O embaixador do Irã e representante permanente do país na Organização das Nações Unidas (ONU), Amir Saeed Iravani, enviou em 19 de fevereiro uma carta ao secretário-geral Antonio Guterres e ao presidente do Conselho de Segurança, James Kariuki, advertindo que, em caso de agressão militar dos Estados Unidos, “todas as bases, instalações e ativos” norte-americanos na região se tornariam “alvos legítimos” de uma resposta iraniana.
Na mensagem, Iravani afirmou que Teerã “não busca tensão nem guerra” e “não iniciará qualquer guerra”. Em seguida, escreveu que, se o país for atacado, reagirá “de maneira decisiva e proporcional” no exercício do “direito inerente de autodefesa” previsto no Artigo 51 da Carta da ONU. O diplomata acrescentou que os Estados Unidos “assumiriam total e direta responsabilidade” por “quaisquer consequências imprevisíveis e fora de controle”.
Iravani condenou as “ameaças repetidas e explícitas” de uso da força pelos EUA, citando referências a possíveis operações militares a partir de Diego Garcia e de outras bases regionais.
A advertência foi enviada um dia depois de Donald Trump ter mencionado a possibilidade de usar Diego Garcia, base conjunta dos Estados Unidos com o Reino Unido no oceano Índico, em uma eventual agressão contra o Irã.
Negociações indiretas
Enquanto as ameaças imperialistas se intensificam, o Irã destaca que mantém participação em negociações indiretas com os EUA, realizadas em Genebra, com foco no levantamento das sanções norte-americanas e em pontos relativos ao programa nuclear iraniano.
Tanto os Estados Unidos quanto “Israel” exigem o desmantelamento do programa nuclear iraniano, um teto severo ao programa de mísseis e o fim do apoio iraniano a partidos e organizações da resistência no Oriente Próximo, o chamado Eixo da Resistência. O Irã rejeita esse pacote e sinaliza disposição apenas para limitar ou suspender temporariamente o enriquecimento.
Trump, por sua vez, afirmou na quinta-feira (19) que decidiria um “curso de ação” sobre o Irã dentro de 10 dias. Depois, declarou a repórteres que teria estabelecido um prazo de duas semanas para que um acordo fosse alcançado.
WSJ fala em ataque ‘limitado’
O Wall Street Journal informou em 19 de fevereiro que Trump estaria considerando autorizar um “ataque militar inicial limitado” contra o Irã “dentro de dias”, para pressionar o Irã a aceitar as condições impostas pelos EUA. Segundo o jornal burguês, a primeira ação miraria “alguns locais militares ou do governo” e, caso o Irã não aceitasse encerrar o enriquecimento, os EUA poderiam ampliar a ofensiva, “potencialmente” com objetivo de derrubar o governo.
No ano passado, após os EUA ter se somado à guerra de 12 dias de “Israel” contra a República Islâmica, com ataques a instalações nucleares, o Irã respondeu com um ataque de mísseis balísticos contra a base norte-americana de Al-Udeid, no Catar. Autoridades iranianas afirmaram que um novo conflito levaria a respostas mais pesadas tanto contra “Israel” quanto contra ativos militares dos EUA na região.
Na terça-feira, o líder supremo Ali Khamenei afirmou que a República Islâmica possui armas capazes de afundar porta-aviões norte-americanos “até o fundo do mar”.
Pressão interna nos EUA
A escalada verbal de Trump também gerou críticas no próprio regime norte-americano. A deputada Marjorie Taylor Greene escreveu na rede social X: “os americanos não querem entrar em guerra com o Irã!!!”, lembrando a promessa de campanha de 2024 de evitar novas guerras. O senador Ed Markey defendeu que a prioridade deveria ser a situação interna do país, e a deputada Pramila Jayapal afirmou que qualquer ação militar contra o Irã exigiria consulta e autorização do Congresso.
Os deputados Ro Khanna e Thomas Massie declararam que pretendem forçar uma votação na Câmara sobre uma Resolução de Poderes de Guerra para exigir autorização explícita antes do emprego das forças armadas contra o Irã. Massie escreveu: “o Congresso deve votar sobre guerra de acordo com nossa Constituição”.
Movimentações no mar e reaproximação com o Egito
Em outra frente, o destróier iraniano Dena atracou no porto indiano de Visakhapatnam para participar do exercício naval Milan 2026 e de eventos como o IONS (Indian Ocean Naval Symposium) e a International Fleet Review. O comandante da Marinha iraniana, almirante Shahram Irani, afirmou que “segurança marítima sustentável” depende de cooperação regional e que exercícios multilaterais ampliam coordenação operacional e prontidão. Do lado indiano, o almirante Dinesh Kumar Tripathi citou ameaças como pirataria, contrabando organizado e desastres naturais no mar.
No plano diplomático, Teerã e Cairo chegaram em 20 de fevereiro a um acordo para restabelecer relações diplomáticas plenas e trocar embaixadores após 47 anos, segundo declarações de Mojtaba Ferdowsipour, chefe da Seção de Interesses do Irã no Egito, que afirmou haver uma “hora zero” definida para o anúncio oficial. Ele mencionou um roteiro em três etapas (remoção de obstáculos, construção de confiança e consolidação de laços econômicos) e afirmou que ocorreram mais de 15 reuniões em nível de chanceleres. O texto também relata que o Egito tem defendido desescalada e negociações indiretas como caminho para evitar uma nova guerra de grandes proporções na região.




