O Estadão publicou um editorial intitulado Um país cansado de Lula. O jornal da família Mesquita registra que a desaprovação do governo supera a aprovação em todas as pesquisas recentes e conclui que o ciclo político do PT se esgotou. O diagnóstico não é novo, mas o momento em que a grande imprensa o publica com essa ênfase revela o que a burguesia está preparando. Cansado de Lula, cansado de Bolsonaro: o objetivo é abrir espaço para um candidato da burguesia, um Milei brasileiro. É a política do “nem Lula nem Bolsonaro”, e o candidato que a burguesia quer colocar no lugar será um verdadeiro carrasco dos trabalhadores.
O problema é que o diagnóstico, por mais interessado que seja, não está errado.
O Brasil viveu mais de 20 anos sob governos do PT. A situação do País é muito ruim, diferente do que o partido afirmava até pouco tempo, quando falava em economia maravilhosa. A política petista teve sua maior viabilidade no período em que a venda de commodities estava em alta no mercado internacional. Quando esse ciclo se encerrou, a situação do PT começou a ladeira abaixo. Em grande medida, o partido sobreviveu politicamente por causa do bolsonarismo, pela polarização, e não por mérito próprio.
O empate técnico com Flávio Bolsonaro nas pesquisas é a expressão eleitoral desse quadro. Flávio Bolsonaro não é Jair Bolsonaro. Bolsonaro é um líder político com base própria. Flávio é um burocrata apoiado pelo sobrenome do pai. O fato de que esse candidato esteja empatado com o PT em março do ano eleitoral, com toda a vantagem que a polarização dá ao petismo, indica que a situação é muito problemática. O PT cantou vitória antes do tempo, subestimou a transferência de voto do pai para o filho e, agora, se vê diante de um quadro eleitoral que ele próprio ajudou a formar.
A lição que a esquerda reformista nunca aprende é que a aliança com a burguesia tem um ônus muito grande. A política de colaboração de classes leva inevitavelmente ao prejuízo dos aliados populares. O PT apoiou os 15% de taxa de juros, implementou o arcabouço fiscal, adotou medidas que contrariavam os interesses dos trabalhadores e agora colhe o resultado: a burguesia que apoiou essa política está desembarcando, e o eleitorado popular não tem razões suficientes para se entusiasmar.
O desafio que o PT enfrenta é grande. Flávio Bolsonaro tem um programa: reforma da previdência, reforma trabalhista, reforma fiscal, privatizações. É um programa estilo Milei. Para combatê-lo, o PT precisaria de um programa de esquerda, contra qualquer reforma trabalhista, contra qualquer reforma da previdência, em defesa das estatais. Mas o partido vai para as eleições montando uma frente com elementos da burguesia. Se apresentar um programa de esquerda de verdade, perde o apoio burguês. Se não apresentar, não tem como disputar o eleitorado que Flávio Bolsonaro está conquistando com a promessa de fazer o que a direita faz sem disfarce.
Essa é a armadilha em que o PT se colocou. A saída existe, mas exige um profundo deslocamento à esquerda que o Partido, nas condições políticas em que se encontra, terá muita dificuldade em fazer. O Estadão sabe disso e é por isso que publica seu editorial agora.





