O artigo Do século norte-americano ao século asiático, de Emir Sader, publicada no Brasil 247 nesta terça-feira (24), tenta nos vender a ideia de que o mundo atravessa uma fase como o das Grandes Navegações, quando o capitalismo se encontrava na sua fase primitiva de acumulação.
Sader sustenta em seu primeiro parágrafo que “a transformação histórica que estamos vivendo, tanto por suas dimensões como por sua natureza, é uma mudança similar à que se viveu nas décadas posteriores ao cruzamento do Atlântico por Cristóvão Colombo, que abriu uma nova rota para o comércio marítimo entre a Europa e o Oceano Índico, o sul da Ásia e além. Estabeleceu-se, assim, um deslocamento espetacular do centro de gravidade econômico e político do mundo, deslocamento que, pela primeira vez na história, colocou a Europa Ocidental no coração das rotas do comércio mundial. Agora ocorre algo similar, mas na direção oposta. A Ásia e as Rotas da Seda estão ascendendo com rapidez. Por isso, no Oriente existe esperança e otimismo, enquanto no Ocidente reina a ansiedade, com a consciência cada vez mais clara de que o Ocidente se encontra em uma encruzilhada”.
Como disse Karl Marx no livro I de O Capital, “O descobrimento das terras de ouro e prata na América, a extirpação, escravização e sepultamento nas minas da população indígena, o começo da conquista e saque das Índias Orientais, a transformação da África numa reserva para a caça comercial de peles-negras, assinalam a aurora da era da produção capitalista”. E não é isso que estamos vivenciando, não existe aurora, mas declínio, uma crise aguda do capitalismo.
Conforme Marx havia assinalado, aquele processo histórico que separou o produtor direto (o camponês, o artesão) dos seus meios de produção, criando duas classes essenciais para o capitalismo: os proprietários de capital (burguesia), e os trabalhadores livres (proletariado), que só têm sua força de trabalho para vender.
Não estamos, nem por acaso, assistindo um modo de produção arcaico sendo substituído por outro mais avançado.
A Rota da Seda, na verdade, é uma ameaça com a qual o imperialismo não pode conviver, por isso está preparando uma guerra contra a China.
Trump
Emir Sader acredita que “o Brexit e a eleição de Donald Trump foram momentos de afirmação do isolacionismo do Ocidente nas duas potências que conduziram o bloco ocidental ao longo de mais de um século. O que contrasta de forma evidente com as tendências ao longo da Rota da Seda, a região que une o Pacífico ao Mediterrâneo”.
Na verdade, tanto Trump quanto o Brexit, marcam uma reação à corrosão econômica sofrida pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido em decorrência da política neoliberal. Os dois falam em recuperar a economia, controlar a imigação. Donald Trump se elegeu prometendo acabar com as guerras e “tornar a América grande novamente”, mas parece que o grande capital financeiro tem outros planos.
Adiante, Sader sustenta que “nessa região, ao contrário, o que se afirma é um processo de consolidação de formas mais eficazes de cooperação. O mundo parece estar assim se movendo em duas direções diferentes: uma tende à desagregação e ao avanço solitário, enquanto a outra tende a estreitar os vínculos e potencializar o trabalho coordenado”.
É falso que exista um “avanço solitário”, o imperialismo está empenhado em defender suas posições; enquanto isso que o articulista chama de “cooperação”, “trabalho coordenado”, são formas defensivas de países atrasados, como o BRICS, se unindo como uma forma de proteção contra a agressividade imperialista.
O presidente americano virou uma espécie de espantalho e sobre ele penduram tudo, todas as justificativas, mas ele mesmo tem se mostrado incapaz de enfrentar o grande capital e financeiro e está sendo empurrado para guerras que poderão por fim a seu mandato.
Rota da Seda
Quando os países imperialistas transferiram sua produção para a China, atrás de salários baixíssimos e lucros altos, não puderam adivinhar que estavam criando um problema desse tamanho. Havia o consenso de que seria necessário destruir o país antes que ficasse grande demais.
Dizer que os chineses estão tentando abrir “portas em um momento em que o Ocidente se está fechando”, apenas reforça a ideia de que entraremos em guerra, pois foi a disputa por mercados que levou a humanidade a duas Guerras Mundiais.
O imperialismo está tentando atacar a China por todos os lados. Esse esforço compreende alianças militares cercando o país, bem como ataques a parceiros estratégicos, como Venezuela e Irã.
Mundo cor-de-rosa
Na imaginação de Sader, “o conjunto das transformações vividas pelo mundo nas últimas décadas faz parte de um período de transição de um mundo unipolar a um mundo multipolar. De um século norte-americano – o século XX – passamos a um século asiático – o século XXI. A era em que o Ocidente dava forma ao mundo ficou para trás há bastante tempo. Enquanto as Rotas da Seda estão em ascensão, e seguirão estando, a forma como se desenvolvem e evoluem dará forma ao mundo do futuro. Porque isso é o que sempre representaram as rotas.”.
No mundo real, não é assim que as coisas acontecem. Quando o Japão cobiçava os mercados da Ásia e a Alemanha tentava espaço no norte da África, o imperialismo foi para a guerra, como está fazendo agora. Não existe espaço para mundo “multipolar”, isso é uma fantasia.
É muito provável que o imperialismo seja derrotado, visto que atravessa uma enorme crise, mas isso não acontecerá sem muito derramamento de sangue. A derrota do imperialismo também não significa a passagem para um mundo “multipolar”, pois será aberta uma etapa de revoluções por toda a Terra.
A mera derrota no Afeganistão representou uma verdadeira insurgência na África, na Ucrânia e no Oriente Médio. Então, devemos esperar muito mais convulsionamento, principalmente quando a classe trabalhadora entrar em ação.





