Um canal no WhatsApp criado na quarta-feira (28), apresentado como um “exército dos povos indígenas”, adotou o modelo de mobilização digital associado ao deputado André Janones. Segundo reportagem da revista CartaCapital, publicada na quinta-feira (29), o canal reuniu mais de 90 mil inscritos, enquanto o perfil da iniciativa no Instagram ultrapassou 200 mil seguidores. A campanha distribuiu “missões” para ampliar a circulação de publicações sobre demarcação de terras e questões ambientais.
A reportagem informou que artistas, comunicadores, ativistas políticos e movimentos sociais aderiram à iniciativa. Os números de inscritos, entretanto, não esclarecem quem dirige a campanha, quem financia sua comunicação ou qual participação as comunidades têm nas decisões. Uma audiência nas redes sociais não confere, por si só, mandato para falar em nome dos índios brasileiros.
O método copiado de Janones permite concentrar orientações e multiplicar publicações por meio de uma rede de apoiadores. Essa capacidade de divulgação precisa ser examinada separadamente da representatividade reivindicada pelos organizadores.
O programa contrário à mineração apareceu de maneira explícita na carta final do II Seminário “Esta Terra Tem Dono: Territórios Indígenas Livres de Mineração”, datada de 24 de outubro de 2026. O documento foi elaborado após um encontro realizado em Brasília, entre os dias 20 e 22, sob coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e de instituições aliadas.
Proibição como programa
A carta reivindicou a demarcação de todas as terras indígenas até 2030 e denunciou a violência do garimpo e da mineração industrial. Relatou contaminação por mercúrio, perseguições e assassinatos de lideranças. Esses problemas exigem medidas concretas de proteção das comunidades e responsabilização dos envolvidos.
A conclusão apresentada, porém, foi uma rejeição geral da atividade mineral: “a nossa resposta à pergunta que não nos fizeram é não: afirmamos territórios livres de mineração”. Em outro trecho, o documento declarou: “A mineração não é inclusão: é dependência, contaminação e desestruturação comunitária”.
Essa formulação transforma os efeitos da exploração capitalista em características inevitáveis de qualquer aproveitamento mineral. Desaparecem da discussão a propriedade das empresas, o controle da produção, a tecnologia empregada e o destino da riqueza extraída. Uma multinacional que exporta matéria-prima e uma empresa pública submetida ao controle dos trabalhadores acabam abrangidas pela mesma condenação.
A proibição geral da mineração impede discutir projetos sob controle público e com participação dos próprios índios. Também deixa sem resposta uma questão decisiva: como utilizar as riquezas brasileiras para financiar saúde, educação, moradia e infraestrutura, inclusive nos territórios onde esses serviços faltam?
O documento mencionou a corrida por minerais críticos e estratégicos, como lítio, potássio, cobre, níquel e nióbio. Denunciou o risco de que a chamada transição energética reproduza a condição de fornecedor de matérias-primas imposta aos países atrasados. Enfrentar essa dependência, entretanto, exige disputar o controle da produção e da tecnologia.
Manter os recursos inexplorados não dá ao Brasil os meios para superar o atraso. Sem indústria, pesquisa e capacidade própria de transformação mineral, o País continua comprando produtos de maior valor dos mesmos grupos que dominam o comércio internacional. A política de interdição favorece a manutenção dessa desigualdade entre as potências industriais e os países oprimidos.
Quem decide sobre as obras?
A carta também defendeu o poder de recusar empreendimentos. “Consulta que não admite o não é formalidade para legitimar decisão já tomada”, afirmou. Em seguida, acrescentou que “a consulta verdadeira é o direito de decidir, e decidir inclui o direito de dizer não”.
Ouvir as comunidades atingidas por uma obra é uma exigência elementar. Expulsões, destruição de moradias e imposição de condições miseráveis não podem ser justificadas pela promessa de desenvolvimento. A questão política é quem participa dessa decisão e com qual autoridade.
