Editorial

O que imperialismo quer para a América Latina?

Por isso, a tarefa colocada para os trabalhadores é construir uma política própria, independente da burguesia e de seus representantes, contra a política neoliberal

A experiência argentina sob Javier Milei mostra, de forma concentrada, o que a burguesia e o imperialismo norte-americano pretendem impor em toda a América Latina. O que está em curso no país vizinho não é uma “excentricidade” de um governo de extrema direita, mas um laboratório de guerra social contra a classe trabalhadora: destruição de direitos, arrocho, privatizações, ataque aos serviços públicos e submissão completa da economia ao capital financeiro.

O ponto mais brutal dessa política aparece na reforma trabalhista levada adiante na Argentina. A ampliação da jornada, a flexibilização total das relações de trabalho e a possibilidade de pagamento fora do salário em dinheiro representam um salto na degradação das condições de vida do povo.

O caso argentino deve ser entendido como aviso para o Brasil. O imperialismo não quer um governo que administre a crise com concessões limitadas; quer um governo capaz de aplicar um choque de grande envergadura contra os trabalhadores. Em outras palavras, quer um Milei brasileiro. Esse é o sentido da pressão permanente da burguesia sobre o processo político nacional, sobre o governo Lula e sobre as eleições de 2026.

A burguesia brasileira já testou, em diferentes momentos, esse caminho. O governo FHC atacou profundamente o País com privatizações e desmonte do Estado. O governo Temer avançou ainda mais, sobretudo ao engessar o orçamento público para garantir o repasse de recursos aos bancos. Bolsonaro, apesar das contradições internas de seu governo, também atacou direitos e organizações operárias. Agora, a tendência é de um novo salto, mais duro, mais concentrado e mais abertamente voltado à liquidação das conquistas sociais.

É nesse quadro que ganha importância a movimentação de nomes como Flávio Bolsonaro, que fazem acenos diretos ao “mercado” e à Faria Lima. Ainda que não seja possível afirmar de antemão se um eventual governo conseguiria aplicar integralmente uma política no estilo Milei, a ameaça é real. A burguesia trabalha para isso. E, se o personagem não for capaz de executar o plano, buscará outro, com o mesmo programa.

Por outro lado, a questão central não é apenas que a burguesia não quer Lula. É que Lula também não representa uma barreira efetiva a esse avanço. O governo do PT não tem condições de mobilizar sua base social para enfrentar o capital financeiro e tampouco está disposto a romper com os interesses da burguesia. Por isso, mesmo sem aplicar um plano idêntico ao de Milei, já adota medidas que caminham na mesma direção: concessões ao mercado, preservação dos privilégios do grande capital e manutenção da política de ataque indireto aos trabalhadores.

O problema de fundo é econômico. A burguesia quer resolver a crise jogando todo o peso sobre o povo. Quer reduzir salários, eliminar direitos, desmontar a saúde, a educação e a aposentadoria públicas, e ampliar a privatização das empresas estatais. Correios, Petrobrás e Eletrobrás seguem no centro desse apetite. A experiência da Enel em São Paulo já mostrou, de forma concreta, o que significa entregar serviços essenciais à iniciativa privada: caos para a população e lucro para os monopólios.

A situação argentina, inclusive, revela o grau de violência desse plano. O ataque é tão profundo que chega a provocar reação de setores do próprio capital estrangeiro, que veem risco de desorganização completa da produção.

O centro da luta política no Brasil não está em “administrar” a crise dentro das instituições, mas em enfrentar um plano de guerra social que a burguesia pretende impor por qualquer meio. Se não conseguir avançar integralmente pela via eleitoral, tentará por fora dela, com chantagem econômica, sabotagem política e novas operações de desestabilização. A experiência recente do País deixa isso claro.

Os escândalos que atingem o regime, incluindo a crise em torno do STF e do caso Banco Master, reforçam esse quadro de decomposição. A própria cúpula do Estado está sendo arrastada para uma crise que expõe sua fragilidade e aprofunda a instabilidade política. Não se trata de episódios isolados. É a manifestação de um regime em desgaste acelerado, incapaz de oferecer uma saída estável para a burguesia e, muito menos, para o povo.

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