Seguimos nossa análise do artigo 2025, o ano por Sem Anistia, assinado por Valerio Arcary e publicado no sítio Esquerda Online em 18 de dezembro, no qual o ex-dirigente do PSTU passa de armas e bagagens para o lado da democracia liberal.
No parágrafo 3, Arcary inicia dizendo que “a conjuntura mudou no segundo semestre. Uma de suas expressões foi a redução de danos pela preservação do mandato de Glauber Braga”. Aqui, vale ressaltar que somos contra a cassação do mandato do deputado; e que, no entanto, essa política antidemocrática é amplamente defendida pela esquerda pequeno-burguesa, que vive pedindo a cassação de mandatos de parlamentares da direita.
Arcary elenca o que seria para ele “os cinco fatores-chave que produziram uma inversão favorável da relação política de forças”, dos quais destacaremos os três primeiros:
“a) a disposição dos setores mais lúcidos e combativos da esquerda de apostar em contínuas mobilizações de rua, indo além do sonambulismo quietista, com a adesão de aliados corajosos no mundo da cultura e da arte;
b) a firmeza dos juízes do STF, à exceção de Luiz Fux;
c) um moderado porém consistente giro à esquerda do governo Lula diante da ofensiva de sanções de Trump contra o Brasil em defesa de Bolsonaro, em defesa da soberania nacional, mas também em defesa da reforma do Imposto de Renda e uma defesa mais politizada da redução do fim da jornada 6×1 através de luta ideológica nas redes sociais, produzindo um deslocamento interno de forças.”
Sobre o item “a”, o que se pode dizer é que prevalece a inércia. As únicas coisas capazes de “despertar” essa esquerda do sonambulismo são a iniciativa da Rede Globo em convocar manifestações, a qual cedeu a maior parte dos “aliados corajosos do mundo da cultura e da arte”; e, claro, a aproximação das eleições.
Quanto a item “b”, é vergonhoso. O que mais se pode dizer? Arcary se prostra diante dessa instituição que foi fundamental para o golpe de 2016, e que vem implementando no País uma verdadeira ditadura, dado que tem usurpado as atribuições do Legislativo. Essa corte, além de julgar, tem legislado, o que é uma afronta à Constituição, que prevê a separação de poderes.
O item “c” distorce a realidade. A reação do governo às sanções não pareceu em nada com uma defesa da soberania nacional. Houve uma correria na tentativa de negociar, de garantir apoio financeiro para o agronegócio e, finalmente, na declaração de que Trump é um amigo. A “reforma” no imposto de renda foi pífia, não repõe sequer a inflação e nem chega perto do período do neoliberal Fernando Henrique Cardoso (FHC), que isentava ganhos de até 8 salários mínimos.
A redução da escala 6×1 também é uma iniciativa da burguesia, que quer flexibilizar a jornada de trabalho para poder desonerar a folha de pagamento, além de acabar com as horas extras de finais de semana, que passarão a ser tratadas como dias normais.
Supostos acertos
No parágrafo 4, Arcary faz aquilo que chama de “balanço sóbrio”, onde considera que “a esquerda teve acertos táticos, apesar das ambiguidades de estratégia”. O articulista, dentre os “acertos táticos” enumera, sustenta que foi importante “ter preservado a unidade da Frente Brasil Popular e sem Medo, unindo as organizações populares e mantido a luta por Sem anistia como centro da disputa política sem perder o rumo da mobilização popular”.
Essas frentes, especialmente a “sem Medo” surgiu exatamente para dividir a mobilização contra o golpe de 2016, que derrubou Dilma Rousseff. Arcary lamenta que “se mantém uma indefinição estratégica incontornável. A questão decisiva é que ainda não está consolidada uma Frente de Esquerda ou Frente Popular, no terreno da independência de classe, que seja um ponto de apoio para a defesa de um programa de reformas estruturais. O mandato de Lula caminha para seu último ano nos estreitos marcos estabelecidos pela Frente Ampla que incorpora frações importantes da burguesia ao governo e limita que se possa avançar”.
O que Arcary não diz, nem poderia, é que a candidatura de Lula para a presidência foi de início rechaçada por essa esquerda. Se a Frente Ampla atrapalha, é preciso dizer que eles mesmos tentaram criar não uma frente ampla, mas amplíssima. Foi buscado apoio para candidaturas do tucano João Doria, Ciro Gomes, e até o MBL (Movimento Brasil Livre) entrou no jogo, o que põe em xeque a suposta “luta antifascismo”.
Guilherme Boulos, por exemplo, para justificar essa frente colaboracionista, chegou a recorrer ao movimento pelas Diretas, Já! No entanto, todas essas tentativas foram rechaçadas pela classe trabalhadora, o que obrigou o PSOL a tardiamente apoiar a candidatura Lula.
De olho no voto
Quando o assunto é eleição, todo pudor é deixado de lado. Arcary diz que “a questão decisiva é que a luta pela reeleição de Lula deverá exigir uma aliança que vá além da Frente de Esquerda”, com a ressalva de que “a disputa do programa não pode ser dissimulada”, o que não muda nada. – grifo nosso.
Eis aí, de modo acabado, a que está disposta a “esquerda Xandão”. Claro que Arcary tentará disfarçar, falará da necessidade de um “impulso anticapitalista”. Seja lá o que isso signifique, anticapitalista não é o mesmo que socialista.
Valerio Arcary abandonou o socialismo, por isso evita a palavra. Fala vagamente em “reformas estruturais”. Deixando o “estruturais” à parte, sobra apenas a reforma, reformismo puro e simples. Seja como for, bajular juiz é um final bastante melancólico para quem um dia foi de esquerda e se dizia trotskista.





