O artigo Como ganhar e manter o apoio das massas populares, de Jair de Souza, publicado no Brasil247 neste domingo (22), trata do PT. Nesse caso, o título ficaria melhor com um “como perder o apoio das massas”, pois é disso que se trata a história desse partido que, apesar de ter mais de 1,6 milhão de filiados, não consegue converter essa quantidade em qualidade.
Segundo o artigo, “ao discursar durante sua participação no ato de celebração do 46º aniversário do PT, Lula fez alusões críticas à atuação de seu partido nas últimas décadas. Dos pontos por ele mencionados, podemos destacar a drástica perda de influência e relevância sofrida pela agremiação em diversas regiões importantes”.
Adiante, o texto diz que “a esse respeito foram citados nominalmente os grandes centros operários do ABCD (Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), as cidades de Guarulhos, Campinas, Araraquara, etc., onde, de principal e mais pujante força política, o PT passou a desempenhar um papel muito mais acanhado”.
De início, pode-se dizer que o PT perdeu apoio pela ação de sua direção, da qual Lula fazia parte.
O PT, sentindo que poderia vencer eleições, e para se apresentar como um partido limpinho para a burguesia, expulsou a Causa Operária em 1991 em um processo de caça às bruxas que recebeu o bonito nome de “Regulamentação de Tendências”. A Causa Operária, apesar de ter participado da formação do PT, teve apenas 30 minutos para poder se defender. Em seguida, o PT expulsou a Convergência Socialista, enquanto outras tendências, como O Trabalho, se submeteram.
Comunicação própria
A Causa Operária, enquanto compunha o PT, insistia para que o partido tivesse imprensa própria, com jornais, revistas, livros, rádio e até pleiteasse um canal de TV para sindicatos, estudantes, movimentos como o dos trabalhadores sem-terra, dentre outros, pudessem se expressar.
O fato é que o Causa Operária nunca foi levada a sério. A direção petista acreditava que poderia se apoiar na Folha de São Paulo, uma imprensa burguesa, para se expressar. Com isso, toda vez que era atacado, o PT nunca pôde se defender, o que o tornou presa fácil.
Seria fácil manter uma imprensa, bastaria que cada filiado e sindicato fizesse assinaturas. A gráfica do Sindicato dos Bancários possuía uma máquina rotativa, o que possibilitava até mesmo a existência de um jornal diário para ser vendido em bancas de jornais. Porém, nunca houve vontade política, um erro colossal, pois Lênin já havia escrito sobre a importância de um jornal partidário.
Militância
No início, o PT era formado por uma militância bastante aguerrida e voluntariosa. Os militantes se juntavam para formar diretórios, sempre havia eventos como festas, shows de teatro e música, mas tudo isso foi sendo tolhido por decisões cada vez mais centralizadas, e os militantes praticamente não tinham voz ou qualquer poder de decisão.
Não houve preocupação em formar quadros partidários com reuniões de células e para a organização de atividades. O resultado não poderia ser outro. Um partido com um grande número de filiados, mas que não são mobilizados ou centralizados. Portanto, é verdade que “não há dúvidas de que, até por volta do fim dos primeiros anos deste século, nenhuma outra organização ou corrente política entusiasmava tanto o imaginário de nossos jovens. Hoje, no entanto, a adesão juvenil ao PT está longe de ser tão apaixonada”.
Em vez de ficar tentando “descobrir quais foram os fatores responsáveis pela mudança ocorrida em nossa sociedade que levaram muitos a se afastarem do partido que antes gozava de uma bem mais ampla simpatia”, fica mais fácil saber como a direção petista.
Jair Souza cita em seu texto que “Lula e Dilma estiveram no comando do governo federal”, mas quem era o vice de Lula, José Alencar, um burguês. Quem foi o vice de Dilma Rousseff? O golpista Michel Temer. Pessoas que nada têm a ver com a classe trabalhadora.
O PT quis agradar à burguesia, seja expulsando a esquerda partidária, seja com a indicação de vices “palatáveis”, como o latifundiário José Paulo Bisol.
Tentar descobrir uma “mudança ocorrida em nossa sociedade”, vai apenas eximir o papel da direção petista, que privilegiou eleições em detrimento da formação de um partido militante.
Adaptação
Quando Collor de Mello caiu e Itamar Franco assumiu, a direção petista não teve coragem de chamar novas eleições e mobilizar seus militantes, temia desde aquela época a instabilidade política e, na prática, fez uma oposição frouxa ao governo.
O PT também nunca privilegiou a indicação de candidatos operários para cargos, como a prefeitura de São Paulo, que acabou passando pelas mãos de elementos da burguesia, como Eduardo e Marta Suplicy. Esta última chegou mesmo a votar pelo impeachment de Dilma Rousseff, no golpe de 2016.
Marta Suplicy ficou conhecida como Martaxa. Fernando Haddad, em 2013, esteve ao lado do tucano Geraldo Alckmin (hoje vice de Lula) no aumento das tarifas no transporte público, o que deu lugar a manifestações.
O texto de Jair Souza se perde procurando o problema nas massas para a perda de apoio. Fala de “explicações simplistas, que atribuem o ocorrido a um sentimento de ingratidão que seria inerente a boa parte de nosso povo”, e de “um antigo debate travado entre, por um lado, quem argumenta que as motivações econômicas jogam um papel decisivo na luta política em uma dada sociedade e, por outro, os que defendem que os valores de cunho moral exercem mais influência no comportamento das massas do que os relacionados com fatores econômicos”.
Motivos externos
O único motivo externo relevante para a perda de apoio do PT foi a desindustrialização do país, especialmente na gestão de FHC. No plano mundial, com o avanço do neoliberalismo e com a entrada de milhões de trabalhadores chineses no mercado de trabalho, e consequente barateamento da força de trabalho, crescimento do desemprego, os sindicatos foram perdendo força.
Nesse ponto, porém, o PT não soube se colocar, não deu o combate devido ao desmantelamento da indústria nacional.
Na presidência, o PT, devido aos acordos que fez com a burguesia, nunca deu a ênfase devida à reforma agrária. Desse modo o partido perdeu apoio nas cidades e também no campo.
Souza crê que “o retrocesso do PT apontado e criticado por Lula é decorrente de uma política equivocada por parte dos governos petistas. Para [ele], o equívoco maior foi o abandono da ideia de que o povo deve ser protagonista na conquista de suas reivindicações. Desde que assumiu as rédeas do governo, em 2003, Lula nunca convocou a mobilização popular para travar as lutas concretas em favor das melhorias almejadas”. O problema é que isso não começou em 2003, começou lá atrás.
O articulista diz que “para recuperar e manter o apoio e o engajamento efetivo das massas populares, Lula e o PT devem voltar a acreditar no poder construtivo da mobilização consciente do povo”. No entanto, quem chama presidente do Banco Central, que impõe juros de 15% ao ano de “menino de ouro” não parece estar disposto a essa tarefa.





