Polêmica

O ano da esquerda Xandão – parte 1

Valério Arcary, que já vinha criticando Trotski e o marxismo, aprofunda sua capitulação

Ato de esquerda com símbolos do bolsonarismo

O artigo 2025, o ano por Sem Anistia, assinado por Valerio Arcary e publicado no sítio Esquerda Online em 18 de dezembro, apenas corrobora, ou reforça, a capitulação desse ex-dirigente do PSTU que se bandeou para o PSOL, e é visto hoje defendendo as instituições do Estado burguês, como o ultrarreacionário Supremo Tribunal Federal (STF).

O texto de Arcary é dividido em parágrafos numerados de 1 a 5. No primeiro, o autor sustenta que a luta política central que atravessou o ano de 2025 foi a mobilização por Sem Anistia. Manter a perspectiva é essencial para retirarmos as lições, diante de uma avalanche de acontecimentos em vertigem. Nada foi mais importante do que a condenação de Bolsonaro e, pela primeira vez na história, de generais de quatro estrelas, à prisão no julgamento do STF. Mas seria uma ilusão de ótica explicar este desenlace somente pelo papel de Alexandre de Moraes e seus pares. Seu mérito não merece ser diminuído”.

A luta pelo Sem Anistia é uma farsa, não mobiliza ninguém, pois não se trata de uma reivindicação da classe trabalhadora. É, antes de mais nada, uma variante da política “democracia x fascismo”, que tem atrelado a maioria da esquerda à democracia liberal (nome fantasia do imperialismo), que finge combater a extrema direita enquanto prende milhares de pessoas que protestam contra o genocídio em Gaza.

Nada foi mais importante do que a condenação de Bolsonaro? Essa política é uma iniciativa da burguesia, que quer eleger um candidato mais fácil de controlar e que possa aprofundar a política neoliberal no País. Bolsonaro, assim como Lula, tem uma base social que o defende, por isso o imperialismo está tratando de tirar da corrida eleitoral esses dois personagens.

A esquerda pequeno-burguesa não teve importância nessa condenação, apenas correu atrás do trio elétrico. O processo-farsa seguiu os mesmos protocolos da Lava Jato. Uma vergonha recheada de todo tipo de ataque aos direitos mais elementares, como o da ampla defesa e o princípio da imparcialidade do juiz. É preciso relembrar que Alexandre de Moraes julgou o caso onde ele próprio figurava como vítima. O devido processo legal, garantido pela Constituição, foi simplesmente ignorado.

Arcary comemora que pela primeira vez na história, de generais de quatro estrelas, à prisão no julgamento do STF. O articulista deve ter se esquecido da absolvição do general Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira da “trama golpista” (leiam nosso editorial sobre o tema), e utilizou critérios que negou aos outros condenados. Não bastasse isso, Moraes autorizou, neste 31 de dezembro, que o ex-ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, reduza sua pena de 19 anos por meio de leitura e trabalho. Como escreveu este Diário (leia) Enquanto o magistrado garante direitos previstos em lei para o militar detido no Comando Militar do Planalto, o mesmo não se aplica à saúde de Jair Bolsonaro.

Conforme se pôde ler, Arcary elogia Alexandre de Moraes e seus pares, dos quais o mérito não merece ser diminuído. A capitulação do articulista é, como se costuma dizer, autoevidente.

Valério Arcary sustenta que não bastou apenas o protagonismo do STF, “foi necessário que se consolidasse uma maioria social contra a impunidade dos golpistas neofascistas para legitimar o desfecho do processo”. O argumento é uma farsa. Quando o articulista, já no parágrafo 2, diz que a primeira grande resposta pelo Sem Anistia passou pelos atos ‘Ditadura nunca mais’ de 30 de março que na Paulista conseguiu reunir uma vibrante vanguarda de 10 mil ativistas. O bolsonarismo, já em clara defensiva, ainda voltou às ruas no 7 de setembro com algo em torno de 45 mil na Avenida Paulista”. Que defensiva é essa em que a outra parte coloca quase cinco vezes mais o número de pessoas nas ruas?

Adiante, Arcary escreve que “a resposta começou a ser construída debaixo de chuva no 10 de julho. Deu um salto de qualidade no 21 de setembro à escala nacional, quando pela primeira vez a esquerda superou a extrema-direita com 60 mil no Rio e, pelo menos 40 mil em São Paulo, na sequência das provocações da PEC da Blindagem e do PL da Anistia”. Apenas não menciona que os atos foram convocados pela Rede Globo, pela burguesia, interessada em emparedar o Congresso para conferir mais poderes ao STF.

Ainda no parágrafo 2, Arcary diz que “com as mobilizações do domingo 14 de dezembro contra o PL da dosimetria, a anistia envergonhada, na escala de dezenas de milhares, uma semana depois de grandes concentrações do movimento de mulheres contra o feminicídio. O resultado deste processo não foi somente uma solução institucional conduzida pela Justiça. Não teria sido assim sem a luta por Sem Anistia, o que nos deixa uma lição histórica. A ‘frio’ nada muda no Brasil. O papel da Frente Única de Esquerda precisa ser resgatado, porque o desfecho é expressão de uma luta que se construiu nas ruas”.

A iniciativa, mais uma vez, esteve nas mãos da burguesia e sua imprensa. A “PL da Dosimetria” nada mais foi que uma reação do Congresso contra os abusos do Supremo. O movimento de mulheres contra o feminicídio é mais uma manobra para o aumento de penas e maior repressão do Estado com a anuência da “esquerda”. Além de ter sido uma confissão do fracasso de leis rígidas para a “proteção das mulheres”, pois os crimes vêm aumentando, dado que as contradições sociais se aprofundam.

Isso de que não teria sido assim sem a luta por Sem Anistia”, ou de que esse movimento esvaziado foi fundamental, é outra fraude. A burguesia apenas fez como em 2013, se aproveitou de uma circunstância para capturar e passar a perna na esquerda pequeno-burguesa.

Arcary, iludindo com um falso sucesso, diz que “O papel da Frente Única de Esquerda precisa ser resgatado, porque o desfecho é expressão de uma luta que se construiu nas ruas”. No entanto, a única frente que está sendo construída é o da colaboração de classes. É uma espécie de churrasco, onde a burguesia entra com o espeto e o trabalhador com a carne.

Continua…

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