A maioria da esquerda comete um erro fundamental: não encarar a realidade porque, supostamente, isso poderia prejudicar governos de esquerda e as eleições. Emir Sader é reincidente nessa questão, todo texto seu projeta um mundo imanginário, como no artigo América Latina, epicentro da luta contra o neoliberalismo, publicado no Brasil247 nesta quinta-feira (19).
“A América Latina foi uma vítima privilegiada do neoliberalismo na última década do século passado”, diz Sader, concluindo que “quase todos os países do continente foram afetados por esse modelo de mercantilização das relações sociais e de privilégio dos ajustes fiscais.” No entanto, já nos anos 1980, a Venezuela começa a ter a economia varrida pela política neoliberal, colocando a maioria da população na miséria e culminando no Caracazo, uma revolta popular que desaguou na Revolução Bolivariana.
Antes, ainda, a Revolução Sandinista, de 1979, coincidia com o ascenso do neoliberalismo de Margaret Thatcher e Ronald Reagan.
No Brasil, Fernando Collor de Mello deu início à política neoliberal, completada por seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, que iniciou o desmonte da indústria brasileira e mergulhou o país em uma profunda miséria. Se, antes, a indústria respondia por 40% do PIB, hoje, esse número não passa de 20%.
Sader argumenta que “o Estado e a sociedade latino-americanos foram profundamente afetados. De tal forma que houve uma radical reação de quase todos os países, que fizeram com que o continente se tornasse a única região do mundo com governos antineoliberais e, ao mesmo tempo, que seus maiores líderes se tornassem os principais líderes da esquerda no mundo no século XXI: Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales, Néstor e Cristina Kirchner, Pepe Mujica, Lula, López Obrador e Claudia Sheinbaum”. Porém, se analisarmos friamente, o “antineoliberalismo” foi muito moderado e, de certa forma, muito facilmente desmantelado.
A Onda Rosa, período que, grosso modo, corresponde à subida de Hugo Chávez ao poder em 1989; terminando em 2012. Foi um período de governos muito moderados de esquerda, reformistas, venceram eleições presidenticiais, mas todos atuaram estritamente dentro dos limites da democracia burguesa. Nenhum seguiu os passos Venezuela, que também fez uma revolução incompleta e hoje sofre as consequências.
Os governos Kirchner, López Obrador e Claudia Sheinbaum, dificilmente podem ser chamados de antineoliberais.
Os governos do PT não mudaram nada estruturalmente, tanto é assim que em dois anos de governo do golpista Michel Temer, não restava nada. O governo Bolsonaro ajudou privatizando parte da Eletrobrás e cometendo o crime de colocar o Banco Central sob controle direto dos banqueiros. Quando Lula retornou ao governo, não fez a menor menção de retomar o BC ou cancelar nenhuma privatização. Além da política externa desastrosa, de bloquear a Venezuela no BRICS e não romper com o Estado genocida de “Israel”.
Divisão
Segundo Sader, “as duas primeiras décadas deste século foram marcadas por esse processo de reação e resistência latino-americana.” E que, “depois de idas e vindas, na terceira década do século XXI o continente está dividido em dois grupos radicalmente opostos. Um, centrado nos governos do México e do Brasil, representa os governos que dão continuidade ao movimento antineoliberal, com governos consolidados democraticamente, com grande expansão econômica, com índices sociais muito positivos, especialmente do desemprego”. Apenas não fica claro de onde ele tira essas conclusões, certamente não será da realidade concreta.
No Brasil, 25% da população depende diretamente do Bolsa Família. O País se desindustrializou, como vimos, então, o número de empregos naturalmente declinou e o poder de compra está deteriorado, o que se agrava com uma taxa de juros que só perde para a Turquia.
No setor de serviços, os empregos são precarizados e muita gente já não procura emprego com carteira assinada, desistiu, prefere fazer bico, ou trabalhar com aplicativos, o que dá na mesma. As pessoas que são “empreendedoras” no Brasil não têm vencimentos em média acima de R$ 3 mil reais, além de não terem férias, previdência, décimo terceiro, e depender do SUS está cada vez pior, visto que os bancos abocanham metade do orçamento da União, estados e municípios.
O avanço da extrema direita é decorrência da falência da esquerda, que abandonou suas bandeiras históricas para defender a democracia, por um lado; e, por outro, pela ação direta das “democracias liberais”. A extrema direita, em certo sentido, é também decorrência do neoliberalismo, que destruiu os Estados e fez surgir grupos nacionalistas, muitos dos quais lutam genericamente contra o globalismo. O que faz com que os “democratas” tentem conter esses grupos dentro de certos limites.
No Brasil, por exemplo, a burguesia colocou Jair Bolsonaro na cadeia, uma prova de que a burguesia não quer ainda esse tipo de governo, o mesmo fenômeno se observa na Europa.
Polos opostos
Emir Sader cria na América Latina um polo formado por Uruguai e Colômbia de um Lado, contra Chile e Argentina de outro. Uma espécie de democracia x neoliberalismo. Mas, na verdade, a extrema direita avança com força total, há golpes por toda parte, fraudes eleitorais, e tudo sob a batuta do imperialismo. Essa oposição que o articulista tenta vender é falsa. O problema está nas mãos do grande capital, em grande ofensiva. Basta ver o que fizeram na Venezuela e agora no Irã.
A verdade é sempre revolucionária
Dizer a verdade não prejudica a esquerda. Por exemplo, um prefeito pode ir a seus eleitores e dizer que não conseguiu construir uma creche porque a dívida pública corrói o orçamento, poderia explicar isso e mobilizar a população para exigir a auditoria e o fim dos pagamentos.
Em vez de pintar um mundo cor-de-rosa, é muito melhor analisar a realidade friamente, pois apenas assim se poderá intervir de forma adequada. Ficar acreditando que tudo vai bem, leva a políticas equivocadas.
Há jornalistas dizendo que o Brasil vai bem e a população não quer votar em Lula porque não enxerga. O resultado disso é que a política do governo não vai ser alterada, visto que o problema é do eleitorado, e vai continuar mergulhando rumo à derrota.
O PT deveria, há muito tempo, ter radicalizado, buscado apoio nas massas. Mas, como fazer isso se “tudo vai bem”? Não mexe em time que está ganhando, diz a sabedoria popular. No entanto, a realidade está provando que nada está bem, e que é preciso mudar.





