Um documento interno vazado mostra que o Vietnã está se preparando, política e militarmente, para uma possível invasão dos Estados Unidos, retratando Washington como uma ameaça à soberania do país, e não como um parceiro confiável.
As relações entre o Vietnã e os Estados Unidos foram elevadas ao mais alto nível diplomático em setembro de 2023, durante uma visita do presidente Joe Biden a Hanói. Nesse encontro, Biden e o secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Nguyen Phu Trong (falecido em 2024), assinaram uma declaração conjunta que atualizou o status bilateral para uma “Parceria Estratégica Abrangente”. Essa é a categoria mais alta na hierarquia diplomática vietnamita, equiparando os EUA a parceiros como China, Rússia e Índia.
Contudo, apenas um ano depois de elevar suas relações com Washington, a liderança militar vietnamita vem se preparando para uma possível “guerra de agressão” americana, passando a ver os EUA como uma “potência beligerante”, segundo um relatório divulgado pelo The 88 Project, um grupo de direitos humanos que monitora os acontecimentos no Vietnã.
O documento ressalta a profunda preocupação de Hanói de que Washington possa tentar desestabilizar o governo vietnamita por meio de uma chamada “revolução colorida”, traçando paralelos com a Revolução Laranja da Ucrânia em 2004 e a Revolução Amarela das Filipinas em 1986 — ambas amplamente vistas por autoridades vietnamitas como produtos de interferência dos EUA.
“Há um consenso aqui em todo o governo e entre diferentes ministérios… Isso não é apenas algum tipo de elemento marginal ou paranoico dentro do Partido Comunista no poder, ou do governo”, disse Ben Swanton, codiretor do 88 Project e autor do relatório.
O documento vietnamita, intitulado “O 2º Plano de Invasão dos EUA”, foi concluído pelo Ministério da Defesa em agosto de 2024 e descreve o que as autoridades veem como um padrão crescente de comportamento militar americano ao longo de várias administrações.
Analistas militares vietnamitas identificam um padrão ao longo de três administrações americanas, de Barack Obama passando pelo primeiro mandato de Donald Trump até Joe Biden, observando que Washington tem intensificado de forma constante seus engajamentos militares e estratégicos em toda a Ásia.
“Devido à natureza beligerante dos EUA, precisamos estar vigilantes para impedir que os EUA e seus aliados ‘criem um pretexto’ para lançar uma invasão contra nosso país”, afirma o plano.
O documento traça um retrato sombrio das intenções de Washington, sustentando que os EUA buscam “difundir e impor seus valores relacionados à liberdade, democracia, direitos humanos, etnia e religião” como meio de minar e, em última instância, desmantelar o sistema político socialista do Vietnã.
Swanton escreve que “O 2º Plano de Invasão dos EUA” oferece uma visão rara e direta do pensamento de política externa de Hanói, mostrando que o Vietnã vê Washington não como um parceiro estratégico genuíno, mas como uma ameaça existencial, e não tem intenção de ser atraído para um bloco liderado pelos EUA voltado contra a China.
Ações militares recentes dos EUA no exterior reforçaram ainda mais esses temores. As operações de Washington na Venezuela e em seu entorno, incluindo o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em 3 de janeiro, intensificaram a desconfiança vietnamita em relação a um engajamento mais estreito com os EUA.
Especialistas alertam que qualquer agressão militar dos EUA contra Cuba, outro aliado próximo de Hanói, enviaria ondas de choque pela liderança militar e política vietnamita, perturbando gravemente o “frágil equilíbrio regional e estratégico”.
País importante na estratégia imperialista contra a China
A intensificação e a consolidação das relações entre o Vietnã e a China nos anos recentes transformaram Hanói em um elo estratégico central para Pequim no Sudeste Asiático. A chamada “segunda era de ouro” da cooperação bilateral, marcada por forte integração comercial, investimentos chineses em setores-chave e projetos logísticos de grande escala, reforçou uma interdependência que vai muito além da diplomacia tradicional. Na prática, o Vietnã tornou-se um nó crítico das cadeias produtivas chinesas e uma plataforma fundamental para a projeção econômica da China em meio às pressões impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
Além disso, a cooperação militar entre Vietnã e China avançou de forma significativa em 2025, combinando gestos simbólicos e mecanismos operacionais inéditos. Pela primeira vez, os exércitos terrestres dos dois países realizaram exercícios conjuntos, enquanto uma guarda de honra do Exército de Libertação Popular participou do desfile do 80º Dia Nacional vietnamita. O diálogo estratégico, envolvendo Relações Exteriores, Defesa e Segurança, foi elevado ao nível ministerial, criando um canal direto para a gestão de tensões. Essa aproximação se materializa ainda em patrulhas conjuntas no Golfo de Tonkin, voltadas a busca e salvamento, fiscalização pesqueira e combate ao crime marítimo, além de inspeções coordenadas ao longo da fronteira terrestre.
Essa proximidade, no entanto, aumenta a importância geopolítica do Vietnã para o imperialismo. Ao funcionar como ponte logística, industrial e financeira para a China, o Vietnã passa a ocupar uma posição sensível no Sudeste Asiático. Washington e seus aliados veem o país não apenas como um parceiro regional, mas como um possível vetor indireto da influência chinesa. Isso faz de Hanói um alvo potencial de pressões econômicas, sanções comerciais e até de estratégias de desestabilização política, sobretudo em um cenário de rivalidade aberta entre EUA e China.





