Boa tarde, companheiros. A avaliação da situação política tem que começar necessariamente com a análise da situação política internacional. E, quando nós vemos a análise da situação internacional, nós vemos um panorama extremamente tenso. Nós já fizemos a caracterização, e essa caracterização, a cada dia que passa, confirma-se no sentido de que os países imperialistas — nós estamos nos referindo aos Estados Unidos, ao Japão e à União Europeia — estão dirigindo o planeta para um conflito de grandes proporções. Um conflito cujos alvos principais seriam a China e a Rússia. E, secundariamente, o Irã, a Venezuela, a Coreia do Norte, etc., e Cuba. Ou seja, o conjunto de países que procura por uma resistência, ainda que não seja uma resistência dura, mas procura por uma resistência à dominação imperialista mundial.
Nós tivemos um conjunto de acontecimentos, dois particularmente, que são muito significativos nesse sentido. O primeiro deles é a eleição no Japão. A eleição no Japão confirmou a vitória do partido da situação, que é o partido de sempre da situação política no Japão, o Partido Liberal, por uma margem extraordinariamente grande. A primeira-ministra japonesa, a primeira mulher a ser primeira-ministra do Japão, havia requisitado um voto de confiança para que ela tivesse uma maioria significativa, a primeira-ministra Takaichi. E, aparentemente — o resultado ainda não foi publicado, mas aparentemente as projeções todas indicam que a coligação dela teria tido uma vitória acachapante, com 350 parlamentares, aproximadamente, de 460. E o próprio partido dela, o Partido Liberal-Democrata, teria a maioria absoluta sozinho. Por que é significativo esse resultado? Porque essa primeira-ministra foi a pessoa que alertou a China de que qualquer movimento em direção a Taiwan, que é território chinês, seria recebido como um ato de guerra e uma agressão para o próprio Japão. Quer dizer, é uma figura que explicitamente materializa essa política belicosa do imperialismo em relação à China. O Japão não fez nada de particular em relação a Taiwan. Taiwan é parte da China, todo mundo considera isso. A lei internacional sempre considerou que Taiwan era parte da China, não é um país independente. Só que é absolutamente claro que o imperialismo está procurando transformar o problema de Taiwan num motivo para o enfrentamento militar com a China. Então, esse dado é bastante significativo.
O segundo dado, que é o ato de guerra mais explícito da situação, é a ameaça de guerra contra o Irã. O governo norte-americano de Donald Trump ameaçou o Irã dizendo que, se não houver um acordo sobre determinadas questões, a situação vai ficar ruim, coisas ruins vão acontecer, disse o presidente norte-americano. Há uma pressão muito grande para que o Trump entre em guerra com o Irã, não apenas do sionismo, que é um interessado, mas um ator político secundário nessa situação, mas da própria burguesia norte-americana. O que enfatiza o caráter dramático da situação é a reação dos chineses e russos. Em primeiro lugar, os russos e os chineses fizeram manobras navais junto com o Irã no Golfo Pérsico. O que é muito significativo, porque a ameaça norte-americana vem da frota norte-americana que se dirigiu para o Golfo Pérsico. Então, é um ato bastante explícito dos russos e chineses de apoio ao Irã em um eventual enfrentamento militar com os Estados Unidos. Logicamente que não é nenhuma declaração de guerra o ato dos russos e dos chineses; é mais uma pressão no sentido de que os Estados Unidos, ao invés de usar meios de força, venham sentar-se a uma mesa de negociação. Mas mostra o alto nível de preocupação dos chineses e dos russos, que tinham se mantido relativamente discretos nos acontecimentos, em relação ao problema do Irã, em relação ao problema do imperialismo de conjunto.
