Na edição de sexta-feira (20) do programa Reunião de Pauta, da Causa Operária TV, a socióloga e militante do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), Vanessa Gil, e seu advogado, Tiago Guilherme Faria, detalharam um caso de perseguição judicial que escancara o avanço da repressão política contra quem denuncia os crimes do Estado de “Israel” e se solidariza com o povo palestino.
Segundo a entrevistada, ela está sendo processada pelo Ministério Público de Santa Catarina com base na legislação que equipara antissemitismo ao crime de racismo. O pretexto seria um comentário publicado por ela na rede social X ao compartilhar um vídeo de grande alcance nas redes: um homem se aproxima de uma bandeira palestina, chuta o símbolo e, em seguida, ocorre uma explosão.
“Eu estou sofrendo um processo do Ministério Público de Santa Catarina”, afirmou. “O simples fato de que alguém se coloca contra quem apoia o genocídio já foi lido como um caso de racismo.”
Na entrevista, Vanessa se apresentou como socióloga, pedagoga, mestra e doutora em educação, pesquisadora de temas como educação, Palestina e decolonialidade. Ela contou que compartilhou o vídeo e fez um comentário dizendo que não lamentaria o desfecho do agressor que vandalizou a bandeira palestina. O ponto central, porém, é que — conforme insistiram Vanessa e a defesa — não houve qualquer menção a religião, etnia ou nacionalidade do homem.
“Em nenhum momento eu faria qualquer menção ao povo judeu”, declarou. Para ela, a denúncia só se sustenta porque setores do Judiciário e do Ministério Público não fazem — ou fingem não fazer — a distinção entre judaísmo e sionismo. “A gente tem muita nitidez da distinção entre sionismo e judaísmo… jamais faria essa menção.”
A militante afirmou que, por trás da denúncia, existe um mecanismo de intimidação.
O advogado Tiago Guilherme foi direto ao apontar o absurdo do caso: quando Vanessa compartilhou o vídeo, ela sequer tinha como identificar quem era o agressor. E mesmo assim o Ministério Público alegou antissemitismo.
Ele enfatizou que o comentário não identificava “nacionalidade, religião ou etnia” e que a acusação tenta forçar, artificialmente, a equivalência entre crítica política ao sionismo e crime de racismo.
Segundo ele, posteriormente teria sido identificado que o homem era “um colono sionista ilegal” vivendo em “território ocupado”, mas esse dado nem era conhecido na hora da publicação, e também não muda o essencial: o que está em julgamento é uma posição política em defesa da Palestina.
“É um caso tão sintomático… que assusta até mesmo advogados”, afirmou, destacando que o objetivo real parece ser censura e imposição.
O eixo político da entrevista foi a denúncia de que o processo contra Vanessa não seria um caso isolado, mas parte de uma ofensiva coordenada do lobby sionista para intimidar militantes, intelectuais e jornalistas.
Tiago Guilherme citou uma lista de perseguições que, segundo ele, seguem o mesmo roteiro: acusar de “antissemitismo” qualquer manifestação que exponha o caráter racista e colonial do Estado de “Israel” ou que expresse solidariedade à resistência palestina. Ele mencionou casos envolvendo militantes e figuras públicas, dizendo acompanhar “várias outras pessoas que lutam contra a questão do lobby sionista”.
Na avaliação do advogado, esse tipo de ofensiva tenta “abolir princípios” básicos do Direito Penal, especialmente o princípio da legalidade (sem lei, não há crime).
Durante a entrevista, Vanessa explicou por que o caso é perigoso também do ponto de vista do combate ao racismo e ao antissemitismo reais.
“A gente banaliza o racismo… e também banaliza o próprio conceito de antissemitismo, que é real, que é sério, que existe”, disse. Ela relatou estar inclusive pesquisando o “aumento de células nazistas em Santa Catarina” e suas relações com fenômenos da extrema direita.
Tiago reforçou a ideia com uma síntese que virou centro do debate: “Se tudo é antissemitismo, nada é antissemitismo”. Para ele, inflar artificialmente denúncias contra antissionistas desvia atenção do antissemitismo verdadeiro — e ainda cria terreno para que o ódio cresça.
Segundo Tiago Guilherme, o processo contra Vanessa “já está em sua fase final”, “concluso para julgamento”, aguardando o posicionamento da magistrada. Ele relatou que a defesa entendeu que não cabia aceitar acordos que pressupõem algum tipo de culpa, diante do nível de arbitrariedade: “o ideal era assinar nenhum acordo de não persecução penal… tamanho absurdo desse julgamento que não deveria existir”.
A expectativa, segundo ele, é que uma decisão minimamente alinhada à legalidade reconheça a inconsistência da acusação. Ainda assim, o advogado foi realista ao afirmar que o aparelho repressivo, pressionado por lobbies, pode tentar “distorcer a letra da lei” para criar crimes onde não existem — especialmente quando o alvo é a esquerda e a solidariedade internacionalista.





