O artigo Do machismo à misoginia e ao fascismo, de Luciana Genro (MES-PSOL), publicado no sítio Revista Movimento neste domingo (22), mostra que o abandono das bandeiras socialistas, e a completa falta de propostas da esquerda pequeno-burguesa, faz com que esses grupos se transformem em verdadeiras polícias de costumes.
Os identitários, invariavelmente, deslocam a luta de classes para questões laterais, o que é uma forma de proteger a burguesia, pois o inimigo agora é o patriarcado, o misógino, o “transfóbico”, a “machosfera”, o “racismo estrutural” etc.
Logo no início temos a prova disso, Genro escreve que “o machismo nosso de cada dia, estrutural e naturalizado, se expressa principalmente nas definições dos papéis que cada gênero deve desempenhar”.
O problema que Luciana Genro vai explorar é que, um belo dia, deu um carrinho de boneca para um sobrinho e foi “atacada e xingada, por homens e mulheres, por supostamente estar transformando meu sobrinho em gay”. Ela deve ter se esquecido que vive em uma sociedade conservadora, e ainda se dá ao trabalho de citar um título de Rodrigo Constantino que dizia “Viva os pais que não se curvam diante da pressão politicamente correta! Viva os pais que dão armas de brinquedo para seus filhos, em vez de bonecas e carrinhos rosas”.
Tanto Constantino quanto Luciana Genro estão equivocados. Ela não se torna revolucionária porque dá um carrinho de bonecas para o sobrinho; e Constantino precisa acordar para a realidade se acredita que um brinquedo vai ‘prevenir’ um garoto de se tornar gay. São ridículos.
Polícia moral
Em vez de deixar de lado essa discussão infrutífera, Genro insiste que “esse comportamento machista, composto também por piadas, interrupções nas falas das mulheres, mansplanning etc. deságua (nem sempre, mas de forma muito frequente) em algo ainda mais nefasto e perigoso: a misoginia, ou seja, o ódio ou desprezo às mulheres”. Uma tese completamente furada, pois a sociedade brasileira sempre foi conservadora, e nem por isso os homens odeiam ou desprezam as mulheres.
A deputada diz que leu perplexa “as mensagens enviadas pelo Tenente Coronel que assassinou a esposa também policial: ‘Eu te trato como todo macho alfa trata sua esposa: com carinho e autoridade, como uma fêmea beta submissa, como toda mulher casada deve ser.’ Nesta mensagem, ele disse ainda que é ‘um rei, religioso, honesto, trabalhador, bonito.’”, e completa que o “religioso e honesto rei trabalhador matou a esposa e tentou fazer parecer que ela havia cometido suicídio”.
Fica a pergunta: o comportamento de um criminoso deve se estender a todos os homens? Não deve.
Violência e psicologismos
A esquerda identitária repete insistentemente sobre o aumento que tivemos no assassinato de mulheres. Segundo argumenta, “esse aumento coincide também com o fenômeno político de crescimento da extrema direita e das ideologias fascistas, disfarçadas ou nem tanto”. Se isso fosse verdade, o número de assassinatos de mulheres teria sido assombroso durante a ditadura militar.
Na Itália, na Hungria e em El Salvador, o assassinato de mulheres diminuiu, ou estabilizou. Na Alemanha, aumentou, mas não será devido às dificuldades econômicas crescentes? É mais fácil colocar a culpa na extrema direita.
Luciana Genro recorre a Wilhelm Reich para dizer que “o papel da família, segundo a ideologia fascista, é funcionar como um tipo de ‘estado em miniatura’, uma mini ditadura na qual a mulher é rebaixada à função de reprodutora, esposa, mãe e ‘fêmea beta’, enquanto o homem é o ‘macho alfa’ ou ‘rei’, nas palavras do já acima citado feminicida”.
Em outras palavras, em vez de caracterizar o fascismo como uma política burguesa de ataque aos trabalhadores – Mussolini e Hitler foram amplamente financiados, e até elogiados, por democratas –, o problema está na família, deixou de ser um problema político e de classes. O que é claramente uma falsificação da história.
Ressentimento
Para a deputada, a ideologia da extrema direita entra “em confronto com os avanços já conquistados e a recusa das mulheres em aceitar caladas a submissão e subserviência, fomenta o que hoje chamamos de ‘ressentimento de gênero’, mais um passo em direção à violência”.
Após tirar da cartola o tal “ressentimento de gênero”, Genro diz que este “está ligado à crise do capitalismo, que precariza as relações de trabalho, exigindo mais horas com menos ganhos financeiros e muita instabilidade”. Ela precisa se decidir se o problema é o machismo ou a crise do capitalismo, uma vez que, como escreve, “claramente os homens vivem pior do que seus pais e já não conseguem ser os provedores tão valorizados pela ideologia patriarcal”? Se a vida piora a violência aumenta, é isso?
No mesmo parágrafo, diz que “as mulheres, por outro lado, embora também sejam vítimas da precarização e do trabalho em excesso, conquistaram algo que suas mães dificilmente tiveram: mais autonomia e direitos iguais, pelo menos na legislação, o que faz uma diferença gigantesca em relação ao ‘passado mítico’ idealizado pelos fascistas”.
Quando as condições de vida pioram para os homens, pioram também para as mulheres. Essa “autonomia” que Genro sugere, muitas vezes é reflexo de que as pessoas mal conseguem formar uma família e as mulheres precisam cuidar sozinhas de seus filhos, ou pedirem ajuda para os pais.
Os “direitos iguais, pelo menos na legislação” valem de quê, se as condições materiais deterioraram? A legislação, com a tipificação do feminicídio, melhorou a vida ou a segurança das mulheres? Não, foi um fracasso total. Quem saiu ganhando foi a burguesia que, com auxílio da esquerda identitária, conseguiu mais leis repressivas e aumento de penas.
O “passado mítico” que Luciana Genro atribui aos fascistas, sobreviveu muito bem nas “democracias” e nas mais diversas culturas. Isso não passa de diversionismo.
Enquanto reclama que, há 10 anos, foi hostilizada porque deu um carrinho de menina para o sobrinho, a deputada fez algo realmente negativo: apoiou a Lava Jato, o contribuiu, e muito, para precarizar a vida da população. E quando a vida fica precarizada, os setores mais oprimidos são os que mais sofrem, como as mulheres.



