Na manhã desta quinta-feira (15), chegou, no Aeroporto José Martí, em Cuba, uma aeronave com os restos mortais dos 32 cubanos mortos na Venezuela no dia 3 de janeiro, durante o ataque perpetrado pelos Estados Unidos que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro. Encabeçada pelo General de Exército Raúl Castro Ruz, Líder à Frente da Revolução Cubana, e pelo presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, ocorreu, em seguida, a Primeira Homenagem aos Heróis Tombados, ainda no aeroporto.
As palavras da cerimônia foram pronunciadas pelo ministro do Interior Lázaro Alberto Álvarez Casas, que afirmou que os combatentes “caíram longe de seu lar, mas não de seu dever”, e sublinhou que, ao receber seus restos mortais Cuba, estaria renovando, perante eles, sua lealdade à Pátria e à unidade da América Latina.

Do aeroporto, os restos mortais seguiram em cortejo pela Avenida Rancho Boyeros, rumo à sede do Ministério das Forças Armadas Revolucionárias. De ambos os lados da avenida, centenas de cubanos concentraram-se desde cedo para prestar suas homenagens. Das calçadas, muitos permaneceram de pé, outros disseram adeus com a mão ou fizeram uma saudação militar.



No dia seguinte, na manhã da sexta-feira (16), uma multidão se concentrou para realizar uma grande marcha em homenagem aos combatentes e em defesa da revolução cubana. Segundo estimativas do governo, meio milhão de pessoas vieram prestar suas homenagens aos mártires.


Conforme a tradição das grandes manifestações, a marcha terminou na Tribuna Anti-imperialista José Martí, na cidade de Havana, bem em frente à atual Embaixada dos Estados Unidos. No local, o presidente Díaz-Canel fez um comovente discurso.

“Na hora mais escura da madrugada, enquanto seu nobre povo dormia, a irmã República Bolivariana da Venezuela foi traiçoeiramente atacada”, relembrou. Com essa ação, disse ele, confirmava-se a profecia de Simón Bolívar sobre os Estados Unidos e a advertência de Ernesto “Che” Guevara: no imperialismo não se pode confiar “nem um tiquinho assim”.
O presidente relatou com detalhe a covardia do ataque. Então, destacou a declaração do primeiro coronel Humberto Alfonso Roca, chefe da escolta de proteção, que, diante da agressão norte-americana, disse: “somente sobre o meu cadáver poderão levar ou assassinar o presidente”.
“Os sagrados restos de nossos 32 compatriotas chegaram ontem à Pátria”, prosseguiu Díaz-Canel, “como soldados eternos da integração que nos devemos”. Com essas palavras, elevou os mártires a um símbolo da unidade continental. “Antes de tudo, cubanos e venezuelanos somos irmãos”.
A parte mais contundente de sua intervenção dirigiu-se às atuais ameaças. Citando as recentes declarações de altos funcionários norte-americanos que falaram em “entrar e destruir o lugar”, o presidente qualificou-as como “grotescas” e “incitação ao massacre”. Frente a isso, declarou: “o povo de Cuba não é anti-imperialista por manual. O imperialismo nos fez anti-imperialistas”.
Díaz-Canel fez um chamado à unidade, que definiu como a arma mais poderosa, e disse:
“Não, senhores imperialistas, não temos absolutamente nenhum medo… Não nos gosta, como disse Fidel, que nos ameacem. Não vão nos intimidar.”
Segundo o presidente, os combatentes cubanos não só defenderam a soberania da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro e a esposa Cilia Flores, mas também “defenderam a dignidade humana, a paz e a honra de Cuba e da nossa América”. Díaz-Canel definiu os mártires como “a espada e o escudo de nossos povos frente ao avanço do fascismo”, convertendo-se em um símbolo de que “não há povo pequeno quando sua dignidade se mantém firme”.
O mandatário disse que “Cuba não ameaça nem desafia. Cuba é terra de paz”. No entanto, advertiu que esta “vocação de paz não diminui em absoluto a disposição para o combate em defesa da soberania e da integridade territorial”. O presidente deixou claro que, se Cuba fosse agredida, “lutaríamos com a mesma fidelidade que nos legaram várias gerações de bravos combatentes cubanos”, traçando uma linha histórica desde as guerras de independência do século XIX até a participação em conflitos na África e, agora, na Venezuela.
“Cuba não tem que fazer nenhuma concessão política, nem isso jamais estará sobre uma mesa de negociações para um entendimento entre Cuba e Estados Unidos. É importante que entendam.”
Durante a cerimônia, também tomou a palavra o coronel Pedro Yadín Domínguez, que se encontrava na Venezuela quando ocorreu o sequestro de Nicolás Maduro.
“Um ataque traiçoeiro e criminoso do Governo dos Estados Unidos fez com que companheiros meus estejam mortos hoje”, contou, de cadeira de rodas e exibindo visíveis feridas de guerra. Quando bombas, aviões não tripulados e helicópteros dispararam contra o território venezuelano, as forças imperialistas pretendiam “não deixar ninguém vivo”. No entanto, não contavam que encontrariam resistência.
Ao narrar o testemunho do coronel, o jornal cubano Granma declarou:
“Pedro Yadín Domínguez e seus companheiros sabiam que um adeus qualquer, em um dia qualquer, durante uma ligação qualquer, poderia ser o último. E, ainda assim, não houve hesitação em seus ‘sim’, sob o risco de tudo e, em troca, também de tudo ou, por acaso, não é o dever cumprido a maior gratificação?”









