Continuamos aqui a análise (leia aqui a primeira parte) do artigo Românticos e Picaretas: as análises furadas da guerra no Oriente Médio, de Fernando Horta, publicado no Brasil 247 neste 4 de março.
Após desautorizar tipos de analistas geopolíticos, que Horta divide em duas categorias: românticos e picaretas, o articulista faz o seguinte convite ao leitor: “com essas duas figuras em mente que precisamos dissecar algumas das análises mais recorrentes — e mais perigosas — que circulam hoje sobre a guerra no Oriente Médio”.
Adiante, divide suas argumentações em tópicos numerados de 1 a 4.
No de número 1, “O Irã está vencendo” (ou “pode vencer”), o autor diz que “poucas afirmações revelam tão claramente o divórcio entre desejo e realidade quanto essa. Dizer que o Irã está vencendo o conflito em curso — ou que tem capacidade real de vencê-lo — não é apenas uma análise equivocada: é uma insanidade metodológica que ignora as condições materiais mais básicas do confronto”.
Segundo argumenta, que o Irã perdeu ativos estratégicos fundamentais em pouco tempo: o Hesbolá estaria enfraquecido, o Hamas estaria sem comando e a Síria entrou em colapso. Para Horta, confundir a sobrevivência do regime com “vitória estratégica” é um erro, pois nenhum dos objetivos centrais do Irã foi alcançado, revelando uma incapacidade de projeção de poder diante da superioridade militar adversária.
Horta comete um erro grosseiro, se esquece que o Irã está sendo atacado, é uma guerra de agressão. Dito isso, o objetivo inicial dos agressores, EUA-“Israel”, era a troca do regime, para isso assassinaram o líder religioso Ali Khamenei, causando revolta em todo o país e o tiro saiu pela culatra, o regime está mais forte do que nunca.
O Irã terá perdido mesmo seus principais ativos? Há vídeos de um míssil atingindo a pintura de um helicóptero no chão. O país tem inúmeras cidades subterrâneas com fábricas e estoques espalhados por todo país que tem uma área maior que o estado do Amazonas. O bombardeio promovido pelo Irã a “Israel” é incessante; bem como às monarquias lacaias vizinhas. Prova de que Fernando Horta não sabe muito bem do que fala.
Outro erro que comete Horta é atribuir o grau de destruição como determinante de quem vence. Diz que aos analistas resta “uma definição de vitória por sobrevivência — ‘vencer é não ter sido destruído totalmente’”. E que “esse tipo de análise não é sofisticada: é romanticismo vestido de geopolítica”. Segundo a análise “sofisticada” do articulista, o Vietnã teria perdido a guerra para os EUA.
O Afeganistão foi praticamente arrasado, mas quem saiu correndo deixando para trás bilhões de dólares em equipamentos? E, sim, as cenas de Cabul lembraram queda e a fuga de Saigon em 1975.
Quando um país agressor não atinge seus objetivos, e por enquanto é o que se tem de concreto, isso deve ser classificado como derrota, ainda que parcial.
No tópico 2, “Os EUA não vão aguentar a guerra”, Horta rebate a ideia de que o desgaste econômico ou político interno derrubará a capacidade bélica americana. Utiliza dados energéticos para mostrar que “os Estados Unidos não precisam ‘aguentar’ a guerra no sentido em que as potências envolvidas diretamente precisam”, planejam seus conflitos com foco em recursos de longo prazo (como as reservas de petróleo da Venezuela e do Brasil). Além disso, destaca que os EUA operam por projeção de força à distância, o que permite manter o status de superpotência mesmo com altos custos financeiros ou humanos, já que o preço real da guerra é pago por outras populações.
Horta ignora, por exemplo, que se fosse verdade que os americanos “projetam força à distância”, não teriam invadido o Iraque e o Afeganistão? E deveria ser perguntar: Por que não invadem a Venezuela? O que será que um povo armado tem a ver com essa resolução?
No penúltimo tópico, “3. ‘A resistência é uma vitória’”, Horta diz que “essa é, talvez, a análise mais moralmente problemática de todas — não porque seja factualmente grosseira como as anteriores, mas porque combina uma certa sofisticação teórica com um romantismo que tem consequências diretas sobre corpos humanos reais”.
