Oliveiros Marques publicou nesta quinta-feira (5), no Brasil 247, o artigo Política para a extrema-direita é business. Reúne denúncias contra Flávio Bolsonaro, Donald Trump, Javier Milei e Santiago Peña e conclui que, para essa corrente, a política seria um instrumento de enriquecimento. Comemora as vitórias de Lula e dos democratas norte-americanos como sinais de uma onda contra os “extremistas corruptos”. Mas o fenômeno que descreve é a história do próprio capitalismo.
Marques começa com as relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Cita negociações sobre um filme de Jair Bolsonaro e suspeitas examinadas pela Polícia Federal. Mas omite o contrato do Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
Documentos fiscais enviados à CPI do Crime Organizado apontam R$ 80,2 milhões declarados em pagamentos ao escritório entre 2024 e 2025. Ocontrato previa cerca de R$ 131 milhões. A banca reconheceu os serviços, mas contestou os valores divulgados. Se é para examinar as relações de Vorcaro com o senador, por que Moraes desaparece de um artigo sobre a influência do dinheiro na política?
Talvez porque setores da esquerda apresentam Moraes como defensor da democracia. Traze à baila os vínculos do escritório de sua família com um banco sob suspeita acaba expondo a contradição e estragando o eixo do artigo de Marques.
Em junho de 2016, o britânico The Independent publicou declarações de Roberto Saviano, jornalista italiano conhecido por investigar a máfia napolitana. No Festival Literário de Hay, Saviano chamou o Reino Unido de país mais corrupto do mundo. Referia-se não às propinas de funcionários públicos, mas à circulação de capitais pelo sistema financeiro de Londres.
Saviano apontou a City e suas conexões com paraísos fiscais, como Jersey e Ilhas Cayman, como portas de entrada de dinheiro criminoso. Joel Benjamin, no mesmo jornal, escreveu sobre a lavagem dos recursos do narcotráfico em Londres. Os “democratas”, como se vê, não são os santos da história.
Em 2012, o Departamento de Justiça norte-americano anunciou que o HSBC, banco britânico, admitira violações às normas contra lavagem de dinheiro. A investigação identificou ao menos US$ 881 milhões de recursos do narcotráfico lavados por sua operação norte-americana. O grupo aceitou pagar aproximadamente US$ 1,9 bilhão em perdas e penalidades.
A City é um centro histórico do capital financeiro. Suas operações passam pelos governos conservadores e trabalhistas, e a rede britânica de jurisdições com benefícios fiscais não surgiu com Trump, Milei ou Bolsonaro.
Em 2008, depois de anos de especulação imobiliária, o sistema bancário norte-americano entrou em crise. O Congresso autorizou um programa de socorro de até US$ 700 bilhões, iniciado por George W. Bush e mantido sob Barack Obama. Segundo o Escritório de Orçamentodo Congresso, cerca de US$ 444 bilhões foram desembolsados. Democratas e republicanos participaram do socorro financeiro, enquanto milhões de trabalhadores enfrentavam desemprego e perda de suas casas.
A quebra de 1929 tampouco foi obra de uma corrente chamada extrema direita. A especulação e as crises bancárias são anteriores a ela. Uma lista de dirigentes suspeitos não explica por que o Estado mobiliza fortunas em favor dos bancos por meios perfeitamente legais.
Marques acusa Trump de utilizar petróleo, minerais estratégicos e guerras para favorecer empresários. Mas quem comandou as guerras anteriores? Em 1999, sob Bill Clinton, a OTAN bombardeou a Iugoslávia durante 78 dias. Em 2003, George W. Bush invadiu o Iraque alegando a existência de armas de destruição em massa que não foram encontradas. Joe Biden e Hillary Clinton estiveram entre os democratas que votaram a favor da autorização parlamentar para o uso da força.
Em 2011, Barack Obama participou da intervenção da OTAN na Líbia, que terminou com a derrubada de Muamar Cadáfi. Sob Joe Biden, Washington continuou abastecendo “Israel” com armas durante a guerra em Gaza. No entanto, interessa apontar apenas para Trump.
Segundo estimativas citadas pelo Serviço de Pesquisa do Congresso, um único míssil interceptador Patriot custa cerca de US$ 4 milhões. Empresas como Lockheed Martin e RTX mantêm contratos duradouros com o Pentágono. Existe um enorme esquema militar financiado pelo Estado e pago pelo contribuinte.
Reduzir a política a uma página policial deixa de fora o principal. Um governo pode destinar fortunas ao pagamento dos juros da dívida pública, contratar empresas militares por bilhões, privatizar patrimônio e cortar despesas sociais sem que seus ministros cometam delitos pessoais. Essas operações e a corrupção são inerentes ao funcionamento do capitalismo.
O Brasil conhece os efeitos políticos das cruzadas judiciais. A Lava Jato, apresentada como campanha de moralização, levou à prisão de Lula e à sua exclusão da eleição de 2018. Anos depois, o STF anulou condenações por incompetência da vara de Curitiba e reconheceu a suspeição de Sérgio Moro no processo do tríplex. O STF foi peça-chave no golpe de 2016 e nas duas operações que visaram destruir o PT por meio de denúncias de corrupção. Parte da esquerda, em vez de denunciar essas manobras, quer utilizá-las agora contra a extrema direita.
Trata-se de uma esquerda que espera que tribunais e policiais eliminem seus adversários políticos. O critério, no entanto, não deveria variar conforme o acusado pertença ao PT ou ao PL.
No encerramento, Marques saúda a vitória dos democratas nos EUA e ingenuamente imagina uma frente contra os “extremistas corruptos”, citando a mobilização eleitoral na Sérvia. O articulista se esquece que democratas e republicanos se revezam desde sempre na presidência dos EUA e os grandes interesses continuam atuando como sempre.
Da City de Londres ao socorro aos bancos, das guerras da OTAN aos contratos do Pentágono, há negócios sustentados por governos que se apresentam como defensores da democracia. Separar os políticos em campos de honestos e corruptos é um desserviço e uma despolitização. No fundo, é a admissão de uma gente que se vê incapaz de derrotar seus adversários politicamente, por isso precisa terceirizar sua luta para o Judiciário que, como se sabe, tem integrantes envolvidos em esquemas para lá duvidosos.





