordo com o MintPress, o centro da acusação contra Abul-Essad é sua presença em uma manifestação realizada em outubro de 2024, em Londres, contra um evento que anunciava a participação do ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert para falar sobre o “futuro de Gaza”. Ainda conforme o portal, a Polícia Metropolitana já analisou o episódio e descartou a denúncia.
A reportagem também afirma que Sawer publicou dezenas de textos pró-“Israel” em curto período e que, em matérias anteriores, o jornalista utilizou informações levantadas por redes alinhadas ao Stop The Hate U.K. O MintPress cita, como exemplo, um artigo de 2024 no qual manifestantes pró-Palestina são apresentados como racistas, com imagens feitas sem conhecimento dos participantes, atribuindo o material a uma entidade distinta e mais antiga, Stop Hate U.K., o que, segundo o portal, ampliou a confusão em torno dos nomes.
Atuação para reprimir protestos
Segundo a investigação do MintPress, o Stop The Hate U.K. surgiu no início de 2024, no auge do genocídio de “Israel” contra Gaza, com o objetivo declarado de atacar a crescente mobilização em apoio à libertação palestina no Reino Unido. Em sua apresentação pública, o grupo afirma se opor às “marchas de ódio” e chama os participantes de “apoiadores de terroristas”, exigindo sua retirada das ruas.
O portal afirma que a organização pressiona o governo britânico a proibir manifestações e acusa a polícia de não agir com “vigor” suficiente contra atos de solidariedade. A matéria também aponta que, embora o grupo se apresente como entidade sem fins lucrativos, não foi localizada inscrição correspondente na Charity Commission for England and Wales.
O MintPress descreve um regime cada vez mais repressivo no Reino Unido, incluindo prisões em massa sob a Lei Antiterrorismo de 2000, e afirma que organizações de direitos humanos criticaram publicamente a perseguição a manifestações e ações políticas em solidariedade ao povo palestino. Ao mesmo tempo, observa que os atos organizados pelo Stop The Hate U.K. não atraem participação significativa: uma imagem divulgada pelo próprio grupo em protesto em Brighton mostraria menos de 40 presentes, enquanto marchas pró-Palestina chegaram a reunir centenas de milhares de pessoas.
Mesmo sem mobilização de rua, o grupo teria obtido maior eficácia em ações de intimidação: filmar participantes, importunar organizadores e pressionar pela abertura de procedimentos. Nessa função, conforme citação feita pelo MintPress a partir do veículo The Canary, o Stop The Hate U.K. atuaria como uma espécie de “informante” extraoficial, buscando transformar atos políticos em casos policiais.
Quem são os fundadores
A reportagem afirma que o Stop The Hate U.K. mantém sigilo sobre seus dirigentes e não apresenta, em seu próprio sítio, informações claras sobre seus principais integrantes. Ainda assim, o portal diz que o veículo pró-“Israel” Jewish News identificou dois cidadãos israelenses como fundadores: Itai Galmudy e Yochy Davis.
Sobre Galmudy, o MintPress relata que ele serviu no exército sionista e participou da Operação Protective Edge, a ofensiva de 2014 contra Gaza. O texto menciona que autoridades britânicas, na época, condenaram a ação, citando declarações que a qualificaram como “punição coletiva” contra civis. Ainda assim, segundo o portal, Galmudy voltou a viver em Londres após a operação e passou a atuar no setor de bares, registrando em redes sociais que se recusaria a atender pessoas com vestimentas palestinas.
O MintPress também afirma que a atividade de Galmudy recebeu elogios diretos de representantes oficiais do Estado sionista. A embaixadora israelense no Reino Unido, Tzipi Hotovely, teria gravado uma mensagem de aniversário ao sionista, agradecendo sua atuação “pelo Estado de Israel”. Abul-Essad, por sua vez, é citado dizendo ser “preocupante” que um ex-soldado de um Exército investigado por genocídio participe de uma organização que pressiona pela perseguição a cidadãos britânicos que defendem a Palestina.
Quanto a Yochy Davis, a investigação relata que ela se projeta publicamente como sionista e ganhou notoriedade em 2023 ao interromper um show de Roger Waters em Londres, abrindo uma bandeira israelense e atacando o músico, conhecido por apoiar a causa palestina. O MintPress afirma que, em 2019, Davis trabalhou com a organização israelense My Truth para levar soldados ao Reino Unido, incluindo visitas ao Parlamento e palestras apresentadas como “educacionais”, voltadas a defender o exército de “Israel”.
A reportagem acrescenta que Davis também recebeu reconhecimento de autoridades do Estado sionista: o então ministro da Justiça Amir Ohana teria gravado vídeo agradecendo sua atuação, e a sionista teria se reunido com o presidente israelense Isaac Herzog. O texto afirma que Davis e Galmudy participaram de evento oficial na embaixada israelense em Londres e viajaram a “Israel” e às Colinas do Golã, território sírio ocupado, para encontros e registros fotográficos com soldados.
Confusão proposital
Outro ponto central levantado pelo MintPress é a escolha do nome Stop The Hate U.K., muito semelhante ao da Stop Hate U.K. (SHUK), entidade reconhecida por seu trabalho contra o racismo desde os anos 1990, criada após o caso Stephen Lawrence, jovem negro assassinado em Londres em 1993. O portal observa que a confusão entre as duas organizações já teria sido reproduzida em textos de imprensa, com atribuição errada de informações e imagens.
Ao concluir, a investigação do MintPress questiona como um grupo de pressão pró-“Israel”, fundado por dois cidadãos israelenses, conseguiu obter influência desproporcional no debate público britânico e, sobretudo, na tentativa de acionar o aparato repressivo contra jornalistas e militantes que denunciam a ofensiva contra Gaza e defendem a libertação da Palestina.



