Paulo Marçaioli

Formado em direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP e dono do blog Esperando Paulo

Coluna

‘O Cabeleira’ – Franklin Távora

Resenha Livro - “O Cabeleira” – Franklin Távora – Ed. Ática – Série Bom Livro

“O Cabeleira” (1876) é o primeiro livro da trilogia qualificada por Franklin Távora (1842/1888) como “Literatura do Norte”. O contexto literário da obra remete ainda ao romantismo, marcado pelo subjetivismo e idealização da realidade, o sentimentalismo, a ênfase em personagens dotados de pouca verossimilhança e plausibilidade nas suas condutas, e o nativismo de matriz nacionalista, tendo como maior expoente, naquele momento, José de Alencar (1829/1877).

Transcorreram pouco mais de 30 anos entre a independência política do Brasil em relação à Portugal e o início daquilo que ficou conhecido como a primeira fase do nosso romantismo. A recente proclamação da independência de 1822 ensejava uma resposta à pergunta: afinal, quem somos nós brasileiros? A forte presença do índio naquele movimento literário vinha como forma de resposta a essa pergunta.

A despeito desse aspecto positivo do romantismo brasileiro, ao criar as bases de uma literatura genuinamente nacional, o modelo ainda estava sujeito à forte idealização da realidade, que tornavam as histórias divorciadas das reais condições de vida do povo.

Pois é justamente através da oposição frontal a essa tradição literária romântica idealista, capitaneada pelo autor de “Iracema”, que Franklin Távora irá desenvolver a sua proposta literária qualificada como “Literatura do Norte”.

Elaborou o seu projeto através do ensaio “Cartas a Seprônio e Cincinato” (1870) onde trava uma polêmica com José de Alencar em torno das obras regionalistas do consagrado escritor cearense, como “O Sertanejo” e “O Gaúcho”. A crítica reside justamente na infidelidade com que as obras românticas retratam a realidade e as especificidades regionais, seja ao retratar os matutos e caboclos ao norte, ou o Brasil sulista, temperado nas guerras e na animosidade bélica de gaúchos e caudilhos, que se entrincheiram em suas fazendas, disputando terras na bala com os espanhóis.

Franklin Távora acusa José de Alencar de ser um escritor de gabinete, que retrata realidades que só conhece através dos livros. Em oposição, Távora propõe histórias que reproduzam a realidade com a mesma “exatidão daguerrotípica”, referindo-se a um equipamento precursor da máquina fotográfica. O realismo literário proposto pelo autor de “O Cabeleira” antecede em dez anos a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1880), tradicionalmente compreendida coma a obra que inaugura o realismo/naturalismo na literatura Brasileira.

Outra inovação proposta nas “Cartas” diz respeito à oposição entre literatura produzida ao norte e ao sul do Brasil – cumprindo aqui salientar que no século XIX, quando se falava o “norte”, fazia-se alusão tanto à região do nordeste quanto ao norte propriamente dito, conquanto o “sul” se refere especialmente ao Rio de Janeiro, onde, desde o século XVIII, se situava o centro político e cultural do Império. O regionalismo de Távora, se não o conduziu ao separatismo como outros pernambucanos do estilo de Frei Caneca, ao menos o levou a acreditar que cada região do país deveria constituir um projeto literário próprio, autônomo. Uma literatura do norte e outra literatura do sul.

“O Cabeleira” pode ser considerando tanto um livro de literatura quanto uma obra de história de Pernambuco do século XVIII, versando sobre um personagem real, que permeia a cultura popular nordestina. O protagonista é um antecessor do Lampião – um bandido dotado de algumas qualidades morais, que desperta o medo mas também alguma admiração no imaginário popular. As fontes das quais se serviu o escritor para contar a história do bandoleiro foram duas: (i) a tradição oral nordestina, incluindo poemas, trovas e cantigas que fazem alusão ao Cabeleira; e (ii) fontes documentais históricas propriamente ditas, inspiradas em passagem das “Memórias da província de Pernambuco” de Fernandes Gama.

O bandoleiro e seu grupo atuaram nos anos de 1770/1780 nos sertões de Pernambuco, levando o terror às populações extremante isoladas dos centros urbanos do litoral, sem qualquer proteção do Estado e suas instituições policiais.

Atacavam povoações, matavam indiscriminadamente e geravam o terror, que se acentuava à medida que as notícias dos saques circulavam e a reputação de Cabelereira crescia, conduzindo o povo a abandonar suas casas e esconder-se no mato, quando avisados que o grupo de bandoleiros se aproximava.

As históricas ficaram no imaginário popular através de trovas cantadas ao tempo que o escritor escreveu seu livro. Mães e aias, cem anos depois da morte de Cabeleira, cantavam a história desse Rodin Hood pernambucano para fazer as crianças, tomadas de pavor, adormecerem mais depressa:

“Fecha porta, gente,

Cabeleira aí vem,

Matando mulheres,

Meninos também”.

