Nesta segunda-feira (19), completaram-se 16 anos do martírio do palestino Mahmoud al-Mabhouh, um dos mais importantes quadros durante a formação das Brigadas Al-Qassam, braço armado do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas).
Em sua homenagem, o Hamas publicou uma nota biográfica. Leia na íntegra.
Mahmoud Al-Mabhouh: uma vida dedicada ao armamento da Resistência
Diz a máxima que a biografia de um homem não deve ser medida pelo tempo de vida, mas pelo rastro que ele deixa. A trajetória de Mahmoud Al-Mabhouh é prova disso: uma sucessão de escolhas difíceis, prisões, exílio e uma atuação silenciosa. Ele nunca buscou os holofotes; sua missão de vida foi garantir que a resistência tivesse dinheiro, armas e treinamento até o seu último suspiro.
O início
Tudo começou em 1978, quando Mahmoud entrou para a Irmandade Muçulmana sob a mentoria de Ibrahim Al-Maqadma e Salah Shehadeh. Já no início dos anos 1980, por seu perfil disciplinado, foi escolhido para integrar os primeiros grupos táticos que começavam a se organizar.
Naquela época, o trabalho era garantir recursos e armas para que a luta dentro da Palestina pudesse, de fato, começar. Eles faziam incursões constantes nos territórios ocupados para perder o medo do inimigo e mapear alvos antes mesmo do conflito estourar de vez.
“O Abatedouro”: o teste de ferro em 1986
Em 1986, Al-Mabhouh foi preso após ser delatado por um informante. Na prisão de Al-Saraya, o local de interrogatório era conhecido pelo apelido pavoroso de “O Abatedouro”. Ali, ele passou 46 dias sob tortura pesada.
Diz a história que um dos interrogadores, frustrado, disse aos oficiais: “Esse homem quer morrer, e eu não vou carregar essa culpa”. Ele saiu da prisão sem abrir a boca, sendo recebido na porta pelo próprio Salah Shehadeh, selando uma amizade que moldaria sua trajetória.
A Primeira Intifada e a luta direta
Com a Primeira Intifada e o nascimento do Hamas, ficou claro que era hora de partir para a ação direta. Em conjunto com Shehadeh, Mahmoud coordenou as operações que capturaram e mataram os soldados Avi Sasportas e, meses depois, Ilan Saadon. O objetivo era usar os corpos como moeda de troca por prisioneiros palestinos.
A perseguição foi implacável. Mahmoud passou três meses foragido até que a liderança do movimento ordenou que ele saísse da Palestina para sobreviver e continuar o trabalho lá fora.
No exílio: o homem da logística
Mahmoud passou pelo Egito, Líbia e Sudão, até se fixar na Síria. Lá, sua função mudou: em vez de estar no front, ele se tornou o “homem da logística”. Ele treinava estudantes que viviam no exterior e montava rotas de armas para a Faixa de Gaza e Cisjordânia.
Em 1996, chegou a ser preso na Síria após pressões diplomáticas sobre o contrabando de armas via Jordânia. Foram quase dois anos de uma detenção brutal. Amigos que o visitaram na época contam que ele estava irreconhecível: sem ver a luz do sol e tendo perdido metade do peso de tanto sofrer maus-tratos.
Apoio sem fronteiras e a queda em Dubai
Mesmo após tanta pressão, ele não recuou. Mahmoud passou a financiar a resistência de forma ampla, ajudando até grupos de outras vertentes políticas, como as Brigadas Al-Aqsa (ligadas ao Fatá), acreditando que a causa estava acima das divisões partidárias.
Em 2004, chegou a ser preso por sete meses na fronteira com o Egito ao tentar coordenar pessoalmente o envio de suprimentos. Mas foi entre 2004 e 2010 que ele viveu uma verdadeira corrida contra o tempo, trabalhando dia e noite para modernizar o arsenal da resistência com armamentos de ponta.
Sua jornada terminou em 2010, em Dubai, onde foi assassinado em um hotel durante uma escala de viagem para a China. Antes disso, já tinha sobrevivido a várias tentativas: foi baleado em Gaza, escapou de bombas em carros em Beirute e chegou a ser envenenado meses antes de sua morte.
A história de Mahmoud Al-Mabhouh não é feita de eventos isolados, mas de uma linha reta e coerente: da preparação na juventude ao trabalho incansável nas sombras. Ele morreu como viveu: focado na missão de fortalecer o seu povo.




