Partido dos Trabalhadores

Manifesto do PT critica o neoliberalismo, mas se mantém submisso a ele

Texto publicado ao fim de 8º Congresso da legenda não propõe medidas econômicas de impacto e propõe manutenção de aliança com imperialismo e as forças mais reacionárias do País

O Partido dos Trabalhadores (PT) encerrou, neste domingo (26), em Brasília, o seu 8º Congresso Nacional. O encontro, realizado no Centro de Convenções Brasil 21, reuniu dirigentes, parlamentares, ministros, ex-ministros, militantes e representantes de movimentos sociais para debates internos e para a aprovação de um manifesto.

O congresso ocorreu no ano em que o PT completa 46 anos. Entre os participantes citados estiveram o ministro da Fazenda, Fernando Haddad; o presidente nacional do PT, Edinho Silva; o ministro da Educação, Camilo Santana; o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães; além dos senadores Teresa Leitão, Humberto Costa e Rogério Carvalho.

O manifesto aprovado no Congresso aparece como um primeiro esboço de programa eleitoral para as eleições de 2026 e, ao mesmo tempo, uma tentativa de balanço do governo Lula.

O texto apresenta a reeleição de Lula como “decisiva” e afirma que “a promessa neoliberal de crescimento econômico, estabilidade e bem-estar mostrou-se incapaz de oferecer futuro para a maioria”. Apesar do diagnóstico, o manifesto não apresenta qualquer perspectiva real de rompimento com esta política, que já foi apelidada de “genocídio econômico”. O neoliberalismo é a política dos grandes bancos, que impõem aos regimes políticos que dominam um funcionamento hostil às necessidades da população.

O problema está em que, depois de supostamente diagnosticar a doença, o PT propõe como remédio exatamente a política que vem mantendo o País sob os marcos da política neoliberal: defesa das instituições do regime, submissão aos capitalistas, respeito ao “equilíbrio fiscal” e nenhuma medida de ruptura.

O manifesto fala em crise do neoliberalismo, mas não propõe revogar uma única privatização. Fala em “soberania nacional”, mas não propõe o monopólio estatal das riquezas minerais, do petróleo, da infraestrutura estratégica ou do sistema financeiro. Fala em “democracia”, mas não enfrenta o poder do Judiciário dos organismos não eleitos que passaram a mandar mais que o povo. Ao mesmo tempo, defende uma “ampla regulamentação dos oligopólios das plataformas digitais”, advogando a censura cujo verdadeiro objetivo é blindar o grande capital de críticas.

Essa é a contradição fundamental: pressionado pelas eleições em um momento de ascensão da extrema direita, o PT quer apresentar um programa de apelo social sem tocar nos interesses materiais dos capitalistas. Quer parecer anti-neoliberal sem de fato combater o neoliberalismo.

O manifesto diz que há uma crise do capitalismo neoliberal. Mas, no texto petista, essa crise aparece quase como um fenômeno que poderá ser superado por decisões administrativas, reformas negociadas e uma “contínua acumulação de forças sociais e políticas nas bases da sociedade”.

O neoliberalismo, no entanto, não é apenas um conjunto de ideias impopulares. Ele só pode ser derrubado por meio da luta de classes, do enfrentamento dos trabalhadores com os grandes proprietários, banqueiros, monopólios estrangeiros e seus representantes dentro do Estado.

O PT fala em “instituições democráticas” como se elas fossem amigas do povo, lamentando o seu enfraquecimento. Em defesa das tais instituições, o manifesto apresenta a necessidade de uma “coalizão que transcenda a defesa institucional da democracia”. Essas instituições são as mesmas que participaram do golpe de 2016, prenderam Lula e impediram sua candidatura em 2018 e colocaram o Banco Central sob controle direto do grande capital. A defesa abstrata das instituições é, na prática, a defesa do Estado capitalista que esmaga o povo todos os dias.

