Estados Unidos

O desastre econômico que levou Trump a recuar

Em 23 de março de 2026, Donald Trump anunciou o adiamento, por cinco dias, de ataques planejados contra a infraestrutura de energia e usinas elétricas do Irã

Após quase um mês de guerra entre o Irã e os Estados Unidos, a economia norte-americana passou a registrar uma deterioração simultânea em diversos indicadores, com alta da energia, pressão inflacionária, piora das expectativas de crescimento e aumento da instabilidade financeira. Esse quadro ajuda a explicar a crise do governo Donald Trump, que passou a buscar uma saída para encerrar a guerra e conter seus efeitos sobre o mercado interno.

O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos, projetado em 4% em janeiro de 2026 pela Casa Branca, foi revisto para 2,2% no relatório do Goldman Sachs de 12 de março. Ao mesmo tempo, o Índice de Preços ao Produtor (PPI) subiu 0,7% em fevereiro, acumulando alta de 3,4% em 12 meses. Em meio a esse cenário, o rendimento dos títulos do Tesouro de 10 anos operou a 4,33% em 16 de março, enquanto os gastos com juros da dívida pública federal ultrapassaram a marca de US$1 trilhão anual.

O Departamento de Comércio, por sua vez, reportou retração nas encomendas de bens duráveis e no consumo das famílias após o início das operações militares no Irã. Já o Banco Central norte-americano (Fed, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros no intervalo de 3,5% a 3,75% em 18 de março, citando a situação no Oriente Médio e a pressão de alta nos custos de energia. Dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho também mostram que a criação de vagas de emprego permaneceu abaixo das expectativas do mercado no primeiro trimestre de 2026, com a taxa de desemprego projetada em 4,4% para o fechamento do ano.

A deterioração econômica aparece de forma ainda mais clara no setor de energia. O preço do barril de petróleo Brent atingiu US$ 112,08 em 22 de março de 2026, representando uma alta de 42,75% em trinta dias. Esse movimento elevou o preço médio da gasolina nos Estados Unidos em US$ 1,00 por galão no período. No mesmo sentido, o Departamento de Estatísticas do Trabalho informou que o componente de energia para bens de demanda final saltou 2,3%, pressionando ainda mais os custos internos.

No mercado de refino, o Diesel registrou alta de 13,9% no último relatório mensal, impactando diretamente os custos de transporte de carga. Diante disso, as projeções do Goldman Sachs de 12 de março passaram a indicar que a inflação PCE (Gastos de Consumo Pessoal, na sigla em inglês) deve encerrar 2026 em 2,9%, ante a estimativa anterior de 2,1%. Um dos fatores decisivos para essa pressão foi o colapso do fluxo de óleo cru pelo Estreito de Ormuz, responsável por 21% da movimentação global, que caiu para níveis próximos de zero na terceira semana de março devido aos riscos de navegação.

Esse quadro também se refletiu nas decisões do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês), que votou por 11 a 1 para manter a taxa de juros de referência no intervalo de 3,5% a 3,75% em 18 de março de 2026. No comunicado oficial, o órgão afirmou que a atividade econômica ainda se expande em ritmo sólido, mas classificou as implicações do conflito no Oriente Médio como “incertas”. As projeções econômicas atualizadas do Federal Reserve elevaram a estimativa de inflação PCE para 2,7% em 2026, acima dos 2,4% previstos em dezembro.

A crise no Estreito de Ormuz ampliou o impacto para além do petróleo. O canal, responsável pela passagem de 21% do suprimento global de petróleo e 20% do Gás Natural Liquefeito (GNL), registrou queda no tráfego de navios petroleiros para níveis próximos de zero na terceira semana de março de 2026. O bloqueio afetou ainda o fornecimento de componentes de fertilizantes, como amônia e fosfatos, colocando a agricultura dos EUA em patamares de preços recordes, conforme dados da consultoria Board International.

Como as rotas alternativas terrestres e marítimas operam com capacidade limitada, elas não conseguiram absorver o déficit de oferta gerado pelo conflito. O Goldman Sachs estima que uma interrupção total por 30 dias elevaria o preço médio do barril Brent para US$110 em abril. No setor de commodities agrícolas, o impacto logístico já gerou escassez imediata de insumos básicos, com produtores rurais de Michigan e do Meio-Oeste relatando impossibilidade de planejar os custos da safra de 2026.

Nos mercados financeiros, o ambiente também se deteriorou. O Dow Jones Industrial Average registrou 45.577,47 pontos em 20 de março de 2026, operando em patamares de elevada volatilidade, conforme monitoramento da StockCharts. O índice S&P 500 fechou em 6.609,60 em 16 de março, acumulando queda de 2,1% no ano, enquanto o Nasdaq recuou 3,7% no mesmo período, refletindo a desvalorização de ativos de tecnologia e varejo.

Analistas do EconomicGreenfield indicam que o nível de risco financeiro atual se assemelha à situação do ano de 2008, com projeções de um ajuste de “grande magnitude” em escala histórica. No mercado de trabalho, o enfraquecimento também se tornou mais evidente. A taxa de desemprego nos Estados Unidos foi projetada em 4,4% para o fechamento de 2026 pelo Federal Reserve em 18 de março, enquanto o Goldman Sachs revisou o pico do indicador para 4,6% devido ao choque energético.

A crise fiscal completa o quadro de deterioração. A dívida pública dos Estados Unidos atingiu um ponto de inflexão em março de 2026, com o custo anual apenas com o pagamento de juros superando US$1 trilhão. Esse montante iguala ou supera o orçamento de defesa do país, segundo dados do Comitê de Orçamento do Congresso. Em 18 de março, o Fed já apontava que a carga da dívida limitava a margem de manobra para novos estímulos fiscais ou para uma intervenção militar prolongada.

É nesse cenário que se insere a mudança de postura da Casa Branca. Em 23 de março de 2026, Donald Trump anunciou o adiamento, por cinco dias, de ataques planejados contra a infraestrutura de energia e usinas elétricas do Irã. A decisão veio após o vencimento parcial de um ultimato de 48 horas dado em 21 de março para a reabertura do Estreito de Ormuz.

A resposta do mercado foi imediata. O preço do barril de petróleo Brent caiu 9,49% em 23 de março, fechando em US$101,44, depois de ter superado os US$112 no dia anterior. O governo iraniano, por meio do chanceler Abbas Araghchi, negou formalmente a existência de negociações diretas ou de pedidos de cessar-fogo, atribuindo o recuo dos Estados Unidos à pressão do grande capital e às ameaças do Irã contra bases norte-americanas no Golfo.

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