Então, nós temos que entender. Não podemos deixar de assinalar aqui também a ação chinesa, que também foge um pouco do padrão, a ação chinesa no sentido de doar para Cuba uma quantidade de painéis solares para Cuba superar, começar a superar a crise de abastecimento de combustível, de energia. Como todo mundo sabe, o bloqueio norte-americano intensificou-se com sanções contra empresas que negociassem com Cuba, passando por cima do bloqueio. Os chineses tomaram a iniciativa de doar esses painéis solares como resposta à situação. Quer dizer, o fato é que russos e chineses estão se mexendo porque eles estão percebendo que a situação só se agrava à medida que o tempo vai passando, a situação é cada vez mais grave. Logicamente que uma guerra mundial entre o imperialismo, a Rússia, a China, o Irã, etc., outros países, não vai acontecer de sopetão, não vai começar de uma hora para outra. A política do imperialismo é uma política de aproximações sucessivas. Eles procuram ocupar um determinado espaço político, militar e diplomático, recuam, vão de novo, etc. Agora, essa política de avanços e recuos, que é a política de aproximação, de aproximações sucessivas, não deve enganar ninguém sobre o sentido maior da coisa. O imperialismo dirige-se para a guerra.
O imperialismo sabe que dificilmente vai haver mudança de regime na Rússia e na China, que é muito remota essa possibilidade. É uma possibilidade com a qual eles procuram trabalhar nessa oposição. Tentaram uma espécie de revolução colorida, de golpe de Estado no Irã, e essa manobra fracassou completamente. Então, vai ficando cada vez mais claro que a única opção do imperialismo é a opção militar. E eles vão preparando o terreno com um conjunto de medidas que serão essenciais na utilização da opção militar. Entre essas medidas, nós temos que destacar o seguinte: primeiro, uma série de golpes de Estado que aconteceram principalmente na América do Sul, na América Latina, e na Europa do Leste. Golpes de Estado às vezes mais explícitos, às vezes mais disfarçados por manobras de tipo parlamentares, judiciais, institucionais, mas, sobretudo, pela perseguição, pela destruição dos direitos democráticos nos países imperialistas. França, Inglaterra e Alemanha têm avançado bastante na política de censura e de cancelamento dos direitos democráticos.
Para que a gente tenha uma ideia, nesta semana aqui eu vi uma matéria que me chamou muito a atenção, uma matéria do The Grayzone, onde eles falam que um jornalista alemão que defendia a Palestina foi sancionado com base nas leis aprovadas na União Europeia contra a Rússia, que são leis duríssimas de censura, contra qualquer tipo de propaganda que eles consideram como propaganda russa. Esse jornalista foi individualmente sancionado pelas reportagens que ele fez sobre a situação em Gaza. Então, para vocês terem uma ideia de como está a situação nesses países, o jornalista foi proibido de acessar os seus próprios fundos. Ele tem dinheiro no banco, ele não pode acessar o dinheiro no banco, ele só poderia acessar uma quantia mínima para a sobrevivência. Mas a reportagem informa que mesmo isso daí é difícil. Ele não pode receber ajuda de ninguém. Ele não pode receber ajuda de terceiros. Por exemplo, o autor da matéria que eu li falou que tentou oferecer uma cesta básica para o jornalista e foi bloqueado. Ele não tem autorização para receber nenhum tipo de ajuda. O máximo que ele poderia fazer era sacar do dinheiro dele 600 euros por mês. O que, em se tratando da Alemanha, é nada. Seiscentos euros é uma coisa de três mil reais no Brasil. Na Alemanha seria menos de um salário mínimo. Então, você vê o que aconteceu. É uma repressão duríssima contra a liberdade de expressão nos países imperialistas. Todos eles já aprovaram leis, tipo a Lei Felca no Brasil, que proíbem os jovens de acessar as redes sociais; quer dizer, a censura cresce exponencialmente.
E o crescimento da censura é uma política de guerra. Infelizmente, ou não sei se infelizmente, mas o fato é que a esquerda brasileira e mundial não se levanta contra essa situação. São algumas vozes que se levantam, em geral, aqueles que compreendem melhor o perigo do imperialismo que se levantam contra essa situação. A maioria está aí embriagada com a ideia de que as leis de censura são para proteger crianças de pedófilos, são para proteger minorias, de que eles estariam sendo vítimas de discurso de ódio, etc.
