No começo de 2013, o Corinthians havia acabado de ser campeão do Mundial de Clubes com um dos melhores times de sua história. Na Libertadores do ano anterior, havia vencido o título de forma invicta, sofrendo apenas quatro gols em toda a competição e passando por adversários muito fortes, como o Santos histórico de Neymar e Ganso e o Vasco, certamente o adversário que mais impôs dificuldades ao Timão.
Já o arquirrival do Corinthians, o Palmeiras, havia acabado de cair para a Série B do Brasileirão.
Era praticamente consenso entre todos que acompanhariam o Dérbi Paulista que o Corinthians venceria sem grandes dificuldades. Eu mesmo me lembro de esperar uma goleada, ou ao menos um jogo tranquilo, sem que o Palmeiras tivesse muitas chances de gol. Não foi o que aconteceu, nem de longe.
No único jogo entre as duas equipes naquele ano, o Corinthians abriu o placar com Emerson Sheik, aos 17 minutos, dando a entender que as previsões para a partida se cumpririam. No entanto, aos 29, o zagueiro Vilson empatou de cabeça.
Normal. Apenas um descuido, já que o Corinthians, com um time melhor, logo voltaria à frente sem mais sustos, certo? Errado. Aos oito minutos do segundo tempo, Vinícius virou para o alviverde. O jogo que parecia tranquilo para o campeão do mundo começou a se transformar em um desespero imprevisto.
Somente aos 27 minutos da segunda etapa saiu o gol de empate do Corinthians, graças à entrada do eterno carrasco palestrino, Romarinho.
Em outra fase da minha vida de torcedor, a provável primeira lembrança que tenho são os jogos de 2002. Lembro vagamente da final da Copa do Brasil contra o Brasiliense, na qual o Corinthians foi campeão, e da final do Brasileirão contra o Santos.
Anos mais tarde, descobri que aquele Corinthians de 2002 era uma máquina e que a final contra o Santos era tratada como vitória certa. Só não contavam que um menino chamado Robinho — grande vilão da minha infância — fosse acabar com o jogo.
Vi também inúmeros jogos nos quais o Corinthians não era favorito para a imprensa, era tratado como cachorro morto ou como azarão, mas, ao final da partida, a vitória era do Corinthians. Essa, inclusive, parece ser a essência do clube: vence quando não é favorito, perde quando todos dizem que vai ganhar.
Nos últimos anos, mais precisamente após o título do Brasileirão do Palmeiras em 2016 e a Libertadores do Flamengo em 2019, criou-se no Brasil a ideia de que esses dois times são imbatíveis e de que todos os títulos futuros estariam reservados à Gávea ou à Barra Funda. Vi jornalistas que se apresentam como sérios dizendo coisas como: “adversários, esqueçam; daqui para a frente só Palmeiras e Flamengo serão campeões”, como se o futebol brasileiro fosse o mesmo que o espanhol, o francês ou o alemão.
Sobre a Alemanha, inclusive, é comum ouvir que a tática do Bayern de Munique para sobrar no campeonato nacional consiste em contratar os jogadores que se destacam nos outros clubes do país, enfraquecendo o restante do futebol alemão e garantindo que o título permaneça sempre na Baviera. Com base nisso, muitos torcedores do Flamengo têm defendido a tese de que o clube seria o “Bayern das Américas”, já que o time do Rio supostamente adotaria a mesma política de contratação dos melhores jogadores do Brasil, enfraquecendo os rivais.
O problema é que — para além da comparação de gosto duvidoso, já que Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e os demais grandes clubes do Brasil são historicamente maiores do que os europeus e de que comparações desse tipo, a meu ver, apenas rebaixam a imagem das equipes que construíram o futebol atual, enquanto engrandecem um futebol de péssima qualidade desenvolvido na Europa — não existe a mínima possibilidade de uma tática como a do Bayern de Munique vigorar no Brasil.
Começando pelo problema financeiro: o Flamengo tentou contratar Kaio Jorge, do Cruzeiro, e sondou a situação de Breno Bidon, do Corinthians. Nenhuma das duas negociações avançou, mesmo com o Timão enfrentando dificuldades financeiras, pois, por mais dinheiro que o Flamengo tenha atualmente, não é tão simples tirar jogadores de rivais com a mesma facilidade que isso ocorre na Alemanha. No Brasil, os outros clubes são muito maiores.
Fora isso, aqui, diferente da Alemanha, surgem craques de futebol todos os anos em todos os lugares do país. O jogo da Supercopa Rei, ocorrido no último domingo, prova isso. O Corinthians foi campeão tendo em campo dois jogadores da base, André e Bidon. Mesmo com dívidas enormes, o Corinthians — e praticamente todos os clubes brasileiros — conseguem repor com relativa facilidade as perdas de jogadores ao recorrerem às categorias de base.
