Oriente Próximo

Irã força ‘Israel’ a cessar agressão ao Líbano

Trégua teve início na madrugada desta sexta-feira (17), de acordo com o fuso horário local, e reflete a fraqueza da entidade sionista na mesa de negociação

O cessar-fogo entre o Líbano e “Israel” entrou em vigor à meia-noite de Beirute, já na sexta-feira, 17 de abril, depois de horas de anúncios contraditórios, pressão diplomática e movimentação militar intensa. Formalmente, trata-se de uma trégua de 10 dias. Politicamente, porém, ela aparece como o resultado provisório de uma correlação de forças que se alterou no campo de batalha e no terreno regional: a resistência libanesa impediu que a ofensiva sionista alcançasse seus objetivos, enquanto o Irã elevou o custo de continuidade da guerra a um ponto que os Estados Unidos passaram a pressionar Benjamin Netaniahu a aceitar uma pausa.

Donald Trump anunciou na quinta-feira (16) que a trégua começaria às 17h no horário da Costa Leste dos Estados Unidos, o que correspondia à meia-noite no Líbano. A versão norte-americana procurou vender o acordo como um êxito da mediação norte-americana, com conversas “excelentes” entre os Estados Unidos, o primeiro-ministro israelense e o presidente libanês. Mas, nas horas seguintes, uma sequência de declarações de parlamentares do Hesbolá, dirigentes iranianos e fontes ligadas às negociações desenhou um quadro bem diferente. O que aparece nesses relatos é que o cessar-fogo no Líbano não foi uma concessão espontânea do imperialismo, e sim uma imposição arrancada sob pressão.

O deputado libanês Hassan Fadlallah, do bloco Lealdade à Resistência, afirmou que o embaixador iraniano no Líbano comunicou às autoridades libanesas que os esforços de Irã haviam conseguido assegurar um acordo que incluía o Líbano. Segundo ele, a parte norte-americana se comprometeu a informar Netanyahu dessa decisão, enquanto o Irã permaneceria atento ao cumprimento do que foi acertado. Fadlallah ainda acrescentou um ponto central: a continuidade das negociações entre Irã e Estados Unidos dependeria da implementação do acordo. Em outras palavras, Irã vinculou a trégua libanesa ao comportamento dos Estados Unidos e fez do cessar-fogo não um gesto humanitário do Ocidente, mas uma obrigação política.

Outro parlamentar do Hesbolá, Hussein Hajj Hassan, foi ainda mais direto ao dizer que o cessar-fogo atual foi imposto sob clara pressão iraniana. De acordo com ele, Trump respondeu a essa pressão e forçou Netanyahu a aceitar a trégua. A declaração tem peso porque vem acompanhada de uma avaliação militar concreta: apesar de toda a destruição produzida pela ofensiva sionista, “Israel” não conseguiu ocupar Bint Jbeil, al-Khiam nem outras localidades do sul do Líbano. Ou seja, a máquina de guerra israelense, apoiada material e politicamente pelos Estados Unidos, não alcançou os objetivos declarados no terreno. A pausa nas hostilidades, nesse contexto, aparece menos como um triunfo diplomático do que como reconhecimento indireto de um impasse.

Essa leitura foi repetida por outras figuras do eixo de apoio à resistência libanesa. O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, declarou que desde o início o Irã insistia na necessidade de um cessar-fogo simultâneo em toda a região, incluindo o Líbano. Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, afirmou que a trégua foi resultado da firmeza da resistência e da unidade do seu eixo, e ressaltou que ela deveria ser tratada com cautela. Já o comandante da Força Quds, general Esmaeil Qa’ani, resumiu a tese de forma aberta: se houve cessar-fogo, ele foi produto da firmeza do Hesbolá e do apoio da República Islâmica do Irã.