Essa é a função da palavra “democracia” no manifesto: servir de senha para a frente ampla. Em nome da “democracia”, o PT se alia ao Supremo Tribunal Federal (STF), à imprensa golpista e à “direita tradicional”. A política de frente ampla coloca a esquerda a reboque do imperialismo e apresenta os inimigos históricos do povo como aliados confiáveis.

O resultado é desastroso. A extrema direita cresce não porque o povo seja naturalmente reacionário, mas porque a esquerda pequeno-burguesa desarma as massas.

O manifesto também recorre ao espantalho das “grandes corporações tecnológicas”. É evidente que as plataformas são controladas por monopólios capitalistas, como qualquer setor da economia mundial. Mas o PT usa esse fato para justificar uma conclusão autoritária: a de que o STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) devem controlar a circulação de opiniões. 

Em vez de defender a liberdade política do povo contra os monopólios privados e contra o Estado, o PT quer entregar mais poder ao mesmo aparelho estatal que persegue partidos, controla eleições, censura publicações e interfere na vida política nacional.

Na política externa, o manifesto denuncia que a “ordem internacional sob hegemonia dos Estados Unidos se desestabiliza”, fala em “Sul Global”, BRICS, “multipolaridade” e “soberania”, mas não propõe uma política independente de enfrentamento ao imperialismo. Não propõe ruptura com os mecanismos de dominação dos Estados Unidos. Não propõe uma aliança real com os povos agredidos pelo imperialismo. Ao invés disso, lança mão da retórica da “mediação”, afirmando que o Brasil deve contribuir para um “mundo mais equilibrado, baseado na cooperação, no desenvolvimento e na paz”.

O caso do Oriente Médio é exemplar. O governo Lula criticou “Israel” em vários momentos e a relação diplomática passou por crises, inclusive com a retirada do embaixador brasileiro de “Israel” em 2024. Ainda assim, não há ruptura. O Estado de “Israel”, por meio de seus serviços de inteligência, interfere diretamente na política nacional, perseguindo cidadãos brasileiros. Recentemente, o próprio governo realizou um evento com as principais organizações envolvidas nessa perseguição.

Por outro lado, a população palestina é tratada como sub-humana. O texto afirma que o governo Lula “liderou a maior operação de repatriação de cidadãos em áreas de conflito”. A verdade, no entanto, é que os refugiados árabes que chegam ao Brasil acabam ficando presos nos aeroportos, tendo seu ingresso sistematicamente negado no País. Nem mesmo militantes do próprio PT, como Breno Altman, são defendidos pelo governo diante do cerco sionista.

A mesma covardia aparece diante da Venezuela. O governo Lula vetou a entrada do país caribenho no BRICS e ajudou a criar o clima de instabilidade que favoreceu o sequestro de Nicolás Maduro. Falar em “mundo multipolar” enquanto se evita romper com o imperialismo é uma impostura política.

A ilusão da “multipolaridade”, como aparece no texto petista, é uma forma de reformismo internacional. O PT parece esperar que uma nova ordem mundial mais equilibrada nasça naturalmente da ascensão de “novas potências”. Mas não existe equilíbrio pacífico duradouro sob o imperialismo. O imperialismo norte-americano não aceitará passivamente perder sua posição. Ele reagirá com sanções, golpes, guerras, bloqueios, sabotagens e pressões econômicas. Diante disso, a política necessária não é torcer por uma nova ordem, mas organizar a luta contra a ordem existente.

Na economia, o manifesto apresenta seu grande trunfo: uma lista de indicadores positivos, chegando a dizer que o atual mandato teve o “Governo do Brasil com mais entregas da história”. Mas a pergunta decisiva é outra: o povo sente que sua vida foi transformada? Se o Brasil está tão bem, por que há tanto descontentamento social? Por que o governo precisa insistir tanto que a economia vai bem? Por que o bolsonarismo não para de crescer?

A realidade concreta mostra os limites da propaganda. Em abril de 2026, o Bolsa Família atendia 18,9 milhões de famílias, com valor médio de R$678,22. Isso é prova de que uma parcela imensa do povo continua dependendo de transferência mínima de renda para sobreviver. O programa é necessário diante da miséria, mas sua permanência em escala gigantesca revela que a miséria não foi superada.

