Após três anos do atual governo Lula, o PT volta sua artilharia para a disputa eleitoral de 2026. A abordagem de colunistas petistas tem sido no sentido de exaltar o que consideram grandes feitos do governo, convocando o eleitorado petista a ressoar essa propaganda, essa “narrativa”. No artigo “Pautas positivas e o favoritismo de Lula”, publicado no Brasil 247, o sociólogo Oliveiros Marques defende que Lula não só é o favorito na disputa presidencial, mas que tem a seu favor um cenário de melhoras significativas na economia e nas condições de vida da população. É como se a militância petista tivesse que cair na toca do Coelho Branco e falar sobre um fantástico País das Maravilhas.
Marques anuncia já no subtítulo do artigo que “O grande desafio dos próximos meses será transformar essas conquistas em narrativa compreensível e próxima da vida real”. Ou seja, ocorreram conquistas reais para a população, e o desafio é explicar para essa população que ela teve grandes conquistas nos últimos três anos. Abordando essa estratégia de forma mais realista, podemos entender que a estratégia eleitoral é convencer o povo de que sua vida está melhorando. O que não deveria ser complicado, já que, segundo o articulista “o presidente entra no jogo respaldado por uma sequência de notícias positivas que dialogam diretamente com o cotidiano da população e atravessam diferentes classes sociais”.
Entre as conquistas, são citadas a retomada da política de aumento real do salário mínimo, a isenção de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês e a redução no imposto para quem recebe até R$ 7.350 mensais. Esse aumento real do salário mínimo, por exemplo, foi de 2,5% no último mês de dezembro, míseros R$ 103. Esse percentual, inclusive, passou a ser o teto do ganho real do salário mínimo a partir desse mesmo mês, após sanção do próprio Lula. Esse patamar limitadíssimo de aumento ainda fica pior quando complementado com reajustes inflacionários que não correspondem à inflação real sentida pela população. No ano passado, por exemplo, a inflação foi calculada em apenas 4,4%. Agora, como vender a ideia de que isso está melhorando a vida do trabalhador? Esse quadro é realmente animador?
Após apontar uma melhora geral na economia brasileira, Marques traz outra conquista do atual governo: “Ao mesmo tempo, o desemprego atingiu uma das menores taxas da série histórica, recolocando milhões de brasileiros no mercado de trabalho e devolvendo dignidade a quem estava à margem”. O baixo índice de desemprego, no entanto, camufla uma proliferação de postos de trabalho precarizados. Como citado na matéria “Não há o que comemorar com os índices de desemprego” neste Diário, metade dos professores das redes estaduais de ensino atuam com contratos temporários, uma situação de precarização tanto dos postos de trabalho quanto do ensino público. Ser um temporário significa ter menos direitos e menos estabilidade no trabalho. Certamente não é algo a ser celebrado.
Outra informação levantada na mesma matéria é que no segundo trimestre de 2025, o número de desalentados foi de 2,8 milhões de trabalhadores. Desalentado significa sem ânimo, sem esperança. No mercado de trabalho significa que a pessoa desistiu de procurar emprego, uma situação degradante para uma pessoa em condições de trabalhar. O fato dessas pessoas saírem da contagem de desempregados não muda a realidade social percebida e vivida pela população. Segundo o articulista, no entanto, o cenário econômico é “favorável” a reeleição de Lula, o problema seria mais na área da comunicação:
“Se os resultados econômicos criam um terreno favorável, a disputa política exige algo além dos indicadores: conexão, comunicação e presença. O grande desafio dos próximos meses será transformar essas conquistas em narrativa compreensível e próxima da vida real, reduzindo a rejeição ao presidente em setores da população que outrora já caminharam junto com o Presidente. Isso é especialmente verdadeiro nos estados da região Sul, onde há espaço evidente para crescimento entre as classes médias e baixas, muitas vezes mais sensíveis ao discurso do cotidiano do que às estatísticas nacionais”. ( Pautas positivas e o favoritismo de Lula, Brasil 247, Oliveiros Marques, 04/02/2026)
Essa abordagem não ajuda na evolução da consciência do povo sobre os problemas que enfrenta e como superá-los, serve, no máximo, para confundir a militância e o eleitorado petista. É preciso jogar limpo, o problema do governo não é comunicar bem suas realizações, é justamente não ter verdadeiras realizações de grande impacto social para poder comunicar ao povo. O fato de quase 60 milhões de pessoas viverem com Bolsa Família não é algo a ser celebrado também, mas lamentando. Não deixa de ser obrigação do Estado socorrer essa população, mas não é nem de longe um indicador de que o país está crescendo e se desenvolvendo. Esses resultados econômicos pouco significativos não se devem necessariamente à política que Lula gostaria de implementar, talvez fosse mais importante comunicar justamente isso ao povo, mas aparentemente o PT não quer comprar essa briga com a burguesia.