Tal avaliação não ficou apenas no plano político. Uma fonte militar iraniana, descrita como altamente informada, afirmou que Irã esteve repetidas vezes a um passo de retomar a confrontação, com plataformas de lançamento de mísseis preparadas e prontas para operar. Segundo esse relato, o Irã suspendeu lançamentos em várias ocasiões diante de promessas sobre o momento em que o cessar-fogo no Líbano começaria, promessas que depois teriam sido quebradas. A mesma fonte disse que, na noite anterior à entrada em vigor da trégua, foi dado um prazo final decisivo para que a agressão contra o Líbano cessasse. O recado era claro: ou os Estados Unidos entregava contenção israelense, ou enfrentaria uma escalada que não conseguiria controlar.

É nesse ponto que a questão do estreito de Ormuz e das negociações entre Irã e Estados Unidos passa a ocupar lugar decisivo. Diversos trechos do material apontam que Irã operou segundo uma lógica de “cessar-fogo para todos ou para ninguém”. O Líbano foi apresentado como parte inseparável de qualquer arranjo regional, e não como frente secundária sacrificável em nome de uma acomodação entre os Estados Unidos e Irã. O próprio Baghaei deixou isso implícito ao tratar a trégua libanesa como elemento integrante do entendimento maior. Fontes iranianas acrescentaram que o status de Ormuz estava embutido no centro da negociação. Assim, a pressão não foi apenas retórica: envolveu ameaça concreta de ampliação da guerra, com repercussões econômicas e militares que iam muito além do fronte libanês.

Também chama atenção o papel atribuído ao Paquistão. Ghalibaf agradeceu explicitamente ao chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, por seus esforços de mediação. O mesmo nome aparece em várias notas ligadas às tratativas em Irã, inclusive em referências a um acordo anterior alcançado em Islamabad e retomado nas negociações. Isso sugere que o cessar-fogo não surgiu de uma única conversa presidencial televisionada, mas de uma cadeia mais complexa de contatos regionais, na qual os Estados Unidos foram levados a reconhecer limites que antes tentavam ignorar.

Para compreender por que essa pressão funcionou, é preciso olhar para o cenário dos dias anteriores. Segundo os materiais fornecidos, depois que o Líbano ficou de fora do cessar-fogo anunciado em 8 de abril entre Irã e Estados Unidos, “Israel” lançou seus maiores ataques contra Beirute desde 1983, matando mais de 300 pessoas em bombardeios concentrados sobretudo na capital, mas espalhados também por outras áreas do país. Desde então, a intensidade dos ataques sobre Beirute teria sido contida pela pressão iraniana, mas a agressão prosseguiu brutalmente no sul, justamente onde o Hesbolá travava combate direto para deter a invasão terrestre.

Foi nesse front que o cálculo do inimigo começou a se chocar com a realidade. Os textos mencionam repetidamente a batalha de Bint Jbeil e a resistência nas áreas de Khiam e de outras localidades do sul como fatores fundamentais para frustrar a ocupação. Hajj Hassan insistiu que a entidade sionista fracassou em tomar essas cidades. O general Qa’ani definiu o Hesbolá como a força vitoriosa no campo decisivo. A leitura comum é que a resistência não apenas sobreviveu à ofensiva, mas impôs um custo político e militar que tornou a continuação da guerra cada vez mais perigosa para “Israel” e para os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, o cessar-fogo escancarou a crise interna do regime libanês. Uma parte importante dos materiais reproduz forte descontentamento com a entrada do governo do Líbano em negociações diretas com “Israel”, sob mediação norte-americana. Especialistas e dirigentes ligados à resistência apontaram que essa via foi aberta em condições desfavoráveis, com concessões políticas e simbólicas inaceitáveis para grande parte da população. Houve revolta, por exemplo, com a imagem da bandeira libanesa aparecendo ao lado da bandeira israelense, algo visto como humilhação nacional em plena guerra.

