O artigo O movimento Red Pill precisa ser criminalizado com urgência, de Ricardo Nêggo Tom, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (10), espanta pela baixa qualidade na argumentação. Porém, não apenas isso; o autor, que pretende combater o machismo com seu texto, se revela ele mesmo machista, a começa pelo olho do artigo que diz expressamente o seguinte: “agressores de mulheres precisam resgatar a sua masculinidade na cadeia”.
Para quem não sabe, é comum que se diga que um homem preso vai “virar mulher” na cadeia. Ou seja, será abusado por outros presos. E é isso que Nêggo Tom está propondo, que os agressores sejam “humilhados”. Qual seria a humilhação? Ser feito de mulher. Ser mulher, portanto, é algo inferior.
Propor a cadeia como instituição pedagógica, como reformadora do indivíduo, é algo em si degradante. Especialmente ao ter implícitos na proposta a tortura e o estupro, pois é dito que se trata: os agressores de mulheres vão receber uma “lição” na cadeia.
Nêggo Tom incia seu texto falando de um certo Andrew Tate, “um empresário e ex-lutador de kickboxer que ficou conhecido na internet como o rei da masculinidade tóxica”. Este homem seria “ícone da cultura Red Pill, seus “ensinamentos” defendem que a mulher pertence ao homem como uma propriedade, e sua existência deve se restringir a manutenção do lar e a satisfação pessoal e sexual do marido”. Além disso, “Tate influencia jovens de todo mundo através das redes sociais, sendo reconhecido como um grande macho alfa na guerra cultural de gênero”.
Essa introdução é feita para justificar que “é de autoria de Tate, a frase estampada na camisa de um dos jovens acusados de participação no estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro. A frase ‘Regret nothing’, que significa ‘Não se arrependa de nada’, evidencia o potencial criminoso do movimento Red Pill em sua dinâmica discursiva, quando um homem preso sob acusação de organizar um estupro coletivo dentro de seu apartamento, comparece à delegacia e se permite filmar pelas câmeras de televisão trajando uma blusa com o lema de tal movimento”. – grifo nosso.
O identitarismo “feminista” faz isso, transforma todo homem em um potencial estuprador, fica abolida, portanto, a presunção de inocência. Não se pode punir algo que “pode vir a acontecer”.
“Vitor Hugo Oliveira Simonin, o jovem suspeito de estupro em questão”, segundo Nêggo Tom, “quis esfregar na cara da sociedade, sobretudo, das mulheres, a masculinidade tóxica e criminosa absorvida na ideologia Red Pill”. Como ele pode garantir isso? Pode ser que fosse a única camiseta limpa na gaveta. O articulista tira conclusões da própria cabeça.
Existe estupro coletivo desde que o mundo é mundo, antes mesmo de haver um Andrew Tate que, aliás, não tem absolutamente nada a ver com esse crime, não pode ser responsabilizado. A menos, é claro, que se atire no lixo qualquer noção de Direito. O crime não pode transcender a pessoa do criminoso, ninguém pode pagar pelo crime de outrem.
Nêggo Tom, sem noção do que fala, pula de um absurdo a outro. Alega, por exemplo, “a ideia de que homem que é homem não se arrepende do que faz, mesmo que ele tenha cometido um crime, é o puro suco da deturpação de caráter sob a égide da ‘macheza’ e da honra. Algo que precisa ser criminalizado diante do aumento alarmante dos casos de feminicídio no país”. O articulista que criminalizar uma “ideia”, estamos voltando para a Idade Média, para os tempos da Santa Inquisição.
Atirando a esmo
No afã de se vender como grande protetor das mulheres, o articulista começa a atirar para todos os lados. Reclama, por exemplo, do “silêncio ensurdecedor da igreja e de seus líderes diante dessa tragédia misógina que nos assola. E quem não se sente assolado por toda essa violência contra as mulheres, é cúmplice dela. Ou, talvez, seja um feminicida em potencial”. Chega a ser inacreditável que alguém escreva isso.
Mais adiante, lê-se que “os cristãos red pills estão proliferando nas redes sociais defendendo o resgate da masculinidade com base na palavra de Deus”. Nêggo Tom faz uma salada terrível de elucubrações a respeito de José, Maria, Jesus e até Maria Madalena. Fica confuso e se pergunta: “Será que eles [os red pills] realmente entendem a história de vida de Jesus Cristo? Será que eles realmente entendem suas próprias vidas? Será que são homens mesmo?”. E ainda: “Jesus Cristo também não deveria ser considerado um macho beta por esta organização criminosa disfarçada de ideologia masculina?”.
Não faltaram críticas ao funk, sobrou para “um tal de MC Diguinho”. E que “defender esse tipo de ‘música’ como cultura da favela, é criminalizar as periferias e desmoralizar a história de grandes músicos e compositores oriundos de comunidades”. Nêggo Tom, além de agente da censura, é também quem determina o que é música.
O identitarismo é uma ideologia de direita, prega repressão e cadeia como solução para os problemas sociais. Trata-se de uma política reacionária que precisa ser desmascarada e combatida pela esquerda.




