Por que políticos como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato conseguem conquistar eleitores com declarações que setores da esquerda consideram inaceitáveis? A Associação Matria, em artigo publicado na quarta-feira (7), atribui parte desse resultado ao afastamento da esquerda das preocupações populares e à transformação de questões identitárias no centro de sua atividade política.
O artigo, intitulado O fundo do poço, sustenta que a direita conseguiu apropriar-se do que a entidade chama de “monopólio do senso comum”. Enquanto uma parcela da esquerda promove discussões sobre identidades de gênero e linguagem neutra, candidatos conservadores ganham projeção defendendo posições facilmente compreendidas por grande parte dos eleitores.
A entidade argumenta que as diferenças biológicas entre homens e mulheres não deixam de existir porque determinadas teorias procuram atribuir-lhes outro significado. Também critica a substituição de políticas materiais destinadas às mulheres por medidas simbólicas que exigem poucos investimentos.
A publicação menciona a construção de creches, a ampliação de serviços ginecológicos e as dificuldades econômicas enfrentadas pelas mulheres. São problemas cuja solução exige recursos públicos, contratação de trabalhadores e enfrentamento dos interesses econômicos responsáveis pela exploração.
O argumento permite identificar uma contradição da esquerda brasileira. Enquanto a população enfrenta baixos salários, desemprego, transporte caro e dificuldades para conseguir atendimento médico, organizações políticas dedicam enorme esforço a disputas sobre terminologia, comportamento e regras de utilização de espaços públicos.
A direita aproveita essa situação. Nikolas Ferreira consegue apresentar-se como defensor de pessoas perseguidas por suas opiniões, sobretudo quando adversários exigem sua cassação ou punições judiciais por declarações políticas. A discussão deixa de ser sobre os interesses da população e passa a girar em torno da censura.
O problema não está na defesa dos direitos individuais, que devem ser assegurados também às pessoas transexuais. Está na tentativa de substituir um programa de transformação social por campanhas moralistas que exigem concordância com determinada doutrina.
A política identitária ganha um caráter especialmente reacionário quando seus defensores passam a tratar trabalhadores que discordam de suas posições como inimigos. Depois das eleições, multiplicaram-se manifestações de setores do eleitorado petista que atribuem a derrota eleitoral à ignorância, à suposta inferioridade moral ou ao fascismo dos eleitores da direita.
É uma atitude característica de uma esquerda que se afastou da classe operária. Aceita sem grandes dificuldades uma aliança com Geraldo Alckmin, representante histórico da direita paulista, mas considera intolerável que um trabalhador pobre tenha votado em Flávio Bolsonaro.
A comparação revela o conteúdo social dessa política. Os dirigentes burgueses são aceitos quando fazem acordos com o PT; os trabalhadores são desprezados quando não acompanham suas escolhas eleitorais.
Uma organização que pretende conquistar a direção dos trabalhadores precisa convencê-los por meio de um programa político. Insultá-los porque votaram em outro candidato é abandonar a disputa e oferecer à direita uma oportunidade adicional de apresentar-se como representante do povo.




