Em artigo publicado no Brasil 247 em 22 de março de 2026, o jornalista Reynaldo Aragon sustenta que o caso Banco Master “não é escândalo” e sim uma “guerra psicológica” destinada a “manipular a percepção pública” e desgastar o governo Lula. O texto parte de um ponto correto — a grande imprensa burguesa age conforme os interesses da própria burguesia e procurará usar qualquer crise em benefício de seu plano político —, mas desemboca em uma conclusão falsa e desarmadora: a de que o essencial seria combater a operação da imprensa, relegando a segundo plano o caráter escandaloso do próprio caso, as relações promíscuas entre o capital financeiro, autoridades e setores do Supremo Tribunal Federal.
A imprensa burguesa vai, de fato, manipular o caso conforme seus interesses. Ela é um órgão de classe. Não existe para esclarecer o povo, mas para defender os interesses do grande capital. Se o plano da burguesia não for reeleger Lula, mas impulsionar uma alternativa com mais condições de aplicar um programa neoliberal de choque, ao estilo Javier Milei, então ela utilizará o Banco Master para esse fim. Isso é evidente. Mas daí não decorre que o escândalo deixe de ser escândalo.
O título já é revelador: Banco Master não é escândalo. É guerra psicológica. Só que, poucas linhas adiante, o próprio autor escreve: “o escândalo existe. A operação também”. Ou seja, o texto se desmente sozinho. Se o escândalo existe, então não se pode começar negando sua existência. O que há é uma tentativa de dissolver a gravidade do caso sob uma montanha de expressões pomposas sobre “engenharia cognitiva”, “arquitetura da percepção”, “guerra híbrida” e “disputa informacional”. Esse palavrório serve para dar verniz teórico a uma operação muito concreta: empurrar a esquerda para a defesa do governo e, pior ainda, para a defesa do STF.
O problema é que o Banco Master é um caso visivelmente escandaloso. Não se trata de invenção da imprensa. Trata-se de um episódio que envolve o sistema financeiro, figuras do aparelho de Estado e, ao que tudo indica, conexões profundamente comprometedoras com autoridades de altíssimo escalão. O próprio artigo admite que há “relações com elites econômicas, circulação em ambientes de poder e proximidades que, embora não ilegais, são politicamente sensíveis”. Isso já basta para demolir a farsa do título. Mais ainda quando o autor reconhece que a fronteira entre o público e o privado segue “permeável” no Estado brasileiro. Ora, se é assim, então há um problema real, grave e de fundo.
No entanto, em vez de partir daí para uma denúncia consequente do regime, o texto tenta conter os danos. Aragon escreve que “o que aparece no entorno do caso Banco Master não configura, até o momento, prova de crime por parte de ministros”. A participação ou a proximidade de ministros do STF em ambientes ligados a um escândalo bancário já é, por si, um fato gravíssimo. E, no caso presente, não se fala de meras fotos sociais ou encontros ocasionais. Fala-se de um emaranhado de relações que lançam suspeitas pesadíssimas sobre uma Corte que a esquerda pequeno-burguesa insiste em tratar como sagrada.
É aí que aparece a verdadeira função do texto. Ele não quer apenas denunciar a manipulação da grande imprensa. Quer preservar o STF. Quer sustentar a frente ampla como uma frente em que o governo Lula, o Supremo e setores da burguesia liberal apareceriam do mesmo lado contra a direita. Essa operação é desastrosa. O STF não é aliado do povo. O STF é um inimigo político. É uma Corte não eleita, sem controle popular, profundamente vinculada aos interesses do regime e sempre pronta a agir contra os trabalhadores quando necessário. O fato de ter entrado em choque com o bolsonarismo em determinadas circunstâncias não transforma seus ministros em representantes do povo.
O texto deixa isso claríssimo quando afirma: “defender instituições sem blindar práticas questionáveis. Reconhecer fragilidades sem aceitar manipulação”. Mas, na prática, o artigo faz justamente o contrário. Fala em não blindar, enquanto blinda. Reconhece “fragilidades”, mas corre imediatamente para recompor a autoridade política da Corte. Em vez de dizer que ministros envolvidos em relações escandalosas devem ser expostos e combatidos, o autor procura separar o governo Lula do ambiente do caso e, ao mesmo tempo, evitar que o desgaste atinja o Supremo.
Essa posição é tanto mais grave porque parte de um diagnóstico parcialmente verdadeiro. Sim, a burguesia manipulará o caso a seu favor. Sim, a cobertura dos monopólios de imprensa será seletiva. Sim, ela ocultará muitos de seus próprios vínculos com o sistema financeiro enquanto concentrará fogo onde for mais útil eleitoralmente. Mas um governo realmente popular, apoiado em medidas profundas contra o grande capital, não seria derrubado pela propaganda da imprensa. O problema do governo Lula é outro: ele não tomou nenhuma grande medida de impacto contra os exploradores. Capitular diante do grande capital foi sua linha desde o início. Colocou Gabriel Galípolo no Banco Central. Não resolveu o desemprego. Não elevou de maneira substancial o salário mínimo. Não enfrentou os bancos. Não rompeu com a tutela do mercado. Com isso, abriu o flanco para que cada crise real se transformasse em desgaste político.
Ou seja, a debilidade do governo não nasce da “guerra psicológica”. Nasce de sua própria política de conciliação. A imprensa burguesa aproveita isso, como sempre aproveita. Mas não o cria do nada. Aragon inverte essa ordem. Não se trata, portanto, de escolher entre acreditar na Folha ou no 247. Trata-se de enxergar que a burguesia, dividida em frações, usa um escândalo real para levar adiante seus planos, e que o governo Lula chega fragilizado a esse embate porque se negou a enfrentar os interesses fundamentais do capital financeiro.
A saída, portanto, não é negar o caso, nem repetir a versão moralista da grande imprensa. A saída é outra: denunciar a manipulação burguesa sem apagar o escândalo; denunciar o escândalo sem salvar o governo de sua responsabilidade; denunciar o STF sem absolver a imprensa.





