Governo Lula 4

João Campos, o dono do PSB que apoiou Aécio, armou a Guarda, privatizou Recife e agora pode ser ministro de Lula

Presidente do partido de Alckmin, Tebet e Thronicke, ex-prefeito enfrentou professores e abriu espaço para empresas privadas

O ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), derrotado na disputa pelo governo de Pernambuco, é um dos nomes cotados para integrar o quarto governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo reportagem publicada pelo UOL em 28 de outubro, o presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro busca assumir o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, pasta ocupada por seu pai, Eduardo Campos, durante o primeiro governo Lula.

Aos 32 anos, Campos é apresentado pela imprensa como um dos principais representantes da renovação de uma suposta “esquerda” brasileira. Sua trajetória, entretanto, inclui o apoio a Aécio Neves contra Dilma Rousseff em 2014, a direção de um partido que se tornou abrigo de políticos de direita, uma administração municipal favorável às parcerias com empresas privadas e o enfrentamento de uma greve de professores.

O presidente do PSB é casado com a deputada Tabata Amaral, autora de um projeto de lei que incorpora a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), criticada por permitir a associação de determinadas manifestações antissionistas ao preconceito contra os judeus.

A possível nomeação de Campos ocorre depois de sua primeira derrota eleitoral. Apesar de ter sido reeleito prefeito do Recife com 78,11% dos votos em 2024, perdeu o governo pernambucano para Raquel Lyra (PSD) em 4 de outubro de 2026, mesmo contando com o apoio pessoal de Lula.

O filho que fez campanha para Aécio Neves

João Campos é bisneto de Miguel Arraes e filho de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e dirigente nacional do PSB. Sua carreira política começou diretamente na estrutura partidária construída por sua família, antes mesmo de disputar uma eleição.

Em outubro de 2014, dois meses após a morte de Eduardo Campos, João participou de um ato de campanha de Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência da República, no Clube Internacional do Recife.

Diante do candidato tucano, João leu uma carta de sua mãe, Renata Campos, anunciando o apoio da família à candidatura adversária de Dilma Rousseff.

A mensagem afirmava que o governo petista não era mais capaz de promover as mudanças necessárias ao Brasil e manifestava confiança na capacidade de Aécio para governar o País.

O PSB havia decidido apoiar Aécio em votação de sua Executiva Nacional, por 21 votos a 7. Dois anos depois, o partido apoiaria oficialmente o golpe contra Dilma Rousseff, que abriu caminho para a chegada de Michel Temer à Presidência.

O dono do partido que recicla a direita brasileira

Em 1º de junho de 2025, João Campos assumiu a presidência nacional do PSB, consolidando sua posição como principal dirigente de uma organização historicamente comandada por políticos ligados à sua família.

Sob sua direção, o partido aprofundou a função de incorporar dirigentes provenientes da direita tradicional ao campo de alianças de Lula.

O exemplo mais conhecido é Geraldo Alckmin. Governador de São Paulo por quatro mandatos, antigo dirigente do PSDB e adversário histórico do PT, Alckmin ingressou no PSB em março de 2022 para se tornar vice-presidente na chapa de Lula.

Campos apoiou publicamente essa operação e, em 2026, colocou a manutenção de Alckmin na vice-presidência entre as prioridades nacionais do partido.

Em março e abril de 2026, a legenda recebeu Simone Tebet, Rodrigo Pacheco e Soraya Thronicke.

O casamento com Tabata Amaral e a lei sobre antissemitismo

Outra ligação política de Campos é com a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), com quem se casou em 21 de fevereiro de 2026, numa cerimônia realizada na Praia dos Carneiros, em Pernambuco.

Entre os convidados estavam Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Tabata, conhecida por sua atuação favorável a reformas educacionais e por posições liberais na economia, apresentou em 26 de março o Projeto de Lei nº 1.424/2026, destinado a estabelecer uma definição nacional de antissemitismo.

A proposta incorpora parâmetros da IHRA e prevê sua utilização como referência para políticas públicas.