Aqui nós temos também um novo desenvolvimento, que é o ataque à esquerda. À medida que o regime imperialista, o regime político nos países imperialistas, entra em colapso, começa a se desagregar e ameaça entrar em colapso, melhor dizendo, é necessário atacar os inimigos políticos que fazem a oposição. Esse ataque começou com um ataque contra a extrema direita. Mas ele já se transformou explicitamente num ataque à esquerda. Porque a extrema direita teve maior facilidade de se organizar, se organizou anteriormente. A esquerda toda estava a reboque de uma política de colaboração com o imperialismo, não se organizou. A esquerda naturalmente tem mais dificuldade de se organizar do que a extrema direita, porque os partidos de extrema direita são partidos burgueses e são apoiados pelos capitalistas. Não são os grandes capitalistas, não é o capital monopolista que apoia a extrema direita, mas, mesmo assim, é uma parte da classe capitalista que apoia a extrema direita. Os partidos de esquerda, em geral — não estou falando da social-democracia, logicamente —, não têm esse apoio da burguesia.
A perseguição à esquerda já tinha se manifestado, por exemplo, na eleição alemã. Na eleição alemã, o partido de Sahra Wagenknecht, que é um partido que rejeita a política identitária, que rejeita a política imperialista, não conseguiu entrar no parlamento por 1% de voto que faltou. E o próprio partido denunciou que a eleição tinha sido fraudada. E houve várias denúncias de fraude nessa eleição. Esse foi o primeiro caso, um caso que fica um pouco obscurecido, porque é uma eleição, denúncia de fraude: será que houve fraude mesmo? Será que não houve fraude? Quer dizer, especulação, não fica claro. Mas agora na França, o partido França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, está sendo perseguido duramente pela burguesia devido a um acontecimento que está servindo de pretexto a essa perseguição, que é o seguinte: um grupo de jovens, de um grupo que se autodenomina antifascista, agrediu um militante da extrema direita e esse militante veio a falecer. Então, a morte desse militante da extrema direita, logicamente, fez com que a extrema direita protestasse, mas o que chama a atenção é que o conjunto da burguesia também está associando o acontecimento com o discurso instigador da França Insubmissa e do próprio Mélenchon. Por que existe esse caso, por que eles estão fazendo isso na França? Porque, a princípio, Mélenchon não teria nada a ver com a agressão. O partido, a França Insubmissa, não teria nada a ver com a agressão, porque não foram eles que determinaram a agressão e muito menos a morte do militante de extrema direita. Mas eles estão procurando associar uma coisa com a outra, porque, na França, a polarização levou a que a França Insubmissa, de um lado, e o Reagrupamento Nacional da Marine Le Pen se transformassem nos dois grandes partidos do país. E o centro político — Macron, partidos conservadores, partidos socialistas, etc. — está desmoronando visivelmente. Então, é preciso levar adiante uma política que não é nem a esquerda, nem a direita.
Aí já — também uma coisa significativa nos casos franceses — começaram a falar em “extrema esquerda” em referência ao Jean-Luc Mélenchon. Extrema esquerda, você pode pensar que é uma maneira de designar os partidos mais à esquerda, mas, na realidade, é uma senha repressiva. Você tem a extrema direita, que seria extremista, tem discurso de ódio, etc. E você tem a extrema esquerda, que seria extremista também, que também tem discurso de ódio, que é violenta, etc. Nós podemos ter absoluta certeza de que isso aqui vai chegar no Brasil sob essa forma e vai pegar o nosso partido como partido de extrema esquerda. Então, o que nós estamos vendo é que os países imperialistas não apenas estão suprimindo os direitos democráticos, impondo uma dura política de censura por todos os lados, como eles estão efetivamente procurando proscrever a oposição. Se não proscrever inteiramente, pelo menos diminuir a capacidade da oposição do ponto de vista institucional.
Vamos fazer um intervalinho aqui? Voltamos. Nós tivemos uma breve interrupção aqui por conta de festejos pós-carnavalescos aqui na proximidade, mas seguimos com o informe político com o companheiro Rui Costa Pimenta.
