Na oitava aula do curso introdutório sobre O Capital, de Karl Marx, realizado na 54ª Universidade de Férias do Partido da Causa Operária (PCO), em Sorocaba (SP), Rui Costa Pimenta explicou a evolução histórica das formas de produção e o papel central da mais-valia relativa na dinâmica do capitalismo. A apresentação destacou como melhorias na produtividade, impulsionadas pela organização do trabalho e pelo avanço tecnológico, permitem a extração de mais-valia sem necessariamente alongar a jornada laboral.
“A mais-valia em essência tem a ver com a produtividade”, afirmou Rui Costa Pimenta, ao iniciar a exposição sobre como uma melhor organização da produção leva a um aumento da produtividade. Ele diferenciou as fases históricas: nos séculos XV a XIX, produtores individuais dominavam todas as etapas do trabalho; na cooperação simples (séculos XV a XVII), o trabalho era coletivo, mas ainda sem divisão especializada; na manufatura (século XVIII), surge a divisão do trabalho para produzir o mesmo produto.
A grande indústria, consolidada no século XIX com máquinas movidas a vapor e depois a eletricidade, representa o ápice dessa evolução. “É a formação da grande indústria”, destacou Pimenta, explicando que a máquina autônoma determina o ritmo do trabalho, subordinando o operário.
Essa transformação traz consequências profundas para o trabalhador. Com a divisão do trabalho, ele deixa de dominar o processo produtivo inteiro, realizando tarefas fragmentadas e abstratas, cujo propósito final não percebe. Isso gera, segundo Pimenta, um “embrutecimento do trabalhador” e uma “regressão intelectual”, pois o artesão, ao dominar todas as etapas, elevava sua capacidade intelectual, enquanto o operário fabril se torna um mero apêndice da máquina.
Pimenta abordou a mais-valia relativa extraída por meio do aumento da produtividade. Até que todos tenham a tecnologia necessária para alcançar a mesma produtividade, quem a utilizou primeiro consegue lucrar mais que os outros porque utiliza menos trabalho para obter o mesmo resultado.
Rui Costa Pimenta exemplificou com a dominação britânica na Índia, onde a produtividade industrial inglesa destruiu a economia artesanal local e levou a um rápido desenvolvimento produtivo da Índia, ainda que, contraditoriamente, mediante brutalidade e exploração. A produção capitalista, porém, permanece caótica: cada capitalista produz para o mercado sem planejamento global, levando a crises de superprodução e falências parciais.
Dúvidas dos participantes foram respondidas. Sobre a poluição ambiental, Pimenta afirmou: “só o desenvolvimento pode acabar com a poluição do meio ambiente”, pois apenas com domínio suficiente sobre as forças produtivas o ser humano poderá manter a produção sem degradar o planeta.
Quanto à uberização e pejotização, explicou que esses fenômenos se restringem ao setor de serviços, refletindo retração econômica e desindustrialização, com aumento da população ociosa forçada a trabalhos exploratórios e não essenciais. No setor produtivo, existe algo semelhante, a terceirização, o que, ainda assim, segundo o presidente do PCO, não muda nem modifica profundamente o sistema produtivo. Pimenta explicou que “o capitalismo já teve várias modalidades contratuais, o que não muda substancialmente as relações de produção”, exemplificou sobre contratos coletivos e individuais, que variaram sem alterar o sistema produtivo. Rui Pimenta continua e afirma que “os fundamentos do capitalismo tenham se transformado, é um absurdo”.
Pimenta respondeu a uma pergunta do público sobre por que inovações como pólvora na China ou máquina a vapor em Roma não geraram revolução produtiva similar à do capitalismo: porque não eram compatíveis com o modo de produção, assim como tecnologias atuais, como aviões mais rápidos (cuja tecnologia já existe há décadas) não são adotadas se não geram lucro.
A aula reforçou que o capitalismo não é racional: destrói forças produtivas em desindustrializações, como a soviética pós-1991 ou a brasileira, que ocorre já há mais de 30 anos, para preservar a lucratividade e o acúmulo de capital.
O curso sobre O Capital prossegue na Universidade de Férias, combinando teoria marxista com a vivência coletiva do acampamento da AJR. Ainda é possível participar presencialmente ou acompanhar as transmissões pela plataforma Universidade Marxista (unimarxista.org.br). Para inscrições e informações, entre em contato pelo número (11) 99741-0436.




