Tecnologia

O problema não são as IAs, mas o capitalismo

Articulista tenta em vão pensar em soluções para a penetração das inteligências artificiais, mas se esquece que capitalismo é um fenômeno mundial

Algoritmo Malvadão

A regulamentação das inteligências artificiais, artigo de Ivan Costa Marques publicado no sítio A Terra é Redonda nesta segunda-feira (9), é mais uma das inúmeras maneiras pelas quais se expressa o medo burguês diante das inteligências artificiais.

No olho do texto, lê-se que “a recepção das IAs no Brasil exige uma contabilidade material do sofrimento, substituindo a mão invisível do capital por mãos visíveis e negociadoras em cada território”. É preciso registrar, antes de tudo, que toda nova tecnologia elimina postos de trabalho. Foi assim, por exemplo, no setor das artes gráficas, hoje quase inteiramente digitalizado. Da mesma maneira que o off-set praticamente acabou com as tipografias, as máquinas digitais tornam cada vez mais raros os impressores de off-set, e as máquinas de fotolito viraram peças de museu.

Compor a capa colorida de um livro, tarefa que antes podia levar horas, hoje é feito em minutos. Um cidadão comum pode produzir uma capa sem que seja necessária a intervenção de trabalhadores especializados.

No início da Revolução Industrial, notadamente entre 1811 e 1816, houve um levante de artesãos contra os teares mecânicos e as máquinas de fiar, pois viam sua qualidade de vida despencar. O que era feito por trabalhadores que passavam anos aprendendo um ofício passou a ser executado por crianças recebendo salários miseráveis. O movimento ficou conhecido como ludismo, em referência a Ned Ludd, que supostamente teria se rebelado contra o patrão e quebrado dois teares.

Embora o ludismo tenha sido apresentado como simples aversão às máquinas e às inovações tecnológicas, o que estava em questão eram as relações de trabalho e a apropriação da riqueza social.

Marques inicia observando que “a inauguração das inteligências artificiais em larga escala é relativamente recente, mas elas já demonstraram sua utilidade e consequente atratividade para um amplo espectro de tarefas e ocupações associadas aos padrões cotidianos da vida moderna”. Acrescenta que “é fácil verificar pessoalmente a capacidade das inteligências artificiais de executar, autônoma ou interativamente e de maneira surpreendentemente satisfatória, tarefas às vezes não tão simples e rotineiras sobre textos, áudios e imagens”.

No setor produtivo, o processo não será diferente. Para comparar: um único tear no começo da Revolução Industrial podia produzir 10 vezes mais do que um tecelão treinado, com a “vantagem” de não se cansar e não precisar parar para o almoço.

A pergunta que os ludistas faziam era direta: se nove tecelões ficam desempregados, quem sustenta essas nove famílias? Hoje, muitas linhas de produção já operam com necessidade reduzida de mão de obra. Além do desemprego, há pelo menos dois fatores decisivos: a queda do valor das mercadorias com o aumento da produtividade e o fato de não se extrair mais-valia de máquinas. Nessas condições, a taxa de lucro tende a sofrer pressão, aprofundando a crise do capitalismo.

Reconhecimento, mas…

Marques procura reconhecer a importância das IAs ao afirmar que “rejeitá-las seria comparável a imaginarmos a rejeição do telefone em favor do menino de recados no começo do século XX”. Para ele, “reconhecer isso, no entanto, não nos impede de pensar e agir sobre como recebê-las levando em conta condições vigentes no Brasil”. Aqui aparece o primeiro equívoco: o capitalismo é um fenômeno mundial. A migração de fábricas para a China desestabilizou a economia mundial e aprofundou as tensões entre as potências, a ponto de os Estados Unidos se prepararem abertamente para uma guerra contra o país.

O autor avalia que “não é um devaneio alarmista pensar que, no prazo de poucos anos, uma inteligência artificial viabilizará que o trabalho hoje feito por dez escreventes nos tabelionatos e escritórios de advocacia possa ser feito por três deles (retreinados), desempregando sete em cada dez indivíduos”.

Sob o capitalismo, o que importa é o lucro. A produtividade chinesa, combinada com mão de obra mais barata, derrubou preços e ampliou o desemprego em outros países. Isso, no entanto, não é um “problema chinês”, mas uma expressão das leis do modo de produção capitalista.

O capitalismo funciona de maneira anárquica. As IAs vieram para ficar e, na concorrência entre capitalistas, não se leva em conta “o sofrimento e a violência decorrentes das demissões e da falta de oportunidades de trabalho”. Para Marques, desse modo, “a contabilidade, a métrica e as medidas dos custos deixam de considerar fatores cruciais para que se realize a tradução da ‘diminuição do trabalho humano’ em ‘ganho de eficiência’”.

As leis

Adiante, Marques volta ao ponto de que “estamos no Brasil e cabe olhar cuidadosamente esse argumento do capital que naturaliza o ritmo de introdução das inteligências artificiais como algo inseparável do ritmo do desenvolvimento tecnológico das inteligências artificiais”. Sustenta ainda que “o ritmo do desenvolvimento tecnológico das inteligências artificiais é determinado em outros países, como EUA, China e Israel”. A questão é simples: não há como separar o Brasil do mercado capitalista mundial. Não existe essa possibilidade.

Esse raciocínio leva, inevitavelmente, à tentativa de “regular” a atividade do capital por meio de leis, como se fosse possível subordinar os interesses dos grandes monopólios a regras “equilibradas”. Na prática, trata-se de uma quimera: o Estado capitalista atua para proteger a propriedade e o lucro dos capitalistas.

O próprio autor propõe medidas que ele mesmo admite serem confusas e “utópicas”: “a criação de dispositivos métricos detalhados e evolutivos de acompanhamento e contagem (uma estatística) de demissões e contratações ligadas às inteligências artificiais” com “capilaridade” até o nível municipal; e “o engajamento de coletivos comunitários, sejam sindicatos, partidos políticos, grupos profissionais, empregados de uma empresa, redes sociais etc., interessadas em negociações que evolutivamente lutem por estabelecer uma regulamentação visando pôr em prática um fluxo equilibrado de demissões…”.

‘Comunismo’ acadêmico

Para barrar ou controlar os efeitos das IAs na economia, Marques clama por um suposto “engajamento de coletivos mediadores nos diversos âmbitos sociotécnicos pelos brasis afora”. Defende que “lutemos para que nossos coletivos de pensamento tenham a perspectiva de intervenção e vivam a tensão envolvida na escolha das formas de intervir” e propõe uma espécie de contabilidade caso a caso: “com as inteligências artificiais, quem ganha e quem perde, onde, quando e o quê, e com quais inteligências artificiais?”.

Isso não se materializa. Esses “coletivos” não têm poder real para enfrentar o capital, nem base social e orientação de classe para impor qualquer mudança à burguesia. O erro central do autor é escolher o alvo errado. O problema não são as tecnologias. O problema é o capitalismo, que concentra riqueza, amplia a miséria e bloqueia o desenvolvimento humano.

O desenvolvimento tecnológico expõe as contradições do capitalismo. A tarefa dos trabalhadores não é “adiar” esse processo por meio de arranjos locais e estatísticas, mas impor uma saída política: enfrentar a propriedade capitalista dos meios de produção, que é o fundamento do desemprego, da miséria e do parasitismo do grande capital.

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