A crise aguda do capitalismo tem suscitado uma confusão na maior parte da esquerda, que enxerga no crescimento da China, na criação do BRICS e na ação militar da Rússia na Ucrânia sinais de uma suposta multipolaridade.
No texto de José Reinaldo Carvalho, O mundo não voltou à unipolaridade com as guerras atuais dos EUA, publicado no Brasil 247 nesta sexta-feira (6), são contestados os analistas que acreditam que o poderio militar dos Estados Unidos e sua capacidade de influenciar as guerras atuais indicariam que o mundo voltou a ser “unipolar”. Para ele, trata-se de uma visão superficial, que ignoraria mudanças estruturais na economia global.
Carvalho inicia seu texto afirmando que “a sucessão de crises internacionais, a situação de turbulência que se prolonga, as guerras, golpes, intervenções e bloqueios perpetrados pelo imperialismo estadunidense e seus lacaios, os sionistas israelenses, revelam que o rumo da política mundial permanece aberto e imprevisível”. Isso é correto, mas esse sempre foi o comportamento habitual do imperialismo, ainda que a crise atual tenha aprofundado esse quadro.
Em seguida, Carvalho analisa que “este ambiente de incerteza tem alimentado interpretações divergentes sobre o equilíbrio de poder no mundo” e que, “em muitos centros de análise ligados aos interesses dos EUA, com grande influência na imprensa e na academia, e poder de cooptação de forças consideradas ‘progressistas’ e ‘renovadoras do marxismo’, tornou-se comum a tese de que a multipolaridade teria fracassado antes mesmo de se consolidar”.
Embora José Reinaldo Carvalho atribua essa conclusão a setores de direita ou cooptados, a verdade é que nunca existiu multipolaridade. O imperialismo é uma ditadura global e não vai dividir seu domínio com “outros polos”, a não ser por meio da guerra.
Esses analistas também argumentam que “a supremacia militar dos Estados Unidos, o vertiginoso aumento de seu orçamento de guerra, a continuidade de intervenções e ações militares agressivas e pressões políticas em diversas regiões demonstrariam que a ordem global permanece essencialmente unipolar”. E isso não deixa de estar correto, ainda que o aumento do orçamento de guerra seja, em si, um efeito do aprofundamento da crise do imperialismo.
Para o jornalista, “a interpretação que identifica a realidade internacional como unipolar parte de um pressuposto simplificador: o de que o poder global pode ser medido exclusivamente pela capacidade militar norte-americana”.
Os Estados Unidos são a principal força militar do mundo, disso não resta dúvida. São o principal representante, embora não o único integrante do bloco imperialista, do qual fazem parte ainda Reino Unido, França, Alemanha e Japão, além de associados menores. É preciso lembrar que o imperialismo coordena a OTAN, um monstruoso aparato militar, além de alianças como a AUKUS e o QUAD.
Contra essa ênfase no militarismo, Carvalho sustenta que “a dinâmica geopolítica, porém, revela um cenário mais complexo. O poder global não se expressa apenas por meios militares, mas também por fatores econômicos, tecnológicos, diplomáticos e institucionais”. Isso é verdade, mas esses fatores não produziriam efeito sem o aparato militar, que é sempre quem dá a última palavra. Os EUA sequestraram Nicolás Maduro, mataram Ali Khamenei, cometeram violações flagrantes do direito internacional, e nenhum país fez nada, justamente porque não tem força para confrontar esse poderio.
China, Rússia e Irã
Como bem aponta o autor, “a ascensão da China tornou-se um dos elementos mais marcantes das transformações em curso. Nas últimas décadas, o país registrou crescimento econômico acelerado”. Ocorre que esse crescimento já ameaça o equilíbrio de poder do imperialismo. A China se tornou o principal alvo do bloco imperialista, seguida pela Rússia e pelo Irã.
A Rússia, apesar de ser um país atrasado, basicamente exportador de commodities, é também uma potência militar, que vem há décadas se preparando para o confronto inevitável com o imperialismo, uma vez que a expansão da OTAN jamais cessou, mesmo após o fim do Pacto de Varsóvia.
Outro fator apontado por José Reinaldo Carvalho é “o surgimento de instituições e blocos que operam fora da órbita tradicional das potências ocidentais. A ampliação do BRICS e a incorporação de novos membros representam um dos exemplos mais visíveis desse processo”.
O conjunto desses fatores, entre outros, obrigou o imperialismo a intervir. Estados Unidos e “Israel” atacam neste momento o Irã, cuja destruição é fundamental para enfraquecer Rússia e China. Portanto, não é verdade que “esses fatores indicam que o monopólio absoluto do poder global já não pertence a uma única potência. Em um sistema verdadeiramente unipolar, inexistiriam outros centros capazes de limitar ou equilibrar a hegemonia dominante, condição que já não corresponde ao cenário contemporâneo”.
O que existe é uma ação do imperialismo no sentido de uma guerra para esmagar ou controlar esses chamados “centros”. A União Europeia, as monarquias árabes e o Japão auxiliam os Estados Unidos nessa guerra de agressão contra o Irã. Isso não significa, necessariamente, que a empreitada terá êxito, pois o imperialismo enfrenta uma crise profunda.
Para Carvalho, está em andamento “um processo de reconfiguração do poder global, o que não significa que a mudança esteja consolidada nem que seja abrupto o aparecimento das instituições que vão conformar a nova governança global”. Mas isso só poderá ser conquistado com a derrota do imperialismo, que se expressará por meio de uma guerra mundial.
Tudo ou nada
No último parágrafo, lê-se que “a atual ofensiva bélica dos EUA, principalmente a guerra contra o Irã, dificilmente tornaria os Estados Unidos uma superpotência mais forte ou capaz de reverter a atual dinâmica de multipolaridade global”. O que precisa ser entendido é que o imperialismo trava uma batalha existencial.
Para assegurar seu domínio, o imperialismo ameaça a China por meio de Taiwan e Xinjiang. O bloco também está em guerra contra a Rússia, utilizando a Ucrânia como bucha de canhão, e atacou diretamente o Irã, que sofre pesados bombardeios.
Essa é uma evidência muito forte de que não existe multipolaridade. É o imperialismo que está na ofensiva. Esses outros “polos” estão todos se defendendo, como podem, de ataques, sanções e ameaças, o que mostra que são apenas países oprimidos sob enorme pressão.