O problema, porém, não era apenas simbólico. As reportagens indicam que setores pró-ocidentais do regime libanês estariam dispostos a discutir o desarmamento do Hesbolá em troca de apoio financeiro e político do Ocidente. Críticos argumentam que isso significaria aceitar supervisão israelense sobre território libanês e abrir mão de soberania em nome de uma “estabilidade” ditada pelos Estados Unidos. O embaixador israelense nos Estados Unidos chegou a declarar, após conversas com representantes libaneses, que o Líbano e “Israel” estariam “do mesmo lado” contra o Hesbolá. Se verdadeira em seu conteúdo político, essa frase diz tudo sobre o sentido da pressão imperialista: aproveitar a guerra para tentar resolver, por via diplomática, aquilo que a invasão militar não conseguiu resolver no sul do país.

O próprio Hussein Hajj Hassan classificou as negociações diretas com “Israel” como um “grave erro” e pediu que o Líbano deixasse de fazer concessões aos Estados Unidos e ao inimigo sionista. Trata-se de um alerta que vai além da disputa imediata sobre a trégua. Ele toca no problema central da política libanesa sob agressão: enquanto a resistência tenta defender o território, setores do aparelho estatal aparecem inclinados a transformar a pausa militar em mecanismo de pressão interna contra a própria resistência.

Não por acaso, o Hesbolá procurou combinar aceitação tática do cessar-fogo com uma linha de extrema cautela. Em comunicado dirigido ao “povo da resistência”, a organização pediu que os moradores do sul do Líbano, do Vale do Bekaa e dos subúrbios do sul do o Líbano evitassem regressar apressadamente às áreas atingidas. A justificativa era objetiva: “Israel” tem longo histórico de violar acordos e entendimentos. Em vez de incentivar uma volta triunfal e imediata, a direção do movimento enfatizou a proteção da população civil diante de uma trégua frágil e reversível. Nabih Berri também teria feito apelos no mesmo sentido.

Essa postura revela a principal contradição do momento. De um lado, a trégua representa um revés para a ofensiva israelense e para a narrativa norte-americana de controle absoluto da escalada. De outro, ninguém do lado da resistência parece tratar o cessar-fogo como paz consolidada. Os parlamentares do Hesbolá afirmaram que acompanharão de perto o comportamento do inimigo, especialmente quanto à interrupção de ataques contra vilarejos e das operações de assassinato. As prioridades declaradas continuam sendo a retirada completa das forças de ocupação, a libertação de prisioneiros, o retorno dos deslocados, a reconstrução e o fim total da agressão.

Nos primeiros minutos após a entrada em vigor da trégua, correspondentes relataram uma forte movimentação de veículos em direção às cidades do sul. A cena é significativa: mesmo sob cautela, a população deslocada tenta retomar a vida, medir o alcance da pausa e voltar para áreas devastadas pela guerra. Mas o retorno civil, por si só, não apaga a instabilidade. Os próprios materiais lembram que o inimigo sionista costuma reinterpretar cessar-fogos como direito unilateral de continuar agredindo sob qualquer pretexto, frequentemente baseado em acusações falsas ou alarmismo fabricado.

É por isso que o cessar-fogo em vigor não pode ser entendido apenas como uma interrupção humanitária, embora seu impacto imediato sobre a população seja inegável. Ele é, antes de tudo, uma fotografia provisória da luta de forças na região. A resistência libanesa mostrou capacidade de barrar a ocupação no sul. O Irã deixou claro que não aceitaria separar o destino do Líbano de um arranjo mais amplo, elevando a pressão sobre os Estados Unidos por meio da diplomacia e da ameaça militar. Os Estados Unidos, por sua vez, tentam recolher dividendos políticos de um acordo que tudo indica ter sido arrancado deles.

Se a trégua durar, ela confirmará que o inimigo foi obrigado a recuar diante de uma combinação de resistência no campo de batalha e pressão regional coordenada. Se for violada, como tantos temem, confirmará outra coisa que o povo libanês já conhece bem: o imperialismo e a entidade sionista assinam pausas quando precisam respirar, mas não abandonam seus objetivos. Em qualquer dos casos, os acontecimentos de 16 e 17 de abril deixaram uma lição política difícil de esconder sob a propaganda dos Estados Unidos: o cessar-fogo no Líbano não nasceu da boa vontade dos agressores, e sim da incapacidade deles de impor pela força aquilo que desejavam.

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