Em artigo publicado no Brasil 247, no dia 7 de março de 2026, sob o título O vazamento é a droga da Globo e do jornalismo das corporações, o jornalista Moisés Mendes procura criticar a rede Globo, a imprensa burguesa e o uso político de vazamentos seletivos. A Globo é, de fato, um instrumento criminoso da burguesia. Nisso não há discussão. O problema é que, para chegar a essa denúncia, o autor acaba defendendo uma posição profundamente reacionária: a de que a esquerda deve se colocar contra os vazamentos em si, isto é, contra a exposição dos segredos das instituições que conspiram diariamente contra o povo.
Logo no começo do texto, Moisés Mendes endossa a nota do grupo Prerrogativas, segundo a qual os vazadores e os receptadores de informações estariam dedicados à “nociva espetacularização das investigações”. Depois, aprofunda a mesma linha de raciocínio e diz que o centro da operação não seria o espetáculo, mas “a prestação de serviço sujo que interessa a quem vaza”. Em seguida, pede abertamente contenção institucional do processo, afirmando que “os viciados em informações vazadas de forma seletiva desafiam André Mendonça e as instituições que deveriam contê-los”.
É aí que o texto desaba politicamente.
Uma coisa é denunciar a Globo, a Folha, a máquina de manipulação da imprensa capitalista e o uso de informações por setores do aparato de Estado. Outra, muito diferente, é transformar o vazamento em si num problema. Quando Moisés Mendes fala em instituições que deveriam “conter” os vazadores, ele está dizendo, em português claro, que o aparelho de Estado deve fechar ainda mais o acesso do povo às informações que revelam as entranhas das conspirações dos capitalistas.
Isso não é posição de esquerda. Isso é defesa do segredo de Estado.
A burguesia conspira em segredo. O Judiciário conspira em segredo. A Polícia Federal conspira em segredo. Os ministros dos tribunais superiores conspiram em segredo. Os grandes capitalistas conspiram em segredo. A imprensa monopolista muitas vezes recebe pedaços dessas disputas e os usa conforme seus próprios interesses. Tudo isso é verdade. Mas a conclusão correta daí não é que se deve combater o “mero trabalho de vazamento”. Pelo contrário. O povo tem direito de saber a verdade, mesmo quando essa verdade chega por meio de rachaduras, disputas internas e vazamentos do próprio regime.
Se dependesse das instituições, nada seria conhecido. O povo jamais saberia o que fazem os ministros, os delegados, os procuradores, os banqueiros e os políticos em seus bastidores. Por isso, toda campanha genérica contra vazamentos acaba servindo, na prática, ao mesmo objetivo dos que querem manter tudo entre quatro paredes.
Moisés Mendes tenta reforçar sua posição com imagens moralistas. Diz que “o vazamento é o crack do jornalismo das corporações”. Mais adiante, afirma que “os jornalões fumam, tragam e cheiram vazamentos”. Ela desloca o problema do terreno da luta política para uma espécie de condenação abstrata da circulação de informações. O foco deixa de ser o conteúdo revelado, os interesses expostos, a verdade tornada pública, para se concentrar num sermão sobre o vício dos jornalistas e dos jornais.
A posição de Moisés Mendes é particularmente grave porque se apresenta como crítica à Globo, quando na verdade termina por fornecer uma cobertura “de esquerda” para a defesa de instituições antidemocráticas. Ele afirma que “Mendonça é desafiado a conter a máquina sem controle que abastece a TV Globo”. Mas desde quando a tarefa de um ministro do STF, ou de qualquer instituição do regime, deve ser “conter” informações? Desde quando a esquerda deve cobrar do Estado que aperte o cadeado sobre seus próprios porões?
No fundo, o artigo de Moisés Mendes revela até onde foi a degeneração política de amplos setores da esquerda pequeno-burguesa. Em vez de aproveitar a crise e a briga interna do regime para escancarar a podridão de todas as instituições, esses setores se colocam na posição de zeladores da ordem, preocupados em preservar o sigilo e conter os vazadores.