Por exemplo, poucos anos atrás surgiu no Corinthians um ótimo volante. Marcador, com bom passe e um jeito de jogar que o fazia parecer um profissional com anos de bagagem. O nome do menino é Gabriel Moscardo. Pouco tempo depois de se firmar no time principal, foi vendido a peso de ouro para o PSG, que tratou de encostar o garoto posteriormente.
Lembro de ouvir alguns amigos corinthianos dizendo que seria difícil conseguir um jogador assim novamente, e todos pareciam tristes com a saída de Moscardo. Pouquíssimo tempo depois, no entanto, o Corinthians viu surgir da base dois outros jogadores da posição: um com características de camisa 10, o caso de Bidon; outro, André, que apresenta particularidades importantes do próprio Moscardo — marca muito bem, parece jogar no profissional há anos, tem bom passe e ainda aparece com frequência na área.
E isso não ocorre apenas no Corinthians. O Vasco acabou de vender Rayan, outro grande talento; o Palmeiras revelou Endrick e, mais recentemente, Estêvão; o São Paulo, o zagueiro Beraldo; o Fluminense, John Kennedy. Enfim, são inúmeros os exemplos — e não apenas entre os grandes clubes, já que todos os anos surgem talentos também em equipes de menor expressão.
É impossível que qualquer clube controle um mercado tão grande, algo que nem mesmo a Europa, com todo o dinheiro do mundo, conseguiu esvaziar por completo desde que a migração de jogadores brasileiros para lá começou a crescer.
Fora o mercado do futebol e olhando apenas para os resultados, o desfecho é o mesmo. Não importa o quanto se tente afirmar que existem apenas dois times disputando os títulos no Brasil, um país de dimensão continental.
Vamos olhar apenas para esta década. Desde 2020, é evidente que Flamengo e Palmeiras venceram mais títulos do que os demais. Ponto. Não há discussão. Mas há, de fato, esse controle absoluto por parte das duas equipes sobre o futebol nacional?
Aos números: o Palmeiras venceu duas Libertadores, em 2020 e 2021; uma Recopa Sul-Americana, em 2022; dois Campeonatos Brasileiros, em 2022 e 2023; uma Supercopa Rei, em 2023; quatro Campeonatos Paulistas, em 2020, 2022, 2023 e 2025; e uma Copa do Brasil, em 2020. No total, são onze títulos conquistados em seis anos, números realmente impressionantes.
Já o Flamengo venceu duas Libertadores, em 2022 e 2025; uma Recopa Sul-Americana, em 2020; dois Campeonatos Brasileiros, em 2020 e 2025; duas Copas do Brasil, em 2022 e 2025; três Supercopas, em 2020, 2021 e 2025; e quatro Campeonatos Cariocas, em 2020, 2021, 2024 e 2025. No total, são 14 conquistas.
Os números não mentem e, nesse período, Palmeiras e Flamengo realmente conquistaram a maior parte dos títulos. No entanto, muitos outros clubes também foram campeões no mesmo intervalo.
Na Copa do Brasil, o Atlético Mineiro foi campeão em 2021, o São Paulo em 2023 e o Corinthians no ano passado.
No Brasileirão, o Galo ficou com o título em 2021, enquanto o Botafogo venceu em 2024.
Na Libertadores, o Fluminense foi campeão em 2023 e o Botafogo em 2024.
Nas Supercopas, o Atlético Mineiro venceu em 2022, o São Paulo em 2024 e o Corinthians no último domingo.
Já nos Campeonatos Paulistas, o São Paulo venceu em 2021 e o Corinthians em 2025, enquanto, no Campeonato Carioca, o Fluminense foi bicampeão em 2022 e 2023.
Fora isso, nem sempre todos esses títulos foram disputados com a participação de Palmeiras e Flamengo. Ambos os clubes, por exemplo, ficaram de fora das quartas de final da Copa do Brasil no ano passado, com o título sendo decidido entre Vasco e Corinthians.
Em outras oportunidades, a disputa envolveu uma das duas equipes e um terceiro clube, como nos Campeonatos Brasileiros de 2023 e 2024, decididos rodada a rodada entre Botafogo e Palmeiras, ou na Copa do Brasil de 2022, em que o Flamengo venceu o Corinthians nos pênaltis.
Isso significa que Flamengo e Palmeiras não foram os melhores times do Brasil na década até agora? De forma nenhuma. Significa apenas que esse controle absoluto do futebol, pintado pela imprensa, não é real — como, aliás, nunca foi no país.
