O artigo Internet: uma floresta escura onde ninguém mais confia em ninguém, de Sara York, publicado no Brasil 247 nesta segunda-feira (2), mostra que os identitários são como aquele gato que dá o tapa e esconde a mão.
York inicia dizendo que “nunca estivemos tão conectados, nunca estivemos tão desconfiados! No grupo de WhatsApp da família, no ambiente de trabalho, nas redes sociais, no condomínio, na universidade, nas relações afetivas, uma regra silenciosa se impôs sobre todos nós: É melhor que não fale demais, não se exponha demais, não apareça demais. A prudência virou estratégia de sobrevivência e, com alguma cautela, inserimo-nos em um novo modo de vida”. – grifo nosso.
Esse clima de medo foi instaurado pelo próprio identitarismo que converteu tudo em crime, e não apenas isso, exigindo que esses “crimes” fossem punidos severamente. O ato de ofender alguém pode render 5 anos de prisão para uma pessoa. Um homicídio simples (Art. 121, caput, do Código Penal) equivale inicialmente a 6 anos de reclusão.
Também é obra dos identitários a política de “cancelamento”, “lacração”, alguém que diga algo considerado ofensivo pode perder emprego, amigos, e ficar estigmatizado por dizer algo, ou por fazer determinado gesto.
Os cancelamentos são tribunais autoritários, os acusados são condenados sem ter o direito à defesa. Além disso, os identitários formam um grupo de pressão que, muitas vezes, obrigam que determinados órgãos tomem medidas práticas mesmo ao arrepio da lei.
O professor Allyson Mascaro, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco – USP, foi acusado de assédio e estupro. Ou melhor, foi condenado. As acusações são infundadas, o professor foi afastado e posteriormente demitido, praticamente sem direito à defesa – isso e em uma faculdade de Direito. O clima identitário é tão agressivo e reacionário, que a maioria dos alunos, de Direito, acharam correta a punição medieval que recebeu o agora ex-professor.
Apesar disso, na opinião de York, “esse comportamento cotidiano encontra eco numa ideia da ficção científica contemporânea. Na trilogia O Problema dos Três Corpos [2008], do escritor chinês Liu Cixin, o universo é regido pela chamada Hipótese da Floresta Escura. Nela, civilizações avançadas permanecem em silêncio porque qualquer sinal pode resultar em destruição imediata. Falar é arriscar-se a morrer, e esconder-se é sobreviver. Traduções recentes podem aludir às políticas de ‘morte virtual’ a partir dos cancelamentos”.
Dificilmente civilizações assim podem ser chamadas de avançadas. Esse, aliás, é um problema que a esquerda não solucionou. Para a humanidade realmente se desenvolver terá que superar o capitalismo e as divisões de classe. Com o fim das classes e os sistemas repressivos que as classes dominantes impõem, a humanidade voltaria a poder falar.
Vigilância
Segundo a articulista, “essa lógica, cada vez mais, parece ter migrado do espaço sideral para a vida social. Hoje, a floresta escura tem Wi-Fi, câmeras de vigilância, algoritmos, bancos de dados e sistemas de reputação. Ela está no celular, nas plataformas digitais, nos cadastros, nos históricos, nos prints, nos rastros que deixamos sem perceber. Vivemos observados, avaliados, classificados — quase sempre sem saber por quem nem sob quais critérios”. Isso não é novo, o romance de Cixin, bem como o 1984, de George Orwell, não falam do futuro, mas do presente. Os sistemas de vigilância sempre existiram, apenas que agora estão mais equipados com avanços tecnológicos.
Os identitários não vão confessar, mas são favoráveis a essa vigilância ostensiva. Eles são favoráveis porque dizem que isso inibe “discurso de ódio”, pedofilia, etc. O Estado, que sempre desejou isso, se aproveita desse clima de medo e histeria instalados para implementar sem problemas medidas mais repressivas contra a população.
“Nesse ambiente, comunicar-se virou um risco calculado. As pessoas apagam tweets antigos, arquivam publicações, evitam posicionamentos, falam “em off”, recorrem à ironia ou ao silêncio. ”. Exatamente e também há “outro fenômeno revelador dessa vida na “floresta escura” digital é o uso crescente da substituição de letras por números, símbolos ou asteriscos em palavras sensíveis, como “p3dofilia”, “abvso s3xual” ou “pedo*ilia”. À primeira vista, trata-se de um simples artifício gráfico. Na prática, porém, é uma estratégia de sobrevivência comunicacional”. Sim, graças ao identitarismo e uma esquerda que não enxerga um palmo diante do nariz.
As pessoas fazem isso porque, segundo sustenta York, para evitar serem apagados “diante de algoritmos que monitoram, punem e silenciam conteúdos automaticamente, usuários aprenderam a “driblar” sistemas de vigilância por meio de uma gramática informal da camuflagem”.
Acontece que os algoritmos não surgiram do nada, eles precisam ser escritos, e quem os escreveu recebeu uma ordem direta. De onde vem essa ordem? Vem do Estado, que diz que vai aplicar multas absurdas se em alguma postagem aparecer algum termo ofensivo. E quem foi que exigiu que o Estado fizesse aquilo que sempre desejou, mas não tinha força para fazer? Os identitários e a esquerda bem-pensante.
A histeria identitária, que é uma ideologia liberal, chegou ao ponto de se combater a liberdade de expressão. Pior, dizer que essa reivindicação é coisa de fascista.
Armadilha
A esquerda caiu na ratoeira identitária e nem percebeu. York diz que “essa escrita cifrada revela como a linguagem também foi colonizada pelo medo”; e que, segundo acredita, “esse fenômeno expõe uma contradição: enquanto se exige que problemas graves sejam denunciados e debatidos, os próprios sistemas digitais dificultam essa nomeação direta”. – grifo nosso.
Exatamente, denúncia, é isso que os identitários exigem. E quais são os problemas graves que podem render 5 anos de cadeia? Injuriar, xingar, mentir. O melhor é se autocensurar e tomar cuidado porque nessa floresta escura e cheia de medo que criaram, “a comunicação se fragmenta em sinais aparentemente inocentes, mas carregados de intenção predatória, explorando justamente a informalidade e a ambiguidade da linguagem digital”.
O texto de Sara York se perde em considerações. Após instalado o inferno, pinta um mundo paradisíaco de esperança, no qual se vai “reconstruir a confiança como valor público”, “transformar essa tecnologia em ferramenta de proteção coletiva”; e, claro “isso exige reaprender a falar sem medo, a discordar sem intenção de destruir e a existir sem pedir licença”. A igrejinha identitária aprendeu bem a lição, inventa o pecado e logo apresenta a redenção.





