No dia 5 de dezembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou a nova Estratégia de Segurança Nacional sob o slogan “Estados Unidos Primeiro”. O documento marca uma mudança de postura significativa em relação à estratégia anterior, deixando de tratar a América Latina como um espaço de cooperação para tratá-la como um espaço de contenção, controle e possível intervenção.
Através de uma premissa de controle de imigração e combate ao narcoterrorismo, os Estados Unidos camuflam seu objetivo real em relação à América Latina: o de conter a influência das grandes potências rivais, como a Rússia e a China. Para cumprir esse objetivo, a orientação do documento autoriza explicitamente o uso de força letal, uma agressão explícita ao Direito Internacional e ao sistema interamericano de segurança coletiva.
Nesse ponto, seria interessante trazer à luz para debate um direito fundamental garantido, inclusive pela ONU: o de autodeterminação. Trata-se da garantia a um povo do poder de controlar seu próprio destino e escolher seu sistema de governo, desenvolvimento econômico, social e cultural, sem interferência externa. Esse direito é ignorado pelos estadunidenses, que lançam operações militares desnecessárias contra “traficantes de drogas” no Mar do Caribe, bem como uma campanha que bombardeou a Venezuela e sequestrou seu presidente, Nicolás Maduro, legitimamente eleito pelo seu povo.
Estranhamente, o documento informa que “todos os seres humanos possuem direitos naturais iguais, concedidos por Deus”, enquanto o presidente Trump ameaça anexar o Canadá, invadir a Groenlândia para a exploração de seus minerais ou retomar à força o Canal do Panamá. Na prática, a nova estratégia retoma elementos da Doutrina Monroe, elaborada em 1823, que declarava o continente americano fechado para a colonização europeia.
Com atores diferentes nos dias atuais, mas a mesma ideia central, o objetivo continua sendo retirar qualquer influência vinda de fora do continente americano. Este documento não apresenta uma estratégia coerente para garantir a segurança dos Estados Unidos, mas revela muito sobre a fragilidade da ideologia do governo, que está embebido de uma política mercantilista, ou melhor, de saqueamento de recursos de outros países.
Isso fica evidente em uma declaração de Trump em entrevista ao jornal norte-americano The New York Times, publicada no dia 8 de janeiro de 2026. Ele afirmou que o governo estadunidense seguirá administrando a Venezuela e extraindo petróleo das reservas do país latino-americano por anos. Algo que já tinha sido declarado pelo Secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, um dia antes.
“Vamos comercializar o petróleo bruto da Venezuela: primeiro, esse petróleo que se acumulou e foi armazenado, e depois, por tempo indeterminado, venderemos a produção venezuelana no mercado”, disse Wright.
Podemos concordar que a invasão à Venezuela vai muito além da questão petrolífera, mas não podemos excluí-la da equação. O poder bélico de intervenção que os EUA demonstram perante o mundo, sobretudo nos países latino-americanos, prova que estão dispostos a qualquer meio para obter seus objetivos, mesmo que para isso seja preciso sacrificar vidas e países.
O documento deixa claro, no capítulo sobre regiões, que as Américas do Sul e Central devem retornar ao jugo estadunidense, através da Doutrina Monroe, para restaurar a predominância dos EUA no Hemisfério Ocidental. A América Latina tornou-se o pilar da dominação imperialista estadunidense, que tem o objetivo de garantir a manutenção da sua hegemonia global frente a outros países, visto que, nos últimos tempos, os questionamentos à sua autoridade vêm aumentando.
O documento aponta o rumo dos EUA frente à nova etapa do capitalismo, visando a dominância total do Hemisfério Ocidental. Uma profunda convergência entre imperialismo externo e autoritarismo interno. A dominação militar, o saque econômico e a produção petrolífera a serviço dos interesses dos capitalistas norte-americanos.
Nesse contexto, o Brasil se torna um dos pontos centrais dessa nova política de intervenção americana. Além dos interesses em recursos naturais, sua capacidade energética e sua base tecnológica emergente, o Brasil também exerce um papel geopolítico relevante no BRICS e no cenário mundial. Isso torna qualquer iniciativa soberana brasileira um risco à estabilidade hemisférica e aos próprios Estados Unidos, que retalharão, como fizeram com a Venezuela, por meio de golpes, sequestros e perseguições políticas. A bandeira brasileira deve ser de vigilância, de denúncia e de soberania nacional.