O salário mínimo de 2026 é de R$1.621. O DIEESE calculou que, em março de 2026, o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de R$7.425,99. Eis a distância entre a propaganda e a vida real. O PT comemora a “valorização do salário mínimo”, mas o trabalhador sabe que o salário continua insuficiente para aluguel, comida, transporte, remédio, escola, luz e gás.

O endividamento das famílias também mostra o caráter ilusório da política econômica. Segundo levantamento da CNC divulgado pela CNN, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março de 2026, recorde da série da pesquisa. O governo comemora aumento do crédito como se crédito fosse renda. Mas crédito, para o trabalhador pobre, muitas vezes é apenas dívida, juros, cartão estourado, empréstimo consignado e desespero no fim do mês.

A população em situação de rua continua crescendo. Um levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da UFMG, apontou 365.822 pessoas vivendo nas ruas no fim de 2025, ante 327.925 em dezembro de 2024. 

A questão dos juros sintetiza a submissão ao capital financeiro. Em abril de 2026, a Selic estava em 14,75% ao ano, depois de ter ficado em 15% entre junho de 2025 e março de 2026, o maior patamar em quase 20 anos. Com juros desse tamanho, todo discurso sobre desenvolvimento nacional fica condicionado aos bancos.

A política de concessões mostra outro ponto central. O governo fala em reconstruir o Estado, mas segue entregando setores estratégicos à iniciativa privada. O Ministério de Portos e Aeroportos comemorou 21 leilões em 2025 e anunciou para 2026 uma agenda com primeira concessão hidroviária e previsão de 40 leilões em aeroportos e portos. 

Quando o manifesto fala em terras raras e minerais estratégicos, sua proposta é insuficiente. O texto diz que “nosso projeto exige que o processamento e a inteligência sobre esses minerais ocorram em solo nacional”, mas defender processamento nacional é pouco. O Brasil precisa do monopólio estatal absoluto sobre o subsolo, as riquezas minerais, o petróleo, a energia e a infraestrutura estratégica.

As reformas propostas pelo PT sofrem do mesmo mal. A reforma política não enfrenta a intervenção autoritária do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nem garante igualdade real para  os partidos pequenos. A reforma tributária, que o manifesto celebra por “isentar quem ganha até R$5 mil e cobrar mais dos super-ricos”, não propõe abolir de fato o peso dos impostos sobre o consumo, que recaem sobre os pobres. A “reforma tecnológica não” propõe romper com a dominação dos monopólios estrangeiros. A reforma do Judiciário não toca no problema essencial: juízes não eleitos com poder de governar o país. Por fim, a “reforma administrativa” não propõe reestatização, revogação das privatizações e ruptura com o “equilíbrio fiscal”.

No fim, o “bloco democrático-popular” defendido pelo manifesto é a velha frente ampla com outro nome. O texto fala abertamente em “consolidar um amplo processo de concertação social” que deve reunir a classe trabalhadora e o “empresariado comprometido com a nação”. Mas não há unidade real  possível nesta etapa. A burguesia vem demonstrando por meio de seus editoriais que quer, para o Brasil, um presidente como o argentino Javier Milei. Os trabalhadores, por seu turno, precisam de moradia, comida, emprego, terra e transporte. A conciliação proposta pelo PT não passa de uma ilusão que significa, na prática, subordinar os trabalhadores aos capitalistas.

A única política capaz de defender de fato o povo é uma política independente da classe trabalhadora. O manifesto do PT fracassa porque quer resolver os problemas do Brasil sem enfrentar quem causa esses problemas. Quer combater o neoliberalismo sem atacar os neoliberais. Quer soberania sem romper com o imperialismo. Quer “democracia” sem enfrentar o Estado.

O Brasil não precisa de uma nova carta de intenções para apresentar aos capitalistas. Precisa de uma política de luta contra eles.

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