No domingo da eleição, eu estava a caminho da minha seção eleitoral quando comecei a conversar sobre política com o motorista de aplicativo. Ele perguntou o que eu achava que aconteceria e contou que havia votado em Flávio Bolsonaro. Disse que era conservador, que já tinha votado duas vezes em Jair Bolsonaro. Depois veio a parte mais interessante da conversa.
Ele falou, em essência: “foi uma canalhice completa isso do Lula de tentar comprar os votos da população. Esse aumento do Bolsa Família, Desenrola etc., muito feio”.
Eu não votei em Flávio Bolsonaro. Sou militante do Partido da Causa Operária. Mas seria preciso estar completamente desligado da população para não prestar atenção no que aquele trabalhador estava dizendo. A conversa dentro daquele carro explica uma parte importante do resultado eleitoral.
O trabalhador percebe quando estão tentando comprá-lo.
O piso do Bolsa Família estava em R$600 desde março de 2023. Passaram-se mais de três anos sem reajuste, enquanto aumentavam a comida, o aluguel, as contas domésticas e praticamente tudo que uma família trabalhadora precisa pagar. Somente em 17 de setembro de 2026, faltando 17 dias para o primeiro turno, Lula anunciou uma correção de 15,04%, elevando o piso para R$691.
Durante três anos, o governo achou que R$600 bastavam. Quando a eleição chegou, descobriu que o benefício precisava de reajuste. O escândalo não está no aumento. O aumento era necessário e deveria ter sido muito maior. O PCO defendeu nesta campanha Bolsa Família de pelo menos um salário mínimo. O problema é deixar o benefício perder valor durante quase todo o mandato e aparecer na reta final da eleição oferecendo R$ 91 a mais como se o eleitor devesse agradecer ao presidente com o voto.
Poucos dias depois veio o restante da operação. Em 25 de setembro, nove dias antes da votação, Lula editou a medida que criou o Desenrola Brasil 3.0 e assinou a proibição das apostas de quota fixa no País. De repente, o governo descobriu que milhões de brasileiros estavam endividados e que era urgente apresentar uma série de medidas sociais.
O trabalhador está enterrado em dívidas porque recebe pouco, paga juros enormes e frequentemente precisa recorrer ao cartão, ao cheque especial ou ao financiamento para comprar aquilo que o salário já não consegue pagar. O estoque de crédito das famílias estava próximo de R 3,3 trilhões, segundo dados divulgados antes da eleição.
O Desenrola não enfrenta esse mecanismo. Renegocia a dívida para que ela volte a ser paga. Não aumenta o salário, não acaba com a agiotagem bancária e não cancela o que milhões devem ao sistema financeiro.
A proibição das bets segue a mesma política. O governo prefere decidir o que o pobre pode fazer com seu dinheiro a atacar as condições que levam milhões de pessoas a apostar na esperança de conseguir algum dinheiro. É mais simples proibir do que aumentar salários, diminuir a jornada de trabalho, criar empregos e enfrentar os bancos.
Enquanto fazia essas “bondades” para o povo, Lula reafirmava para empresários e banqueiros seu compromisso com equilíbrio fiscal, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e previsibilidade. Para os capitalistas, garantias de que nada essencial mudaria. Para quem passou três anos vendo R$600 comprarem cada vez menos comida, um reajuste anunciado faltando pouco mais de duas semanas para votar.
As urnas deram outra resposta.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos. Lula recebeu 53.876.617, ou 45,16%. A diferença passou de 2,2 milhões de votos. Há algo muito positivo nisso, independentemente de Flávio Bolsonaro não representar solução alguma para os trabalhadores: milhões de pessoas mostraram que seu voto não pertence ao PT. O povo não é propriedade eleitoral de ninguém.
E aqui aparece um dos vícios mais repugnantes de uma parte da esquerda brasileira. Quando o trabalhador vota nela, é considerado consciente. Quando decide votar em outro candidato, imediatamente aparecem os insultos: burro, ignorante, fascista, “gado”, “adestrado”.
O motorista que me levou para votar passa o dia dirigindo para sobreviver. Como milhões de brasileiros, paga combustível, comida, aluguel, impostos, juros e possivelmente financiamento. Ele viu Lula anunciar um reajuste pouco antes da eleição e concluiu que estavam tentando comprar seu voto. Podemos discordar da escolha que ele fez depois disso. Não podemos exigir que ele agradeça ao governo que o decepcionou.
O povo não é culpado pela derrota da esquerda. Também não ficou subitamente burro ou virou uma massa de extrema direita. Existe uma revolta profunda no País. Se a esquerda abandona essa revolta, a direita procura aproveitá-la.
A culpa é de quem deixou o povo sem alternativa.