Por exemplo, entre 2005 e 2008, o grande clube do Brasil era o São Paulo. O Tricolor venceu uma Libertadores, um Mundial de Clubes, um Campeonato Paulista e um tricampeonato do Brasileirão. No entanto, enquanto dominava, o Internacional foi campeão da Libertadores, o Corinthians venceu o Brasileirão. A Copa do Brasil, ainda que disputada em outro formato, foi conquistada por Paulista de Jundiaí, Flamengo, Fluminense e Sport.
Na época, nem Flamengo nem Palmeiras eram vistos como clubes que controlavam o futebol brasileiro. Eram, inclusive, tempos de vacas magras para ambas as equipes. Ainda assim, o Flamengo conquistou o Brasileirão de 2009, campeonato que havia sido liderado pelo Palmeiras durante quase toda a competição e que o São Paulo quase venceu na reta final, enquanto o próprio alviverde conseguiu conquistar o Campeonato Paulista em 2008, após doze anos.
Entre 2009 e 2019, o Corinthians também conseguiu empilhar taças. O único título que não conquistou foi o da Copa Sul-Americana. Ainda assim, foram três Campeonatos Brasileiros, uma Copa do Brasil, cinco Campeonatos Paulistas, uma Libertadores, uma Recopa Sul-Americana e um Mundial de Clubes, sendo o time a ser batido pelo menos até 2015.
No entanto, no mesmo período, Fluminense e Cruzeiro venceram dois Campeonatos Brasileiros cada, enquanto o Palmeiras conquistou um. Santos, Internacional, Atlético Mineiro, Flamengo e Grêmio venceram uma Libertadores cada. Vasco e Grêmio conquistaram uma Copa do Brasil, enquanto Atlético Paranaense, Palmeiras e Cruzeiro venceram duas. Nos Campeonatos Paulistas, o Santos venceu cinco vezes no período, o Ituano uma.
Ou seja, em primeiro lugar, nunca existiu domínio absoluto no futebol brasileiro. Mesmo que alguns clubes conquistem mais títulos do que outros em determinados períodos, sendo os times a serem batidos, como de fato são Palmeiras e Flamengo até aqui nesta década, ainda assim, por conta da força do futebol nacional e da quantidade de bons jogadores que surgem no mercado todos os anos, outros clubes acabam vencendo campeonatos que o favorito também disputa.
Até mesmo o Santos de Pelé, o maior time de futebol que o planeta já viu, perdeu títulos importantes.
Em segundo lugar, é evidente que essas fases são finitas. Vasco, Fluminense, Botafogo, Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Grêmio e Internacional — os clubes do chamado G-12 — revezam-se no topo do futebol nacional por alguns anos. Até que, inevitavelmente, os principais jogadores dessa fase vitoriosa envelheçam ou deixem o clube, aquilo que foi desenvolvido como novidade no modo de jogar seja superado e outros problemas naturais surjam, fruto da própria dinâmica da história no futebol brasileiro.
E isso sem contar equipes que sequer aparecem entre os doze maiores, mas que conquistam títulos importantes e contribuíram muito para a formação do futebol nacional, como Ponte Preta, Bahia, Athlético Paranaense, Coritiba, Sport, Vitória, Goiás, Paysandu, entre outras.
Por fim, há diversos outros elementos que indicam que não existe, no futebol brasileiro, uma dominação estável de um ou dois clubes, mas apenas situações relativas e passageiras. A qualidade do trabalho técnico de equipes bem treinadas e o desempenho esportivo independente do volume de investimento financeiro é um exemplo, como o caso do Fluminense também ilustra esse ponto: no Super Mundial de Clubes de 2025, foi a equipe brasileira que apresentou o futebol mais bonito e bem jogado, apesar de dispor de recursos financeiros inferiores aos de outros clubes.
Embora salários elevados e melhores condições financeiras sejam muito importantes, quando o jogo começa são sempre onze contra onze.
Tudo isso faz do Brasil o país do futebol. Países como a Espanha, em que apenas dois clubes disputam títulos ao longo do ano e atropelam equipes menores, conseguem impor seu futebol como modelo por conta do dinheiro e da influência cultural do imperialismo. No entanto, não são capazes de produzir tantas histórias, lances memoráveis e sentimentos de paixão, alegria e tristeza como só o futebol brasileiro é capaz de gerar.
Se enganou redondamente quem pensou que o Corinthians não poderia vencer o Flamengo na Supercopa Rei. Fomos campeões e provamos, novamente, que o Corinthians é gigante, tem a torcida mais fanática do país e que o futebol brasileiro é o maior espetáculo da Terra.