Retomando aqui, companheiros. A perseguição à esquerda, que agora no caso francês ficou muito evidente, vai se manifestar também — já se manifestou na Alemanha —, vai se manifestar na Inglaterra, onde o partido chamado Your Party, do parlamentar Jeremy Corbyn, também vai sofrer um duro ataque da parte da burguesia. A situação é cada vez mais polarizada. A burguesia impulsiona a extrema direita, está impulsionando a extrema direita em alguns países, onde existe uma extrema direita que seja mais administrável do ponto de vista político, como é o caso da Inglaterra, e está procurando desfazer a polarização, colocando fora do jogo político tanto a extrema direita quanto a chamada extrema esquerda. Para quem acreditou — nós temos uma polêmica com a maior parte da esquerda nesse sentido — que toda essa política repressiva, que toda essa política de perseguição à extrema direita fosse uma política antifascista, os recentes desdobramentos são um balde de água fria. Não se trata de política antifascista, mas de uma política fascistoide dos chamados governos democráticos. O ataque à esquerda é demonstrativo disso.
Uma outra coisa que é importante esclarecer também é o seguinte: essa investida não tem a ver com o trumpismo e a extrema direita, o impulso do imperialismo para a guerra. É um impulso do conjunto das forças imperialistas, e não da extrema direita. Tanto que França, Inglaterra e Alemanha não são dominadas pela extrema direita e são os países que têm avançado mais profundamente na questão da política belicosa, da política agressiva do imperialismo. Quer dizer, nós não podemos alimentar a ilusão de que o que está em jogo aqui com esses acontecimentos é uma luta entre democracia e fascismo. Não se trata disso. São as democracias, entre aspas, que estão na linha de frente da política militarista.
É evidente que toda essa política militar, o rearmamento de vários países, o reforço da política militar, a agressividade militar do imperialismo, tem uma base única, que é a crise capitalista. Quer dizer, a crise social levou o capitalismo a uma espécie de beco sem saída. Esse processo que nós descrevemos aqui, de perseguição à esquerda e à direita, é o beco sem saída dos regimes políticos imperialistas. Quer dizer, como administrar os países imperialistas, sendo que a erosão do sistema econômico gera uma crise social e gera uma oposição praticamente impossível de conter nos países imperialistas? A solução para isso é a guerra e o fechamento do regime. Quer dizer, o que está por trás de todo o problema é a crise capitalista, que leva à liquidação do regime político capitalista. Qual é o problema na França? O problema na França é que a política neoliberal levada adiante pelo Macron esgotou-se, chegou num beco sem saída total. Então, o que é que o regime político vai fazer? Ele vai estabelecer um regime de tipo bonapartista, que governe acima das instituições, e isso só vai ser possível, de fato, diante do panorama de um enfrentamento militar de grandes proporções.
Se nós traduzirmos esse panorama internacional para o Brasil, nós vamos ver que o que confronta o país do ponto de vista imediato é que a burguesia prepara uma solução para a situação brasileira que é análoga; a situação no Brasil é análoga à situação da França, da Alemanha, da Inglaterra. Sofre dos mesmos problemas. A crise capitalista afeta o Brasil tanto quanto afeta esses países. Na verdade, afeta mais o Brasil do que esses países. Nós já vimos aqui que, diferentemente desses países imperialistas, o que era o chamado centro político, quer dizer, a representação do grande capital e do imperialismo no Brasil, foi liquidada já faz tempo. A burguesia teve que se ver com três mandatos presidenciais do PT, e foi obrigada a se livrar do PT através de um golpe de Estado que agora completa dez anos, em 2026. O partido que comandou o golpe de Estado, que foi o PSDB, desapareceu do mapa. Foi completamente engolido pela crise. E os partidos de direita do regime político também sofreram muito com a crise. Cresceu o bolsonarismo, mas a esquerda não cresceu. Cresceu fundamentalmente o bolsonarismo. A esquerda não cresceu, do ponto de vista parlamentar, em grande medida pela sua adaptação à política do grande capital.
Qual é o problema? Porque, deixando de lado, logicamente, os obstáculos que o regime político coloca no caminho do crescimento da esquerda, nós vemos que não há um impulso de crescimento da esquerda. O Lula ganha a eleição, mas o PT não cresce, o PSOL não cresce, o PCdoB, os partidos institucionais da esquerda não crescem. Eles não estão tendo o mesmo desempenho que estão tendo os partidos da esquerda europeia que romperam com o imperialismo. E eles não estão tendo esse desempenho, em grande medida, porque eles não rompem com o imperialismo. Não querem romper com o imperialismo. Então, a burguesia já levantou aqui a palavra de ordem de “nem Lula, nem Bolsonaro”, e está procurando trabalhar com essa perspectiva.
