Dia Internacional da Mulher

Identitarismo transforma luta das mulheres em caso de polícia

O identitarismo veio para dividir, separa as mulheres em brancas e negras, bem como transforma a luta política em caso de polícia

Mulheres lutando pelo direito ao aborto

O identitarismo transformou a luta das mulheres em caso de polícia, como demonstra o artigo Nem uma a menos: nos queremos vivas e livres da violência, publicado no sítio Esquerda Online no último domingo (1º).

O artigo não é um caso isolado. Ele segue uma tendência no interior da esquerda pequeno-burguesa, que transforma um problema social objetivo em uma questão subjetiva, como o machismo.

A questão política do Dia Internacional da Mulher é apresentada apenas brevemente no início, quando se afirma que “o dia 8 de março tem origem na organização política das mulheres trabalhadoras, que lutavam por melhores condições de vida e trabalho. Esse significado foi esvaziado pela ação do neoliberalismo, mas nunca deixa de ser resgatado mundo afora pelas mobilizações feministas que tomam as ruas para denunciar desigualdades. O pano de fundo desta vez é um mundo de múltiplas crises sociais e políticas, marcado por uma literal luta de ‘vida ou morte’ contra a extrema direita”.

Esse significado, porém, não vem sendo esvaziado apenas pelo neoliberalismo. Há muito tempo a direita tenta transformar o 8 de Março em uma data de flores e chocolates para as mulheres. Hoje, dentro da esquerda, os principais inimigos dessa luta são o identitarismo e o moralismo.

A luta de vida ou morte também não se dá contra a extrema direita. Neste momento, em que o Irã sofre um ataque brutal, todas as “democracias” estão alinhadas aos Estados Unidos, apresentados durante décadas como o grande satã. Onde fica a luta antifascista nessas circunstâncias? Caiu a máscara: o grande problema são as democracias liberais, isto é, o próprio imperialismo. Essa esquerda passou anos perseguindo fantasmas.

Os autores escrevem que “no coração do império norte-americano, a expressão mais acabada dessa força: o governo Trump 2.0, que não por acaso figura em destaque na sintomática crise do Caso Epstein — que liga, além do próprio presidente Donald Trump, outros bilionários como Steve Bannon e Bill Gates, a um macabro esquema de violência sexual, pedofilia e tráfico internacional de pessoas”. No entanto, estão todos de mãos dadas. França, Reino Unido, Alemanha: todos compõem um mesmo bloco de interesses, o que mostra que não há contradição real entre as chamadas democracias e o fascismo.

Assédio e ‘misoginia’

O texto fala ainda, de maneira vaga, sobre a luta das mulheres por reivindicações, afirmando que elas estão “na linha de frente das mobilizações contra o ICE e o desmonte de direitos reprodutivos nos EUA, pela revogação da reforma trabalhista e das medidas restritivas em relação ao aborto legal na Argentina”.

Além de mencionar que “no México, um dos piores países da América Latina em índices de violência contra as mulheres, nem mesmo a presidente ficou de fora das estatísticas”, o artigo afirma que “o Brasil vive uma escalada de violências misóginas. O final do último ano, marcado por uma sequência de casos brutais de feminicídio, é um triste retrato desse cenário. Não se trata de casos isolados ou da ação individualizada de ‘monstros’ que agridem e matam parceiras, mas de um problema estrutural”.

A palavra “estrutural” aparece inúmeras vezes, embora em nenhum momento se esclareça qual seria essa estrutura.

Por fim, o artigo recorre aos números e afirma que “a edição de 2025 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou o recorde de 1.492 feminicídios (dos quais 63,6% foram de mulheres negras), 3.870 tentativas de feminicídio e 257.659 casos de violência doméstica envolvendo lesão corporal”. Há, porém, um trecho revelador, segundo o qual “a violência de gênero vai na contramão dos índices de violência geral: enquanto as mortes violentas intencionais tiveram uma redução de 5,4% em relação ao ano anterior, os feminicídios aumentaram em 0,7% e as tentativas de feminicídio tiveram um aumento de 19%” [grifo nosso].

Destacamos a expressão “mulheres negras” porque esta é uma marca do identitarismo: segmentar para enfraquecer a luta. Dentro do movimento das mulheres, que deveria se apresentar de forma unitária para ganhar força, impõe-se uma divisão perniciosa.

Como se vê, foi informado o número de mulheres assassinadas, mas não o total de homicídios que, mesmo com a redução, chegou a 34.086 casos em 2025, contra 38.374 em 2024. Desses 34 mil, 92% correspondem a homens, o que mostra que a violência é um problema geral.

Mais sangue

Ao estilo da imprensa sensacionalista, o Esquerda Online afirma que “todas essas mortes e violências, frequentemente acompanhadas de requintes de crueldade, como facadas, queimaduras, asfixia e enforcamento, revelam o caráter estrutural da violência, possibilitado por um pacto masculinista que fragiliza denúncias, desrespeita medidas de proteção e desumaniza mulheres, pessoas trans, negras e povos originários”.

Ninguém sabe exatamente quando foi firmado o tal “pacto masculinista”, mas, ao que parece, ele existe porque assim decretaram. Talvez seja “estrutural”. Quem sabe? E não para por aí. O texto sustenta ainda que “o aumento da cultura da violência e o crescimento do índice de feminicídios ano após ano está amplamente relacionado com o crescimento da extrema direita no Brasil e no mundo”.

Em 2016, ano do golpe, o Brasil registrou 62.517 assassinatos. Mas o golpe não foi dado pela extrema direita. Qual seria, então, a explicação? Cultura, pacto, estrutura?

Os identitários afirmam que “o combate à violência de gênero e ao aumento desproporcional dos casos de feminicídio no país passam, necessariamente, pelo enfrentamento à extrema direita e pela disputa ideológica na sociedade a partir de valores feministas antirracistas”. Mas quem vai enfrentar os fascistas se a esquerda pequeno-burguesa se uniu às democracias para combatê-los, e essas mesmas democracias agora estão unidas aos fascistas?

Censura

As democracias liberais promovem, em todo o mundo, uma onda de censura e repressão, prendendo pessoas por publicarem na internet mensagens de apoio à Palestina ou críticas ao sionismo. Em vez de condenar essas medidas, o que faz a esquerda identitária e pequeno-burguesa? Afirma que “como medida de caráter urgente, é necessário avançar sobre a regulamentação da internet e responsabilizar as plataformas pela veiculação de discursos de ódio”. E o que fazem as plataformas para evitar punições? Censuram os usuários. Em outras palavras, como se proíbe criticar o sionismo, as plataformas passarão a apagar preventivamente esses perfis. Quem se beneficia? Os fascistas, os genocidas e os assassinos de crianças.

A luta das mulheres por emancipação e por salários justos é substituída por propostas vagas, como “a promoção de medidas educativas com perspectiva de gênero e raça é essencial para que crianças sejam ensinadas a respeitar mulheres e toda a diversidade de gênero e sexualidade”.

A função do identitarismo é precisamente essa: enfraquecer a luta das mulheres e desviar o foco da questão central. A causa da violência contra as mulheres deixa de ser a opressão burguesa e passa a ser apresentada como um problema de machismo em abstrato. Desse modo, a luta de classes é transformada, de maneira sorrateira, em uma luta de homens contra mulheres.

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