Política internacional

O apoio da China e da Rússia ao Irã

Informações indicam que Pequim e Moscou vêm dando apoio tecnológico, militar e de inteligência à defesa iraniana

As acusações de que China e Rússia estariam omissas diante da guerra contra o Irã foram rebatidas por informações divulgadas por analistas militares, por veículos iranianos e por estudos sobre a cooperação estratégica entre os três países. Os dados apontam que Pequim e Moscou vêm dando apoio concreto ao esforço defensivo iraniano, ainda que sem aparecer diretamente como protagonistas do confronto.

Valério Arcary, parte da esquerda pequeno-burguesa brasileira, afirmou que China e Rússia não estariam ajudando em nada o Irã. No artigo Rússia e China na guerra no Irã, publicado no sítio A Terra é Redonda, ele afirmou que “enganam-se aqueles que, embalados pela nostalgia da ex-URSS, alimentam ilusões que a Rússia poderia ser uma “retaguarda” estratégica da luta anti-imperialista” e que “tudo até aqui sugere que Pequim não será sequer um obstáculo para que o Irã recue, e ceda às pressões de Israel e Washington contra os planos dos Brics”.

Ao mesmo tempo, a avaliação apresentada no programa Análise Internacional, transmitido no canal do Diário Causa Operária, foi de que essa crítica não corresponde aos fatos. No programa, o comandante Robinson Farinazzo afirmou que o Irã não teria capacidade de derrubar um caça F-35 sem tecnologia chinesa ou russa. A mesma análise destacou que, ainda antes da guerra, o país já contava com apoio tecnológico vindo da Rússia, inclusive em sistemas que permitiram neutralizar recursos dos satélites Starlink.

Outra indicação dessa participação apareceu em uma reportagem da emissora iraniana HispanTV, segundo a qual “a participação da China na guerra envolvendo o Irã é mais profunda do que aparenta”. A matéria listou seis elementos centrais desse apoio. O primeiro deles foi o fornecimento militar, com empresas chinesas enviando materiais e insumos ao Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) para a produção de mísseis balísticos e para a ampliação dessa capacidade nos próximos anos.

A emissora também apontou o compartilhamento de inteligência via satélite. Segundo a reportagem, a constelação Jilin-1 e a empresa Mizar Vision estariam fornecendo imagens em tempo real, permitindo acompanhar a movimentação dos Estados Unidos no Golfo e ampliando a capacidade iraniana de leitura do campo de batalha. No mesmo sentido, sistemas como o Beidou e outros satélites chineses aumentariam o monitoramento e a vigilância empregados pelo Irã.

Ainda de acordo com a HispanTV, a guerra também produz efeitos indiretos favoráveis ao Irã no terreno militar e industrial. Os ataques com bombardeiros como o B-2 Spirit acelerariam programas chineses de aeronaves furtivas, enquanto o uso intenso de mísseis Tomahawk pelos Estados Unidos reduziria estoques e abriria brechas estratégicas. A reportagem acrescentou que o controle chinês sobre terras raras, minerais fundamentais para a indústria bélica, já representa por si só um fator de pressão sobre os Estados Unidos.

Do lado russo, os elementos apresentados também apontam uma cooperação material importante. Os VANTs iranianos, conhecidos como Shahed, foram exportados para a Rússia e utilizados na guerra da Ucrânia. Durante esse processo, esses equipamentos passaram por várias melhorias técnicas, o que transformou a experiência russa em um laboratório de aperfeiçoamento para a própria tecnologia iraniana.

Também é preciso destacar a assinatura, em 2025, do Tratado de Parceria Estratégica Abrangente Irã-Rússia. O acordo prevê cooperação em defesa e segurança, inteligência, cibersegurança, combate ao terrorismo e coordenação política e militar mais estreita. A parceria, firmada para cerca de 20 anos, inclui ainda treinamento conjunto de oficiais, exercícios militares, visitas de navios e cooperação entre serviços de segurança.

Ou seja, a atuação mais discreta de China e Rússia não indica ausência de apoio, mas uma forma específica de intervenção. Ao contrário da relação entre os Estados Unidos e “Israel”, em que a ofensiva israelense depende diretamente da participação norte-americana, o Irã mantém o comando de sua própria estratégia militar. Nesse sentido, o auxílio de Pequim e de Moscou aparece na retaguarda tecnológica, na inteligência, na cooperação militar e no fortalecimento industrial, sem necessidade de exposição direta maior diante do imperialismo.

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