Mas o que é que está por trás? Qual é o problema de fundo? O problema de fundo é que eles querem uma solução econômica. O problema de fundo, em primeiro lugar, é econômico. Em segundo lugar, é que eles querem uma solução para o problema econômico semelhante ao que está acontecendo na Argentina. A política que está sendo aplicada na Argentina, que é elogiada pela burguesia brasileira, é uma política tão dura de ajuste, de ataque às condições de vida dos trabalhadores, que a lei de emprego do Milei, que prevê até a pessoa trabalhar em troca de casa e comida — que é inscrever na legislação a volta da escravidão —, está sendo contestada até pelas montadoras de automóveis. Quer dizer, está sendo contestada pelo capital estrangeiro, individualmente. Os trabalhadores entraram em greve, os trabalhadores da indústria entraram em greve, uma greve convocada pela CGT de 24 horas — que, obviamente, não vai mudar nada uma greve de 24 horas —, que acabou sendo apoiada pelas montadoras de automóveis, para a gente ter ideia do tamanho do ataque que está sendo realizado na Argentina.
É isso que a burguesia quer para o Brasil. Eles querem liquidar ainda mais os direitos trabalhistas. O ideal da burguesia, vamos ter claro aqui, seria não ter direito trabalhista nenhum. Você vai lá, assina um contrato individual com o patrão, passando por cima de qualquer tipo de representação sindical. Não tem limite para jornada de trabalho. Não tem mínimo salarial, não tem nada. Você fica completamente na mão dos patrões. Seria a liquidação da saúde, da aposentadoria e da educação pública. Os ataques que o Milei fez a essas três instituições na Argentina são muito claros. Ele vai liquidar totalmente isso para abrir o mais amplamente possível o campo de exploração capitalista da miséria popular. Completar a privatização das empresas estatais, privatizar os Correios, privatizar completamente a Petrobras, privatizar completamente a Eletrobras. E nós sabemos o que significa isso para a população. Basta ver o que a população de São Paulo está atravessando aqui com a Enel.
Quer dizer, esse plano de ataque, que é um plano de guerra da burguesia contra o trabalhador brasileiro, é o que está presente, é o eixo fundamental do processo político no Brasil, em particular do processo eleitoral. É isso que a burguesia quer resolver. E a burguesia não vai se deter diante de uma eventual vitória da esquerda, se isso acontecer. Para ela, já é uma questão de vida ou morte. Para o capital financeiro, já é uma questão de vida ou morte. Quer dizer, ou você ataca a população, ou você vai atacar os ganhos dos capitalistas. As duas coisas estão em total oposição. Agora, o importante desse panorama é que o problema, do ponto de vista dos trabalhadores, mas também do ponto de vista da burguesia, não pode ser resolvido com medidas institucionais. Por exemplo, ganhar as eleições; se a burguesia por acaso não conseguir, através das eleições, colocar em prática esse plano, ela vai colocar o plano em prática por meios extrainstitucionais. Vai dar um novo golpe, vai isolar um governo que não queira colocar em prática essa política, vai criar uma situação insustentável para qualquer governo que não queira colocar em prática essa política. A pressão vai ser muito grande.
Então, quer dizer, uma conclusão fundamental que nós temos que tirar nesse momento da situação política é que o problema, tanto para a burguesia como para os trabalhadores brasileiros, o povo brasileiro, não passa por dentro das instituições do regime político. Até porque essas instituições estão profundamente abaladas. Essa é uma conclusão fundamental que a gente deve tirar e que deve guiar toda a nossa política daqui para a frente.