O problema político está no emprego dessa definição para interpretar manifestações relativas ao Estado de “Israel”. O projeto admite que manifestações antissemitas possam ter como alvo o Estado israelense, quando considerado uma coletividade judaica.

Também incorpora exemplos que incluem a negação do direito à autodeterminação judaica e determinadas comparações entre a política israelense e a dos nazistas.

O projeto recebeu apoio de parlamentares de partidos da direita, entre eles o PL, e enfrentou resistência de deputados que retiraram suas assinaturas.

O prefeito das parcerias com os capitalistas

Na Prefeitura do Recife, Campos promoveu uma política de ampliação da participação privada nos serviços municipais.

Em agosto de 2021, sancionou uma nova legislação sobre concessões e parcerias público-privadas. A administração anunciou a expectativa de mobilizar R$1 bilhão por meio desse modelo.

No mês seguinte, assinou com o BNDES um acordo para estruturar projetos de concessão. Entre os primeiros serviços examinados estava a gestão de parques urbanos por empresas privadas.

Em dezembro de 2021, o município firmou contrato para estudar a concessão de seis parques, incluindo Dona Lindu, Jaqueira, Santana, Macaxeira, Caiara e Capibaribe.

O mesmo foi aplicado à educação infantil.

Em janeiro de 2022, Campos assinou um acordo para estruturar uma PPP destinada à construção e manutenção de até 44 creches, com previsão de criação de milhares de vagas.

Professores receberam proposta de R$ 1 no tíquete-alimentação

A política educacional de Campos também foi marcada pelo enfrentamento com os professores da rede municipal.

Em maio de 2025, a categoria decidiu entrar em greve contra a proposta de reajuste apresentada pela Prefeitura.

Os trabalhadores reivindicavam a aplicação do reajuste de 6,27% do piso nacional do magistério à carreira. A administração havia oferecido inicialmente apenas 1,5% de aumento salarial.

Para o tíquete-alimentação, a proposta foi ainda mais significativa: R$ 1 de acréscimo.

Os professores recebiam R$ 22 por dia de auxílio-alimentação e reivindicavam R$33. A oferta da Prefeitura elevava o benefício para apenas R$ 23.

Cerca de 1.500 professores participaram da assembleia que aprovou a greve, segundo os registros da mobilização.

O movimento denunciou também a falta de profissionais de apoio para estudantes com deficiência, problemas na infraestrutura escolar e dificuldades para cumprir a jornada de atividades extraclasse.

Durante a paralisação, a categoria enfrentou uma decisão judicial que determinou o retorno ao trabalho sob ameaça de multa diária de R$100 mil.

O ‘socialista’ que decidiu armar a Guarda Municipal

Na segurança pública, Campos adotou uma orientação de ampliação das atribuições policiais da administração municipal.

Em abril de 2025, iniciou o processo para permitir o armamento da Guarda Civil Municipal do Recife.

Em janeiro de 2026, acompanhou pessoalmente o início da formação de agentes para utilização de armas de fogo. A Prefeitura anunciou a aquisição de 250 pistolas calibre .380, além de munições e equipamentos destinados à nova estrutura.

A primeira turma de 25 agentes concluiu o treinamento e obteve autorização para atuar armada em abril, segundo informações posteriores da própria administração municipal.

O programa previa a formação de centenas de guardas. A Prefeitura também anunciou concurso para ampliar o efetivo da corporação.

Da derrota eleitoral a um ministério de Lula

Em outubro de 2026, mesmo contando com Lula e com a estrutura política construída por sua família, foi derrotado na eleição para governador.

Agora, a possibilidade de receber o Ministério da Ciência e Tecnologia oferece ao jovem dirigente uma alternativa para permanecer no centro da política nacional, apesar do resultado das urnas.

O PSB, sob seu comando, apresenta-se como aliado indispensável do PT. Ao mesmo tempo, tornou-se um dos principais canais de incorporação dos setores tradicionais da burguesia à coalizão governamental.

É essa trajetória, e não sua idade ou sua habilidade nas redes sociais, que permite compreender a natureza política do possível novo ministro de Lula.

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