Fosse Cabeleira um mero bandido cruel e perverso, certamente não teria sido alçado a condição de um “semi-heroi” popular.

Poderíamos falar, aqui, de um “quase-heroi” ou um “semi-heroi”.

Em todo o livro, o escritor procura defender a tese de que os atos de violência e crueldade do protagonista tiveram como fonte primordial a pobreza, a ignorância e a ausência de cuidados na infância. A duplicidade no espírito do “quase-heroi” se evidencia na sua relação com o pai e com a mãe. Em Cabeleira conviviam de um lado um espírito benigno e amoroso, oriundo do lado materno. José Gomes (assim se chamava Cabeleira) tinha uma mãe boa e cândida, que lutava por manter o filho no caminho correto, mas um pai extremamente cruel e perverso, que o conduziu ao mundo do crime. Foi justamente esse pai, chamado Joaquim, cuja temeridade não conhecia limites, que engajou ou filho desde criança aos saques, roubos e assassinatos – enquanto o genitor era capaz de matar e depois debochar do corpo do morto, Cabeleira, levando em consideração o seu lado materno, era capaz de sentir remorso e arrependimento, depois que matava. Joaquim nunca se constituiu em um herói, diferentemente do filho, um “quase-heroi”.

Ao final da vida, Cabeleira apaixona-se por Luisinha, uma companheira de infância, que o faz renunciar por completo os atos de violência – isso quando já era acossado pela perseguição de milícias constituídas especificamente para caçar o grupo de bandoleiros.

Cabeleira tem uma visão, enxerga no exato ponto onde há algum tempo matara um homem, a figura do defunto desafiando-o. A aparição do morto, somada às orações de Lusinha, levam o herói ou “semi-heroi” a abandonar suas armas. Quando foi finalmente capturado e conduzido à forca, enfrenta a morte com altivez e coragem, afirmando: “Morro arrependido dos meus erros. Quando caí no poder da justiça, meu braço era já incapaz de matar, porque eu já tinha entrado no caminho do bem…”.

A ideia de “semi-heroi” ou “quase-heroi” se justifica desde a forma com que o Franklin Távora via o problema do banditismo social no nordeste. Logo no primeiro parágrafo do livro, e em diversas outras passagens, o escritor afirma que os atributos morais e a nobreza do coração de Cabeleira poderiam tê-lo conduzido à condição de um herói pernambucano – mas a pobreza e a ignorância levaram-no a usar sua coragem e iniciativa para matar e saquear, para praticar o mal. O seu espírito se debatia entre a candidez materna e a crueldade paterna, prevalecendo o mal ante a situação de extrema pobreza nos sertões do Pernambuco. Assim afirma o romancista em uma das passagens do livro:

“Não é sem grande constrangimento, leitor, que a minha pena, molhada em tinta, graças a Deus, e não em sangue, descreve cenas de estranho canibalismo como as que nesta história se leem. Aperta-se-me naturalmente o coração sempre que me vejo obrigado a relatá-las. Entre os motivos da minha repugnância e da minha tristeza sobressai o seguinte: Eu vejo nestes horrores e desgraças a prova, infelizmente irrecusável, de que o ente por excelência, a criatura fadada, como nenhuma outra, para altíssimos fins, pode cair na abjeção mais profunda, se o afastam dos seus sumos destinos circunstâncias do tempo e lugar que, nada, ou muito pouco valendo por si mesmas, são de grande peso para a perturbação do equilíbrio moral do rei da criação, tal é a fragilidade da realeza, ou antes das realezas humanas.”.

Nos últimos parágrafos do livro, o escritor conclui a história do Cabeleira afirmando o seu posicionamento político em torno do problema da violência e banditismo social. Seu espírito liberal fez com que se opusesse abertamente à morte pela forca do protagonista – reforçando que a origem da violência é a questão social. Defendeu também os direitos do preso à defesa e sua incolumidade no período das investigações. Transcorridos 150 anos desde quando o livro foi escrito, pode-se dizer que esse ponto de vista é ainda hoje desafia abertamente o conservadorismo brasileiro, que afirma que o bandido bom é o bandido morto.

SOBRE O ESCRITOR

João Franklin da Silveira Távora foi jornalista, deputado provincial, historiador ligado ao IHGB e romancista. Ficou conhecido na história da literatura brasileira como fundador da chamada Literatura do Norte, escola assim designada por Sílvio Romero, precursora do regionalismo literário nordestino, cuja maior expressão se daria dentro da geração modernista do início do século XX, com escritores como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado.

Nosso escritor nasceu em 13 de Janeiro de 1842 no sítio Serrinha da Glória, antiga Candeia, região encravada na Serra de Baturité, no centro-norte do Ceará. Era filho de Camilo Henrique da Silveira Távora, alcunhado de “o indígena”, um liberal simpático aos movimentos revolucionários de 1817 e 1824.