Do ponto de vista geral, nós vemos que a burguesia está disparando contra o governo do PT. Depois de o PT falar que a eleição estava ganha, que o Lula ganha em todos os cenários, que é uma maravilha, que a situação econômica vai salvar o PT, etc. e tal, o que nós vemos aqui é que a eleição está mais no fio da navalha do que jamais esteve. Nós temos aqui dois grandes escândalos de corrupção que já estão influenciando poderosamente a eleição. O primeiro é o do Banco Master, que levou praticamente a uma liquidação do STF. O Dias Toffoli foi obrigado a abrir mão da relatoria do caso do Banco Master, que é uma coisa meio inédita, um recuo inédito do STF. Aí as baterias se voltaram contra o Alexandre de Moraes. O Alexandre de Moraes, durante o Carnaval, promoveu um enorme escândalo, porque ele começou a perseguir as pessoas que teriam supostamente vazado dados dos familiares do STF. É escandaloso porque, primeiro, revela que os familiares do STF estão bem no meio de todo esse escândalo do Banco Master. Foi um jornal — não sei se foi o Estadão, o Globo, não sei qual que foi — que publicou uma pesquisa que eles fizeram, uma pesquisa parcial, que mostrava que parentes dos nove ministros têm 35 empresas, parece. Isso sem levar em consideração os sócios ocultos, o esquema dos sócios ocultos, que não aparecem à primeira vista. Você precisaria fazer uma pesquisa mais profunda para descobrir quem é o sócio oculto. Quer dizer que isso pode levar a aumentar exponencialmente o número de empresários que são ou juízes do STF ou familiares dos juízes. Independentemente de como vai prosseguir a situação, o escândalo derrubou o STF. Digamos assim, é levar um tiro no coração, não tem por onde. Isso vai exigir uma reestruturação do STF; como a coisa ameaça ser continuada, vai levar à queda de ministros do STF também.
Qual é o problema do escândalo do Banco Master para o governo Lula? O problema é que o governo Lula esteve absolutamente identificado com o STF; principalmente Alexandre de Moraes, que é um dos principais implicados no escândalo do Banco Master. A mulher dele, Viviane Barci de Moraes, tem uma empresa judicial que tem um contrato em que ela deveria receber 130 milhões do Banco Master, e a imprensa não conseguiu descobrir nenhuma ação judicial que ela teria feito em favor do Banco Master. O que meio que denuncia que é uma operação ilegal. E o governo Lula está totalmente envolvido com isso. Um dos eixos fundamentais, se não o eixo fundamental da política da esquerda, do PT e do governo do PT nos últimos três anos, foi apoiar a intervenção sistemática do STF na política nacional. Tudo o que o governo fez, quase tudo o que o governo fez, passou pelo STF, e as ações do STF todas foram endossadas pelo governo do PT, que, inclusive, indicou apenas nesta gestão dois dos ministros do STF. E nas gestões anteriores indicou quase todos os ministros; com exceção do Alexandre de Moraes e do Gilmar Mendes, todos os ministros, inclusive o Dias Toffoli, foram indicados pelo governo do PT. Quer dizer, vai ser muito difícil na eleição com esse escândalo prosseguindo — o escândalo vai prosseguir, porque até agora não se chegou a nenhuma conclusão desse escândalo —, vai ser muito difícil dissociar o governo do PT do STF, do escândalo do Banco Master.
O PT tem outro problema também, que é a CPI do INSS, onde é possível que estejam envolvidas pessoas diretamente ligadas ao governo. Uma pessoa que está sendo indicada como estando envolvida seria o próprio filho do Lula. O Lula já deu uma declaração numa entrevista que ele deu antes do Carnaval, muito defensiva, por sinal, falando que teria dito para o filho que, se ele fez alguma coisa errada, ele vai ter que pagar. Mas isso, para efeito eleitoral, não vira nada. Porque ninguém vai acreditar que o Lula não soubesse — é o filho dele —, que ele não esteja envolvido. É uma bomba. É uma bomba atômica eleitoral. A CPI do INSS continua. O Lula manobrou para evitar que o filho fosse… Apesar de ele falar que o filho, se fizesse alguma coisa errada, teria que pagar, ele manobrou para que o filho não fosse ouvido na CPI também.
