Um importante oficial das forças armadas da República Islâmica do Irã afirmou, em entrevista à emissora catariana Al-Jazeera, que um “erro estratégico” dos Estados Unidos poderá levar ao bloqueio de uma nova passagem marítima, criando uma crise de navegação ainda maior à que já está sendo causada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A declaração surge após dez dias de guerra, com as forças iranianas reforçando que o país ainda dispõe de “muitas cartas” para utilizar contra os Estados Unidos e seus aliados.
De acordo com a autoridade, qualquer falha de cálculo por parte dos norte-americanos complicará severamente a situação de segurança no Oriente Médio. O oficial destacou que o Irã possui planos militares “faseados e graduais”, sugerindo que a resposta a eventuais agressões não seria apenas imediata, mas uma série de contra-ataques planejados para desgastar as forças opositoras ao longo do tempo.
Pelo estreito de Ormuz, localizado no golfo pérsico, à leste da Arábia Saudita, passa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo. O bloqueio do estreito já causou um impacto enorme na economia mundial, o que tem levado setores capitalistas a pressionar o governo norte-americano pelo fim da guerra. Nenhum navio dos Estados Unidos, de “Israel” ou de seus aliados têm autorização para passar pelo estreito, o que inviabiliza a venda de gás do Catar — maior produtor do mundo — e a venda de petróleo de países como a Arábia Saudita.

Como resultado da crise, o preço do barril de petróleo não para de crescer. Recentemente, economistas ligados ao grande capital alertaram que o barril de petróleo, que, antes da guerra, estava em 80 dólares, poderá chegar ao valor de 250 dólares se a guerra continuar por mais algumas semanas.
Sem a possibilidade de navegar pelo golfo pérsico, os países árabes aliados do imperialismo e do sionismo têm uma única alternativa para comercializar hidrocarbonetos: o Mar Vermelho, localizado à oeste da Arábia Saudita. Para sair do Mar Vermelho, é necessário passar por outro estreito: Babelmândebe.

Ainda que seja possível retirar o petróleo da Arábia Saudita, as dificuldades são imensas. Para transportar o petróleo de leste a oeste, a Arábia Saudita precisa usar o Oleoduto Leste-Oeste. Ele cruza 1.200 km de deserto até o porto de Yanbu. A primeira limitação está no fato de que o oleoduto só comporta cerca de seis milhões de barris de petróleo por dia — menos de um terço do que passa por Ormuz. O Catar, por sua vez, fica completamente incapacitado de comercializar gás, pois não possui gasodutos trans-arábicos para o Mar Vermelho.
Não bastasse o tempo e a diminuição de barris de petróleo por dia, a operação ainda exige altos custos de frete. O seguro marítimo, por sua vez, tende a aumentar exponencialmente, pois há mais etapas envolvidas e o cenário de guerra torna tudo mais incerto. A operação como um todo demora cerca de 15 dias a mais do que se fosse realizada pelo Estreito de Ormuz.
O fechamento do Estreito de Babelmândebe, caso aconteça, inviabilizaria completamente a exportação de petróleo. Se o fechamento de Ormuz tornou o comércio muito mais lento e custoso, o fechamento de Babelmândebe colocaria a Arábia Saudita na mesma condição em que está o Catar: incapaz de vender sua principal commodity.
Do ponto de vista militar, o fechamento do Estreito Babelmândebe é relativamente fácil de ser realizada. Afinal, ele está às margens do território do Iêmen, país cujo governo está completamente alinhado com o Irã. O Iêmen, sob governo do revolucionário Ansar Alá, é uma das forças mais importantes e determinadas do Eixo da Resistência.
O Ansar Alá já afirmou estar “com o dedo no gatilho”, ameaçando retomar as operações marítimas em retaliação ao assassinato do Aiatolá Saied Ali Khamenei. Caso opte pelo fechamento do Estreito de Babelmândebe, repetindo o sucesso das operações no Mar Vermelho durante dois anos de guerra em Gaza.