A Revolução Pernambucana de 1817 foi um movimento de caráter liberal e republicano, cujas origens remetem à divulgação das ideias revolucionárias da revolução francesa e a oposição ao absolutismo monárquico Português: o descontentamento dos liberais pernambucanos foi agravado pelos enormes gastos pecuniários decorrentes da chegada da Família Real Portuguesa no Rio de Janeiro, com aumento de impostos para manter o luxo da corte e para travar guerras na Cisplatina, sem prejuízo da nomeação de portugueses para os cargos públicos em detrimento da nobreza da terra.

Já em 1824 eclodiu a Confederação do Equador, movimento de caráter mais nitidamente separatista, liderado pelo padre Frei Caneca e que contou com apoio financeiro dos EUA, que já naquele tempo se interessava pela fragmentação territorial do Brasil, a balcanização de um grande país como meio de melhor subjugá-lo.

O radicalismo político pernambucano, tanto 1817 quanto 1824, encontra sua origem mais remota em 1710/1711 na Guerra dos Mascates, que seria tratada com minúcia pelo escritor nos livros “O Matuto” e “Lourenço”, que correspondem aos outros dois livros da trilogia “Literatura do Norte”.

Politicamente, Franklin Távora seguiu os passos do pai: sempre foi um progressista, defendendo a abolição da escravidão, a república e a reforma das instituições de ensino.

Entre os anos de 1859 e 1863, o autor de “O Matuto” estudou na Faculdade de Direito do Recife, quando fundou e participou de centros, sociedades e associações de estudantes voltadas a atividades literárias e políticas. Neste período, também se aproximou do jornalismo, com o nobre objetivo de ajudar financeiramente a família, que passava por dificuldades. Começou como tipógrafo e foi evoluindo para revisor de provas, repórter, editor, chefe de redação e, mais tarde, fundador de jornais.

Sua aproximação com a política deu-se neste período de participação na imprensa, tendo atuado no “Jornal do Recife”, fundado em 1859 por José de Vasconcellos e, alguns anos depois, no Jornal “A Situação” liderado pelo Conselheiro Francisco de Paulo Silveira Lobo, filiado ao Partido Progressista.

Já ligado a este último partido, foi eleito deputado provincial de Pernambuco para mandato entre 1867/1868, quando tinha apenas 25 anos de idade. Já no primeiro ano de mandato, é nomeado para o cargo de Diretor Geral da Instrução Pública, cargo que hoje equivale ao secretário estadual de educação.

Ao assumir o encargo, declarou que pretendia reformar as instalações da Diretoria-Geral, dos diversos colégios a ela vinculados, reorganizar administrativamente as atribuições dos professores e lutar pela liberdade de ensino em Pernambuco. Neste trabalho, encontro ferrenha oposição do Partido Conservador.

Dada a sua orientação política liberal e progressista, Távora se empenhou na campanha de libertação dos escravos na imprensa, sendo responsável por traduzir a famosa carta endereçada ao mundo por Vitor Hugo contra a escravidão, na qual o autor de Os Miseráveis alertava: “Ter Escravo é merecer ser escravo”.

O que é curioso é que o seu posicionamento político progressista, ao contrário do que se poderia supor, não fez com que o escritor deixasse de ser simpatizante do lado de Olinda e dos senhores de engenho, contra os mascates de Recife, em seus dois livros sobre a Guerra dos Mascates.

Na verdade, mais do que um conflito entre comerciantes burgueses e latifundiários, o escritor via naquela guerra as sementes do movimento de libertação do Brasil em relação à Portugal: a oposição retratada nas obras de dava entre a opressão da metrópole e a reação nacionalista liderada pelos nobres de Olinda. Ainda que numa leitura mais economicista ou marxista daquele conflito, o lado burguês e citadino de Recife aparecesse como “progressista” em relação ao lado aristocrático dos senhores de engenho de Olinda. O conflito, nesta perspectiva, se deu entre o comércio de natureza capitalista e a agricultura de natureza escravista ou, como querem alguns, “feudal”. Fora dos quadrantes economicistas, o lado progressivas residia na aristocracia de Olinda, como precursora do movimento da Independência Nacional.

Já no final da vida, Franklin Távora abandona a literatura e os trabalhos institucionais, passando, inclusive, por dificuldades financeiras. O escritor morreu no dia 18 de agosto de 1888, com poucas pessoas comparecendo ao enterro. Sílvio Romero, um dos poucos escritores presentes no velório, resumiu com estas palavras o drama vivido pelo seu amigo: “Cumpre destacar em síntese o valor deste escritor, sempre muito maltratado pelos literatos de seu tempo.”.

BIBLIOGRAFIA

  • “O Matuto” – Franklin Távora – Editor Iba Mendes – www.poeteiro.com
  • “Lourenço” – Franklin Távora – Editor Iba Mendes – www.poeteiro.com
  • “Franklin Távora” – Cláudio Aguiar – Série Essencial – Academia Brasileira de Letras – Imprensa Oficial.
  • “O Cabeleira” – Franklin Távora – Ed. Ática

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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