O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou, em entrevista ao canal indiano India Today nesta sexta-feira (20), que o principal objetivo do Brasil em relação à Venezuela é “restabelecer a democracia” no país.
Durante anos, o PT e a esquerda brasileira repetiram que o confronto político do nosso tempo era entre democracia e fascismo, e que Trump representava o fascismo em sua forma mais acabada. Pois bem: a posição que Lula defende hoje para a Venezuela é exatamente a que Trump defende — e, mais especificamente, a que o setor mais intervencionista e imperialista de seu governo, encabeçado pelo secretário de Estado Marco Rubio, vem impondo à região.
“Restabelecer a democracia” em outro país é uma fórmula imperialista e colonial. Foi com ela que os EUA destruíram o Iraque, a Líbia e o Afeganistão. Ao final de cada uma dessas aventuras “democráticas”, o país-alvo estava em ruínas, e a democracia que devia ser restaurada, em lugar algum. O Brasil não tem mandato nem autoridade para se pronunciar sobre a vida política interna da Venezuela. Ao fazê-lo, o governo Lula entra numa disputa que pertence ao imperialismo, adotando sua política e servindo aos seus interesses.
Lula parece acreditar que integra um clube seleto de estadistas que “restauram democracias” pelo mundo. A realidade é outra. Quando Maduro foi sequestrado pelas forças armadas dos EUA, o governo brasileiro emitiu uma nota que omitia o nome do presidente venezuelano e evitava qualquer menção ao imperialismo. O mesmo governo que então ensaiou “neutralidade” fala agora em “restabelecer a democracia”, a mesma expressão que o imperialismo usa para justificar suas agressões.
O governo brasileiro parece ter abandonado um princípio da diplomacia internacional de que nenhum país tem o direito de intervir nos assuntos internos de outro. Mais grave que isso é o fato de que o Brasil tem interesse direto na estabilidade da América Latina e na defesa da soberania dos países da região. Ao adotar a política intervencionista do imperialismo, o governo Lula não serve ao Brasil, serve a quem quer dobrar a Venezuela.
O governo brasileiro precisa mudar de posição. A exigência imediata e sem condições é a libertação de Nicolás Maduro. O Brasil deve fazê-la publicamente, com clareza, e tomar medidas concretas para pressionar os EUA nesse sentido, mobilizando os países da região, acionando os caquéticos foros internacionais disponíveis e rompendo com a falsa neutralidade que, na prática, dá cobertura para a agressão imperialista.