Adiante, escreve que “o argumento funciona assim: mesmo com derrotas militares, a ‘resistência’ vence porque demonstra que o opressor não é invencível, porque inspira futuras gerações, porque redefine o campo do possível, porque ‘a luta em si já é uma vitória’. É uma narrativa que tem raízes nobres”.
A burguesia, que é prática, disse por meio da The Economist que a derrota dos EUA no Afeganistão serviria de inspiração para outros países tomarem coragem e enfrentarem o imperialismo. Isso se concretizou na operação militar da Rússia na Ucrânia e na rebelião africana que expulsou a França e minou a influência dos EUA na região. Mali, Burquina Fasso, Níger, são países que perceberam que é possível lutar. Não foi coincidência.
Para Horta, “o problema é quando essa narrativa é aplicada sem critério ao cálculo de vidas humanas concretas”. Segundo afirma, “Gaza é o caso mais brutal. Mais de 50 mil palestinos mortos, segundo estimativas conservadoras. Infraestrutura destruída em escala que levará décadas para ser reconstruída. Uma geração inteira traumatizada ou eliminada”. Qual opção resta aos palestinos? Fernando Horta não ousa dizer, mas o que propõe é o mesmo que lhes fizeram os sionistas: fujam, ou morram.
Os palestinos, porém, que não estão romantizando nada, e nem de longe podem ser chamados de covardes, disseram que têm apenas duas escolhas, “viver com dignidade, ou morrer. Não existe uma terceira opção.”.
Enquanto Fernando Horta, de dentro de seu escritório, diz que “o romantismo da ‘resistência vitoriosa’ é, em sua estrutura profunda, um mecanismo pelo qual intelectuais distantes atribuem sentido à morte dos outros”, os palestinos o desmentem.
Horta acusa o “romantismo” do “já venceu ao resistir” porque “torna qualquer acordo, qualquer cessar-fogo, qualquer compromisso, uma traição ao sacrifício dos que morreram”. Nada mais falso, o Hamas, ou a Resistência Palestina, conseguiu acordos, cessar-fogo, apenas que os sionistas nunca cumprem acordos. Além disso, para os palestinos, sacrifício e morte fazem parte de seu cotidiano, independentemente do que pensam o “analistas românticos”.
Finalmente, no ponto 4, “O picareta conspiracionista: toda derrota é uma traição”, é o tópico diz que “o quarto perfil é talvez o mais fácil de identificar e o mais difícil de combater, porque opera com uma lógica internamente irrefutável. Quando os fatos contradizem a narrativa do ‘campo do bem’, a explicação nunca é a superioridade material, estratégica ou institucional do adversário. É sempre a traição. A entrega. A conspiração”. E o que Horta tem a dizer quando a superioridade material não se concretiza em vitória? Ele sempre busca olhar a situação do ponto de vista da derrota.
O autor critica o “analista picareta” porque faltaria nele “o conhecimento das relações causais que a teoria das relações internacionais, a economia política e a história nos ensinam: que potências com ampla superioridade em capacidade de fogo, recursos financeiros, tecnologia de inteligência e projeção logística tendem a vencer conflitos diretos contra forças irregulares ou Estados periféricos”. Somando-se a isso o fato de sofrer do “não-reconhecimento do papel da aleatoriedade, da contingência e do erro humano na história”.
Fernando Horta não percebe que o segundo item, o da aleatoriedade, contradiz o primeiro. Ou, no mínimo, prova que uma tendência não é uma certeza, e por isso as pessoas lutam.
Após acusar novamente, de maneira absurda, que os analistas “prolongam conflitos e desincentivam negociações”; diz que “as pessoas reais continuam morrendo. Merecem análises reais”.
Em uma saudação ao Partido da Causa Operária, PCO, o Bureau Político do Hamas declarou que “do outro lado desta batalha, sim, pagamos um preço muito alto e muito doloroso. Mas sabemos que é assim que todas as pessoas em todo o mundo que lutaram pela sua liberdade e dignidade o fizeram. Eles passaram por este caminho e pagaram muitos preços no Vietnã, na Argélia, na África do Sul e em todos os lugares”.
Isso nos leva ao que disse Rui Costa Pimenta, analisando uma frase dos representantes do Hamas: “Chorar a dor do oprimido não é solidariedade, não é combater os opressores e nem nada”.
A frase em questão, contundente, se dirige aos derrotistas:
“Não chorem por nós, pois nós estamos vivos e vocês estão mortos”