Então, nós temos aqui uma candidatura que está, da maneira como está aparecendo a coisa, na corda bamba. A gente viu durante o Carnaval que o governo fez uma manobra até, digamos assim, até certo ponto inteligente de impulsionar que uma escola de samba do Rio de Janeiro fizesse um enredo em torno do governo. Era uma manobra inteligente, porque Carnaval é uma coisa simpática, o pessoal vai lá, fez um enredo homenageando o Lula, etc. Mas o que a gente viu, e isso é um sinal da situação política, é que o tiro saiu totalmente pela culatra. Choveram críticas, e a escola acabou sendo desclassificada. Por que o tiro saiu pela culatra? Porque isso é muito importante. Nós temos que avaliar isso bem, com toda clareza e de maneira bastante concreta. O governo depende da boa vontade da burguesia. À medida que a burguesia começa a atacar o governo, o que parecia ser uma popularidade imbatível acaba se revelando como uma popularidade extremamente frágil. A ponto de que a burguesia conseguiu transformar o que seria uma propaganda positiva do governo na escola de samba numa propaganda negativa.
Então, nesse momento aqui, nós temos que dizer o seguinte: que a candidatura do PT está ameaçada. Ela não é uma candidatura segura e pode, eventualmente, até ser retirada. Se o Lula sentir que ele vai perder a eleição e que a derrota eleitoral pode ser uma derrota eleitoral contundente, ele pode muito bem retirar a sua candidatura da eleição. O que abriria caminho, nesse caso, para uma candidatura da chamada terceira via pela esquerda. Nós já mostramos aqui que a burguesia trabalhava com dois cenários: uma candidatura da terceira via pela direita, uma candidatura da terceira via pela esquerda. Os últimos acontecimentos indicam que poderia acontecer a candidatura da terceira via pela esquerda, porque pela direita aparentemente não vai acontecer. Aí nós temos a incógnita, que é o filho do Bolsonaro, Flávio Bolsonaro. Não fica claro se a burguesia aceita ou não aceita a candidatura do Flávio Bolsonaro. Eu acho que esse problema vai se resolver daqui para o final do mês de março. Daqui para o final do mês de março, nós vamos ter a certeza de qual é efetivamente o quadro eleitoral.
Agora, o que nós temos que ver aqui, e esse é um assunto importante do ponto de vista partidário, é o seguinte. Vou exemplificar isso com as últimas declarações do Lula sobre a Venezuela. Ele declarou, da Índia — declarou primeiro que a preocupação dele é restabelecer a democracia na Venezuela, o que é uma declaração absurda. Ele já tinha declarado que a questão do Maduro não era importante. O importante era o bem-estar do povo venezuelano, como se o Brasil tivesse alguma coisa, do ponto de vista diplomático, a ver com o bem-estar do povo venezuelano. Agora, ele já se transformou em presidente dos Estados Unidos, porque a declaração de que tem que restabelecer a democracia na Venezuela é típica de um presidente de um país como os Estados Unidos. Que olha e fala assim: não gosto do governo desse país, vamos restabelecer a democracia nesse país. É uma declaração colonial, colonialista. E, para piorar a situação, o Lula declarou o seguinte: que o Maduro não tem que ser julgado nos Estados Unidos. Se ele tiver que ser julgado, ele tem que ser julgado na Venezuela. Agora, por que ele estaria sendo julgado? Qual seria o motivo? Quer dizer, perdeu completamente a noção do que está fazendo.
Essas declarações desencontradas sobre a Venezuela não são por acaso. Elas são o resultado de uma política desencontrada. Quer dizer, o PT sempre foi o partido de um pé em cada canoa. Procurava, ora, se apoiar nos trabalhadores, nos movimentos de esquerda, apoiou Cuba, apoiou o governo da Venezuela, e tal, e ao mesmo tempo procurava negociar com a burguesia. Esse desencontro, essa confusão política das declarações do Lula são indicativos daquilo que está por trás: a política do PT se esgotou. Esse terceiro mandato do Lula foi um mandato onde, na realidade, o PT mostrou que não consegue nem superar a situação existente no país, nem minimamente; não tem margem de manobra do ponto de vista da realização social, de reformas, etc. e tal; o governo foi nulo. E ele não consegue manter a expectativa da sua base de que é efetivamente um governo transformador. E vejam que a base do PT, a expectativa da base do PT, de um modo geral, é muito limitada. A base do PT não tem um sentimento, uma consciência, vamos dizer assim, de que o país precisa de medidas radicais e revolucionárias. Em grande medida, o pessoal é educado na política reformista e numa política reformista de baixíssima intensidade. E, mesmo tendo essa educação reformista, o esgotamento das expectativas, a frustração das expectativas é muito grande.