O texto atribuiu as declarações contrárias à mineração às instâncias de cada povo, conforme seus costumes e protocolos. Mas abundam os relatos de que, em territórios indígenas, inclusive os mais afastados, são funcionários de ONGs estrangeiras que se apresentam como porta-vozes dos índios. É justamente a atuação dessas entidades que precisa ser examinada para verificar se a autonomia anunciada corresponde ao funcionamento efetivo das campanhas.
Organizações com assessorias jurídicas, acesso à imprensa e recursos para manter equipes profissionais dispõem de condições muito diferentes das comunidades que afirmam representar. Quando assumem a interlocução com governos e empresas, podem concentrar decisões sem que essa transferência de autoridade seja discutida publicamente.
Em disputas sobre hidrelétricas, estradas, concessões e exploração de petróleo, esse problema alcança o planejamento nacional. Submeter empreendimentos à pressão de entidades cuja direção e sustentação financeira escapam ao conhecimento popular abre espaço para interesses alheios às necessidades dos trabalhadores brasileiros.
A APIB e diversas organizações que se pretendem representantes dos índios estão intrinsecamente vinculadas com organizações imperialistas, como a Fundação Ford, Fundação Rockefeller e Open Society Foundations, de propriedades dos grandes capitalistas e especuladores financeiros estrangeiros. Estes são inimigos dos índios, do Brasil e dos povos oprimidos, pois são os responsáveis pelos ajustes fiscais e reformas neoliberais que roubam o dinheiro do povo para encher seus bolsos. São também coordenadores do regime imperialista internacional, que necessita a exploração das riquezas naturais de países como o Brasil, e por isso mesmo se opõem a que o governo brasileiro controle essas riquezas.
Desenvolvimento e dependência
Belo Monte e a exploração de petróleo na Margem Equatorial tornaram-se alvos de campanhas ambientalistas contrárias a empreendimentos de grande importância econômica. A primeira foi usada para fazer propaganda entre a esquerda contra o governo Dilma Rousseff, que era alvo de uma ofensiva golpista que acabou levando ao seu impeachment. A oposição à construção da usina hidrelétrica mobilizou as mesmas ONGs que dizem representar os índios atualmente, em meio a uma revolução colorida que estava em andamento.
A ministra Marina Silva, conhecida por suas históricas relações diretas com o capital financeiro (como o Itaú) ou indiretas (como com ONGs financiadas pelo especulador George Soros), é a ponta-de-lança da ofensiva contra a exploração do petróleo na Margem Equatorial.
A discussão sobre os impactos dessas atividades precisa incluir as consequências de impedir sua realização: a dependência energética e tecnológica também impõe custos à população.
Sônia Guajajara, a Pocahontas do PSOL, deve responder pelo programa econômico que defende. A oposição a empreendimentos precisa explicar como serão garantidos eletricidade, transporte, atendimento médico, saneamento e empregos. A defesa dos índios não pode servir de justificativa para perpetuar a ausência desses serviços.
A carta apresentou como alternativas roças, sistemas agroflorestais, artesanato e cadeias comunitárias. Reivindicou crédito, assistência técnica e compras públicas. São atividades que devem receber apoio, mas não substituem a indústria, a geração de energia ou os recursos necessários à construção de hospitais e sistemas de transporte. Essas “alternativas” mantêm os índios na pobreza e são rejeitadas pela maioria dos índios, que buscam melhorar de vida, ter artigos de consumo modernos como televisores e carros, acessar escolas e hospitais e viver em moradias dignas.
O próprio documento afirmou que os povos têm o direito de escolher seus projetos econômicos. Essa autonomia exige que possam discutir todas as possibilidades, inclusive formas de aproveitamento mineral, sem que uma campanha estabeleça antecipadamente quais decisões seriam aceitáveis.
O programa apresentado merece ser combatido por suas consequências. A interdição permanente de atividades econômicas limita as possibilidades de desenvolvimento e conserva a dependência dos países que já concentram indústria e tecnologia.
Combater a pilhagem das riquezas nacionais exige disputar seu controle e sua utilização. O Brasil precisa garantir aos índios terra, proteção e condições materiais de vida, ao mesmo tempo que enfrenta os monopólios interessados em determinar o destino de seus recursos. A independência nacional exige capacidade de produzir e utilizar essa riqueza em benefício da população.


