Escândalo do Master

Moraes ligava “muitas vezes ao dia” para preparar evento com Vorcaro em Londres

Conversas da equipe do Master mostram o ministro e sua esposa definindo a programação, os convites e a divulgação de um fórum pago pelo banqueiro

Alexandre de Moraes participou diretamente da preparação de um evento de Daniel Vorcaro em Londres. Em 30/7/2025, depois de os Estados Unidos anunciarem sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ana Matos, responsável pelos eventos do Banco Master, avisou ao banqueiro que estava com Viviane Barci de Moraes, mulher do magistrado, e que o ministro ligava “muitas vezes ao dia”. O fórum, previsto para agosto, seria patrocinado pelo banco. Acabou cancelado. As mensagens do celular de Vorcaro, obtidas pela Polícia Federal, foram reveladas nesta sexta-feira (16) pelo Estadão.

Moraes tratava da programação com Ana e Viviane, fazia exigências sobre a lista de participantes e queria saber quem recebera os convites. Uma semana antes do anúncio das sanções, a funcionária do Master havia passado o dia trabalhando com o casal. Ao contar o resultado a Vorcaro, escreveu:

“Passei o dia aqui com Vivi Moraes e o ministro fechando o programa do evento.”

O casal fez várias alterações. Ana informou que Vorcaro apareceria na abertura e no encerramento, mas temia que a publicidade atrapalhasse a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB). Vorcaro mandou retirar seu nome e adiar a divulgação. A funcionária sugeriu apresentar o Grupo Voto como organizador e o escritório de Walfrido Warde, advogado do banqueiro, como patrocinador. Na crise do banco, ocultava-se o nome de seu dono sem abrir mão do encontro com as autoridades.

O risco de sanções norte-americanas contra os organizadores levou uma produtora a propor o adiamento. Ana também temia a desistência de outros ministros.

Vorcaro sabia que precisava do aval de Moraes. Em fevereiro de 2025, Ana lhe apresentou materiais destinados a Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União, Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, Mauro Campbell, ministro do Superior Tribunal de Justiça, e Hugo Motta, presidente da Câmara. O banqueiro mandou parar: consultaria Alexandre antes do envio. Em março, Ana informou que o próprio ministro já avisava convidados para reservar a data. Vorcaro pressionou a equipe porque Moraes reclamara que várias pessoas ainda não tinham recebido convite.

O controle se estendia aos nomes das mesas. Ana propôs Antônio Rueda, presidente do União Brasil, como moderador. Vorcaro vetou a ideia imediatamente e explicou a reação que esperava do ministro: “Alexandre morre se vc fizer isso. Aliás nos mata”. A funcionária respondeu que ele mandaria colocar tornozeleira. Vorcaro encerrou a discussão invocando Moraes. A equipe organizadora conhecia suas preferências e as cumpria.

O ministro também se irritou com o destaque previsto para Tarcísio de Freitas. Em 21/7, Vorcaro transmitiu à funcionária suas reclamações: desorganização, falta de informações aos convidados e exposição excessiva do governador de São Paulo. Em 22/7, Moraes e Viviane sentaram com Ana para refazer o programa. No dia 30, depois das sanções, os telefonemas prosseguiam.

Os preparativos de 2025 repetiam uma relação estabelecida no ano anterior. O primeiro Fórum Jurídico Brasil de Ideias ocorreu em Londres, em abril de 2024, com dinheiro do Master. Antes da viagem, uma conversa de Vorcaro com Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro, já tratava de um veto de Moraes a participantes. Faria especulou que o magistrado gostaria que o vetado soubesse quem tomara a decisão; Vorcaro confirmou que ele havia barrado o nome. Em outra mensagem, Ana perguntou se o banqueiro entregaria um troféu ao ministro. Vorcaro autorizou.

O fórum reuniu ministros, parlamentares, procuradores e advogados em hotéis, clubes de luxo, jantares e recepções pagos pelo Master. Contou com a presença de Moraes, Dias Toffoli e do procurador-geral Paulo Gonet entre as autoridades ligadas à viagem. Para Vorcaro, sentar-se com quem julga processos, dirige investigações e controla órgãos do Estado valia muito mais do que qualquer debate jurídico. A edição de 2025, embora cancelada, mostra Moraes trabalhando para repetir o encontro e escolhendo quem teria acesso a esse círculo.

O escritório de Viviane Barci de Moraes tinha com o Master um contrato que previa honorários de cerca de R$ 131 milhões. Os pagamentos chegaram a aproximadamente R$ 80 milhões. Ao examinar uma versão da minuta, a Polícia Federal encontrou nos metadados o usuário “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última edição. O escritório confirmou a participação dele na análise do documento, alegando que verificara possíveis impedimentos. Moraes participou dos acertos de um contrato da esposa com o banco e dos preparativos dos encontros pagos pelo mesmo banco.

O relacionamento continuou quando o Master entrou na fase decisiva de sua crise. Vorcaro enviou mensagens a Moraes nas horas anteriores à própria prisão e procurou o ministro quando queria chegar a autoridades com influência sobre o destino da instituição. Parte da comunicação usava imagens de visualização única e mensagens programadas para desaparecer, especialmente as mensagens de Moraes. Ele sabia que aquilo o incriminaria.

Também houve os voos. Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo apontou ao menos oito viagens de Moraes e Viviane, entre maio e outubro de 2025, em aeronaves vinculadas a empresas ligadas a Vorcaro. O gabinete do ministro negou que ele tivesse embarcado em avião do banqueiro. O escritório de Viviane afirmou que contratava serviços de táxi aéreo e compensava os valores nos honorários. Depois, veio a público um vídeo do casal em um dos jatinhos ligados ao grupo de Vorcaro, jogando por terra as mentiras de Moraes.

A ligação do banqueiro com a cúpula judicial alcançava outros ministros, embora as relações não fossem tão promíscuas quanto as de Moraes e Vorcaro. Segundo reportagem da revista Piauí, Vorcaro preparou uma festa para Kassio Nunes Marques em seu triplex de São Paulo, no carnaval de 2025. Mensagens identificavam o convidado como “KN” e registravam gastos próximos de R$ 27 mil. Nunes Marques disse que nunca votou a favor de Vorcaro, não trocou mensagens com ele e não lhe pediu nada.

Quando surgiram propostas de examinar os contatos de Moraes, a proteção entre integrantes do Supremo entrou em cena, especialmente por parte da Quadrilha de Moraes. Em setembro, Gilmar Mendes tentou reunir a discussão sobre o colega a um procedimento contra André Mendonça, relator do caso Master. Moraes participou da votação que dizia respeito à sua própria conduta. Flávio Dino pediu vista e melou a decisão. Os próprios ministros conservam o poder de decidir o alcance da investigação sobre seus pares.

Moraes precisa sair imediatamente do STF. O ministro que estabeleceu um estado de exceção no Brasil é um sócio do banqueiro que corrompeu as principais autoridades do País. Moraes atuou por fora de suas atribuições, utilizando seu prestígio no aparelho estatal para obter contratos milionários, viagens, festas, jantares e fama, ao mesmo tempo beneficiando o banqueiro que está no centro de um dos maiores escândalos da Nova República. Ele não tem a menor condição moral de continuar a mandar no País em nome da legalidade.

Os encontros pagos pelo Master reuniam a cúpula do Judiciário, dirigentes da Polícia Federal, membros do governo e parlamentares. O STF é um balcão de negócios de uma burocracia parasitária, cercada de privilégios e livre do controle popular. Precisa ser extinto. Uma reforma democrática do Judiciário deve instituir a eleição dos juízes e permitir que o povo revogue seus mandatos.

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