Quer dizer, o que nós temos aqui não é apenas um problema eleitoral. Nós temos um problema de conjunto. Quer dizer, o regime político, num certo sentido, está expelindo a política reformista. E isso coloca uma série de enormes desafios políticos para a luta dos trabalhadores e a construção de um partido revolucionário. Nesse sentido, companheiros, a tarefa central que nós temos que ter nesse momento é a luta pela organização dos trabalhadores independente da burguesia. É preciso avançar nesse terreno e na mobilização popular. É necessário reunir forças que apontem no sentido da independência política e da mobilização popular.
Nesse sentido aqui, a gente decidiu convocar essa conferência porque nós achamos necessário lançar pré-candidaturas; não podemos lançar candidatos ainda, a lei eleitoral não permite. No Brasil, hoje, nós temos uma eleição relâmpago. Eleição que é feita em 45 dias, que é para que a televisão domine a eleição. Se a gente somar essa eleição de 45 dias a todas as proibições de fazer campanha de rua, fica claro que é uma eleição onde quem decide o voto popular não é a propaganda dos partidos, não é a luta política, mas é a grande imprensa, principalmente a televisão. A televisão atinge todo o território nacional; em 45 dias ninguém consegue fazer nada. Então, a eleição propriamente dita é uma coisa que vai acontecer lá em setembro. Mas nós temos a possibilidade de lançar pré-candidaturas.
Então, nós achamos que, para que a gente possa fazer a discussão, discutir um programa estratégico, mostrar que a política reformista é um beco sem saída, mostrar que é necessária uma política muito mais radical do que a política reformista que o PT apresenta e dar uma resposta imediata à ameaça da política neoliberal, nós achamos importante lançar pré-candidaturas que comecem esse debate imediatamente. Que não é um debate de apelo para o voto, mas um debate para esclarecer a situação política. O esclarecimento da situação política, tanto no que diz respeito à perspectiva estratégica… quer dizer, o que nós queremos para o Brasil? O que está acontecendo no Brasil? O PT procura mostrar que a política do Lula é uma maravilha. Agora, você sai aqui, nós que estamos aqui no centro da cidade de São Paulo, é só botar o pé na rua, a gente vai ver dezenas e dezenas de pessoas morando na rua. O pessoal fala que é o maior emprego de não sei quanto tempo, não sei que estatística é essa. Então, a pergunta é: o que esse pessoal que está dormindo na rua está fazendo que não vai atrás desses empregos maravilhosos?
Eu acho que foi no sábado passado, ou na segunda-feira passada, que nós realizamos uma reunião aqui. Nós passamos aqui em frente ao Theatro Municipal, tinha uma fila gigantesca de gente para receber um prato de comida de uma instituição — não sei se era a prefeitura, uma instituição de caridade —, uma fila enorme. E as pessoas que estavam pegando o prato de comida não eram indigentes. Os indigentes, evidentemente, também pegaram o prato de comida. Mas tinha um monte de gente que você olhava e falava assim: é um trabalhador. Quer dizer, o pessoal, aqueles que têm alguma renda — não vamos dizer que têm emprego —, vão pegar um prato de comida na fila dos indigentes que vão receber um prato de comida lá. Então, por aí nós temos ideia de como está a situação.
Quer dizer, sem tocar no problema da dívida pública, das privatizações, da destruição da aposentadoria, da destruição da saúde pública, da educação pública, não há solução nenhuma para o Brasil. Nós não podemos ter uma visão superficial. Nós temos que abrir o debate claramente, no sentido de que o país está andando para trás, a crise social aumenta, a política reformista não é capaz de reverter essa situação e que é preciso apontar medidas bem mais radicais para reverter essa situação, medidas de caráter revolucionário, e dar uma resposta ao ataque que a burguesia está preparando. Esse é o sentido da convocação dessa conferência. Essa conferência também é uma atividade que nós devemos entender como uma atividade preparatória do Congresso do Partido, onde nós temos que discutir esse programa estratégico e imediato, e onde nós temos que discutir a situação de conjunto e as medidas necessárias para enfrentar essa situação.
Muito obrigado.





