Em Teerã, autoridades iranianas confiscaram três modems Starlink e sete telefones via satélite escondidos na bagagem de um diplomata europeu no aeroporto Imam Khomeini. O caso abriu um atrito com a Holanda e veio à tona no mesmo momento em que Teerã denunciou um vídeo em persa divulgado pela CIA orientando iranianos a fazer contato com a agência norte-americana.
Segundo o relato das autoridades do aeroporto, o diplomata deixou uma mala para trás após se recusar a submetê-la ao procedimento de segurança, invocando imunidade diplomática. A segurança informou que bagagens diplomáticas seguem um rito legal específico, mas o homem manteve a recusa. A alfândega então deu início ao procedimento formal para lacrar e inspecionar a carga considerada suspeita. O diplomata deixou o país sem acompanhar o andamento do caso, novamente invocando imunidade.
Dias depois, um segundo diplomata retornou ao Irã para tratar do assunto. Foi realizada uma inspeção oficial na presença de representantes da alfândega e do Ministério das Relações Exteriores. A vistoria encontrou três modems Starlink e sete telefones via satélite ocultos no interior da bagagem. O material foi confiscado e o segundo diplomata teve a entrada no país negada.
Após a apreensão, o Ministério das Relações Exteriores da Holanda convocou o embaixador do Irã em Haia, em protesto. Publicações iranianas identificaram o primeiro diplomata como Andre Van Feichen e o descreveram como especialista em segurança e defesa. As mesmas publicações afirmaram que documentos divulgados pelo WikiLeaks registram ligações do diplomata com os Estados Unidos, incluindo a elaboração de informes sobre o Irã para autoridades norte-americanas.
Embaixada denuncia vídeo da CIA
No mesmo dia em que o episódio da bagagem ganhou repercussão, a Embaixada da República Islâmica do Irã na Holanda publicou, na plataforma X, uma nota contra um vídeo em persa divulgado pela CIA com instruções para que iranianos estabeleçam contato “seguro” com a agência. “Eles nem fingem mais. Quando a CIA divulga um vídeo em persa e ensina iranianos a contatá-la, isso não é diplomacia; é interferência escancarada. Imaginem a indignação se os papéis estivessem invertidos. Os dois pesos e duas medidas foram expostos”, escreveu a embaixada.
O vídeo da CIA recomenda o uso de VPN para contornar restrições e vigilância, “dispositivo descartável” para reduzir rastreamento, navegação privada e exclusão do histórico Internet.
Starlink e operação clandestina
O caso no aeroporto ocorre após episódios de início de janeiro, quando, segundo autoridades iranianas, foram apreendidos dezenas de aparelhos Starlink com pessoas envolvidas em ações golpistas contra o governo durante as manifestações pró-imperialistas de janeiro.
Informações divulgadas nos Estados Unidos apontam ainda para a introdução clandestina de milhares de terminais Starlink no Irã durante os acontecimentos de janeiro, com menção a cerca de 6.000 kits. No mesmo relato, consta que o Departamento de Estado adquiriu quase 7.000 terminais, com grande parte comprada em janeiro, e que houve redirecionamento de recursos para a operação.
A National Endowment for Democracy (NED), uma das fachadas da CIA, também está envolvida no caso. Em audiência no Congresso dos EUA, o presidente da NED, Damon Wilson, declarou que a entidade apoiou a implantação e operação de cerca de 200 aparelhos Starlink “no começo” dos acontecimentos, antes de ser interrompido por uma deputada, que disse: “é melhor não falarmos disso”.





