O secretário-geral do Hesbolá, xeique Naim Qassem, declarou nesta quarta-feira (4), durante pronunciamento no mês do Ramadã, que a recente salva de mísseis lançada pelo grupo “foi resposta” a “15 meses de violações diárias” por parte de “Israel” e dos Estados Unidos no Líbano. No discurso, Qassem afirmou que o acordo de cessar-fogo firmado em 27 de novembro de 2024 abriu “uma nova etapa”, à qual o Hesbolá aderiu junto “com o Estado libanês”, mas na qual “’Israel’ não cumpriu nem um único item”.
Segundo Qassem, o Hesbolá mantinha a contenção diante de ataques repetidos para não ser acusado de atrapalhar a via diplomática. “Não respondemos às agressões israelenses repetidas para que não nos acusem de impedir o trabalho diplomático”, afirmou. O dirigente acrescentou que a decisão também buscava “dar uma oportunidade” para que o Estado assumisse a responsabilidade de “proteger o Líbano e a soberania do Líbano”, mas ressaltou que a situação chegou a um limite: “dissemos repetidas vezes que a paciência tem limites (…) e a escalada do inimigo israelense se tornou grande”.
No pronunciamento, o secretário-geral do Hesbolá também criticou a pressão de setores internos e de “amigos internacionais e árabes” para “restringir as armas”. Para Qassem, “o problema é a ocupação”, não o armamento da resistência. “O problema é a ocupação, e não o problema no interior, nem nas armas, nem na resistência, nem nos componentes nacionais”, disse, atribuindo a crise à “violação permanente da soberania” e à “ocupação israelense-norte-americana” por meio do controle do espaço aéreo e de “tutela”.
Qassem voltou a sustentar que “Israel” mantinha um projeto expansionista e citou declarações do primeiro-ministro israelense. “Netaniahu disse que quer o ‘Grande Israel’”, afirmou, acrescentando que um embaixador norte-americano no interior do território ocupado teria endossado a ideia de um “direito” que se estenderia “do Eufrates ao Nilo”. “Esse ‘Israel’ é um perigo existencial para nós, para o nosso povo, para a nossa pátria e para a região inteira”, afirmou.
Ao explicar a decisão de lançar mísseis, Qassem disse que a pergunta sobre “o momento” ignorava o acúmulo de violações. “Somos obrigados a esperar até o infinito?”, questionou, ao afirmar que, no período citado, “cerca de 500” pessoas foram martirizadas — “à taxa de um mártir por dia”. Ele também citou números que atribuiu a registros da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Exército libanês: “mais de dez mil violações terrestres, marítimas e aéreas”.
O dirigente afirmou que, após a salva de mísseis, “Israel” abriu uma escalada que, segundo ele, já era planejada. “A salva de mísseis nós a quisemos como um passo sério para derrubar toda ilusão de que esse inimigo, se você se calar diante dele, ele se cala”, disse, antes de contestar a justificativa israelense de que a ação teria “causado” a guerra. “De jeito nenhum, de jeito nenhum”, afirmou, ao sustentar que os disparos “foram resposta” às violações e à “devassa” contra o Líbano e seus aliados, incluindo “o que ocorreu de alvo contra a grande referência religiosa, Saied Ali Khamenei”.
Qassem afirmou que, no intervalo de “36 a 48 horas”, o número de martirizados ultrapassou 40 e os feridos chegaram a 250, com mortes de “civis — homens, mulheres e crianças — em suas casas”, além de destruição de prédios “em diferentes regiões”. Ele também disse que “Israel” deslocou populações e destruiu localidades: “deslocou mais de 85 aldeias e cidades pelo nome”, afirmou.
No mesmo trecho, o secretário-geral do Hesbolá declarou que alvos civis e de comunicação foram atingidos, incluindo “centros do Qard al-Hasan”, instituição que descreveu como “financeira social” voltada a “necessitados e pobres”, e veículos de imprensa do grupo. “Israel mirou a TV Al-Manar e a rádio Al-Nour; esse ataque é contra uma voz midiática”, afirmou. Para Qassem, a campanha não se explicava por infraestrutura militar, mas por uma política de aniquilação: “eles fazem uma guerra de extermínio; eles fazem um ataque à própria existência”, disse.
Qassem também afirmou que mediadores teriam questionado, antes de uma guerra contra o Irã, se o Hesbolá interviria, e interpretou a questão como parte de um cálculo israelense para escolher prioridades de ataque. “Não é que o israelense desistiu da ideia de agressão ao Líbano, não; ele organiza seus assuntos: ataca o Líbano primeiro, ou o Irã primeiro, ou os dois juntos”, disse. No discurso, o dirigente afirmou que “Israel” teria decidido atacar o Irã primeiro, “e, portanto, o Líbano tem um tempo”.
No plano interno, Qassem criticou o governo libanês por, segundo ele, mirar a resistência em vez de enfrentar a escalada. “Em vez de o governo libanês se posicionar para condenar a agressão israelense-norte-americana e buscar meios de enfrentamento, ele se voltou para a resistência para completar seu erro”, afirmou. Em outro ponto, qualificou como “um grande erro” decisões tomadas pelo governo em “5 e 7 de agosto”, por terem, segundo ele, “enfraquecido a posição do Estado” e “legalizado a liberdade da agressão israelense”.
O secretário-geral do Hesbolá afirmou que a resistência e seu armamento não eram “objeto de disputa” e enquadrou a atividade do grupo como direito legítimo. “Enquanto a ocupação existir, a resistência e suas armas são um direito legítimo humanamente, legalmente e internacionalmente”, disse, citando ainda o Acordo de Taif e “as leis celestes”. Qassem declarou que a organização seguiria no enfrentamento: “enfrentaremos a agressão pela defesa legítima do povo, da resistência e da pátria (…) não nos renderemos”.
Ao final, Qassem pediu unidade política e social e cobrou estrutura para acolhimento de deslocados, afirmando que o deslocamento imposto por “Israel” buscava “criar uma fissura entre a resistência e as pessoas”. “Nós e vocês estamos na mesma trincheira”, disse, chamando a população deslocada de “povo de honra e dignidade”. Ele também afirmou que opositores do Hesbolá teriam “uma oportunidade” de abrir “uma nova página”, com a condição de não “apunhalar a resistência pelas costas” durante a guerra.





