No periódico da burguesia britânica – BBC News, Rute Pina faz uso da comoção pela morte do cão Orelha para associá-la a uma suposta violência no ambiente digital. Para sustentar tal tese, Pina recorre à entrevista da juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, que seria, então, uma especialista no assunto e personagem carimbada da grande imprensa pela regulamentação das redes. Para Cavalieri, o caso expõe um fenômeno de crescimento de violência extrema cometida por jovens. A juíza parece morar na Disney, se esquece do mundo em que vive. A polícia acaba de cometer a maior chacina no Rio de Janeiro, teve até cão baleado, mas este não comoveu a grande imprensa. Mas, a culpa da violência não está no cotidiano; não, a culpa é, sim, da internet.
Um fato curioso da entrevista: a juíza se diz impressionada com a repercussão nacional do caso, que teria tido proporção maior do que a de outras mortes humanas trágicas. Quem está por trás de toda essa campanha é a burguesia. Toda essa sanha serve para aumentar o cerco à internet, o que se explica pelo fato de a juventude ser o setor da sociedade menos conservadora e o mais rápido a se mobilizar.
Cavalieri sustenta que ninguém acorda num belo dia e pensa: “Hoje vou torturar um cachorrinho indefeso e fofo”. Isso se deve, segundo sua opinião, ao fato de que o jovem viu fotos, vídeos e outras imagens de extrema violência, o que causou um fenômeno psíquico-neurológico chamado dessensibilização à violência. Se esse fosse o caso, então, seria necessário proibir filmes de terror, como “Sexta-Feira 13”, pois se corre o risco dos jovens saírem por aí com uma serra elétrica.
A juíza culpa também a masculinidade, definindo-a como viril, máscula, violenta, que se impõe pela força e que é intolerante. O cerne da questão é aqui é que são definições vagas. Qual a relação disso com a violência? E, pior, qual a relação disso com adolescentes? Praticamente todos os heróis têm essa definição que foi levantada.
Adiante, Vanessa Cavalieri acaba se revelando, diz que “A lei brasileira que trata dos maus-tratos a animais prevê penas muito brandas. O juiz não pode aplicar a justiça que acha justa, mas a que está na lei. Infelizmente, ainda não temos uma lei dura no Brasil e específica de combate à tortura de animais”. Como penas mais duras resolveriam? O país já tem 940 mil pessoas no sistema penitenciário em condições desumanas. Onde está a defesa da vida?
Ao final da entrevista, a juíza avança — agora, contra os pais — ao levantar a suposta ausência de limites e criticar a forma de educação dos filhos, que os pais seriam muito omissos. Segundo ela, é melhor que os pais deem limites com carinho e amor, antes que a vida os apresente. Também sugere que os pais sejam obrigados a assistir a palestras para aprenderem a criar seus filhos. O Estado está realmente muito preocupado com os adolescentes. Acredita se quiser.





