Coluna

Humanismo consequente exige socialismo

Não há como atingir o ideal humanista no sistema capitalista

Ao longo da história, diversas correntes autodenominadas humanistas surgiram reivindicando maior dignidade, liberdade e realização para os seres humanos. Em suas diferentes formulações, todas expressam uma preocupação legítima com o florescimento humano. Contudo, quando desvinculado de uma crítica às condições materiais que impedem esse florescimento, o humanismo corre o risco de transformar-se em uma mera declaração de princípios, incapaz de oferecer um caminho concreto para a emancipação humana. É precisamente esse limite que podemos observar em uma das mais influentes correntes humanistas surgidas no campo da psicologia.

Entre as várias expressões do humanismo, vale destacar a Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers. Seu caso é particularmente interessante porque reúne, de maneira exemplar, as potencialidades e as insuficiências de um humanismo que permanece nos limites da sociedade capitalista. Ao mesmo tempo em que identifica aspectos fundamentais da experiência humana, sua teoria encontra dificuldades para explicar por que essas necessidades são sistematicamente frustradas na vida social concreta.

Rogers foi um psicólogo norte-americano que formulou uma das abordagens terapêuticas mais influentes do século XX. Entre suas principais ideias estavam a noção de que os seres humanos possuem uma tendência inerente ao crescimento, ao desenvolvimento e à realização de suas potencialidades; a compreensão de que viver em função das expectativas alheias frequentemente produz sofrimento; e a defesa de que a aceitação de si mesmo possui um importante potencial terapêutico. Essas proposições partem de uma confiança profunda nas capacidades humanas e, por isso mesmo, fornecem um bom ponto de partida para refletirmos sobre os obstáculos que impedem sua realização.

Se tomarmos a sério a ideia de que os seres humanos tendem ao desenvolvimento de suas capacidades, torna-se necessário perguntar sob quais condições sociais esse desenvolvimento ocorre. É justamente nesse ponto que emerge a contradição fundamental. Em uma sociedade estruturada pela competição e pela acumulação privada, como ocorre no capitalismo, a realização das potencialidades humanas encontra limites permanentes. Aquilo que aparece como uma tendência natural ao crescimento esbarra constantemente nas exigências da sobrevivência econômica.

Essa contradição pode ser observada de forma particularmente clara no campo da arte. Artistas raramente podem dedicar-se livremente à criação, pois precisam submeter seu trabalho às exigências do mercado para garantir sua sobrevivência. A criatividade passa a ser condicionada pela necessidade de gerar renda. No entanto, o problema não se restringe ao universo artístico. A situação dos artistas apenas revela de maneira mais explícita uma condição compartilhada por milhões de trabalhadores que exercem atividades que não escolheriam livremente, permanecendo nelas porque dependem do salário para viver.

A mesma lógica aparece em outro aspecto destacado por Rogers: o sofrimento produzido pela necessidade de corresponder às expectativas alheias. Sua observação é correta, mas permanece incompleta enquanto não se investigam as razões sociais dessa submissão. No capitalismo, adequar-se às expectativas dos outros frequentemente não é apenas uma fonte de sofrimento psicológico, mas uma exigência. No ambiente de trabalho, por exemplo, deixar de corresponder às expectativas dos empregadores pode significar desemprego, humilhação e dificuldades para satisfazer necessidades básicas. Essa pressão não se limita, porém, ao local de trabalho, pois ela atravessa o conjunto da vida social. Diversos setores econômicos lucram precisamente produzindo insatisfação permanente e estimulando a conformidade com padrões socialmente valorizados. A indústria da moda, dos cosméticos e da estética mobiliza enormes recursos para difundir imagens idealizadas de beleza e sucesso, pressionando as pessoas a moldarem seus corpos e comportamentos de acordo com as exigências do mercado. A promessa de aceitação converte-se, assim, em mais uma mercadoria a ser consumida.

Quando observamos esse processo de forma mais ampla, torna-se evidente que até mesmo a aceitação de si, tão valorizada por Rogers, encontra obstáculos profundos em uma sociedade na qual as condições mínimas de existência não são garantidas. Quando alimentação, moradia, saúde e educação dependem da inserção competitiva no mercado, adaptar-se às exigências do contexto deixa de ser uma escolha e transforma-se em um imperativo. Em tais circunstâncias, a autenticidade deixa de ser apenas uma questão subjetiva e passa a depender das condições objetivas de vida.

Por essa razão, os problemas identificados pela psicologia humanista não podem ser compreendidos apenas como dificuldades individuais. Como o trabalho ocupa uma posição central na organização da sociedade, as formas de comportamento exigidas nos locais de trabalho acabam sendo internalizadas e reproduzidas em outras esferas da existência. A disciplina, a competição, a vigilância e a necessidade permanente de adequação tornam-se características generalizadas da vida cotidiana. Nessas condições, o desenvolvimento pleno da pessoa, tal como concebido por Rogers, encontra limites que não são apenas psicológicos, mas estruturais.

Entretanto, o principal limite da psicologia humanista não deve ser compreendido como uma falha individual de Carl Rogers. Trata-se, antes, de uma expressão das contradições históricas de seu próprio contexto. A grande virtude dessa corrente foi identificar necessidades humanas reais — a busca por autonomia, autenticidade, criatividade e desenvolvimento pessoal. Seu problema foi permanecer predominantemente no plano da experiência individual, sem investigar de maneira suficientemente profunda as condições sociais que impedem a realização dessas necessidades. Em outras palavras, a psicologia humanista foi capaz de descrever aquilo de que os seres humanos necessitam para florescer, mas não de explicar por que essas necessidades são sistematicamente frustradas em sociedades organizadas segundo a lógica da exploração e da competição.

É justamente dessa limitação que decorre a necessidade de uma perspectiva socialista. Se o objetivo é criar condições para que os indivíduos desenvolvam suas capacidades, expressem sua criatividade e construam relações mais livres, não basta intervir sobre a experiência individual; é preciso transformar as bases materiais da própria sociedade. A emancipação humana exige mais do que mudanças na consciência: exige mudanças nas condições concretas de existência.

Uma limitação importante do humanismo rogeriano foi justamente não ter extraído essa conclusão. Sua obra desenvolveu-se no contexto posterior à Segunda Guerra Mundial, quando já existiam experiências socialistas que haviam demonstrado capacidades extraordinárias de industrialização acelerada, ampliação do acesso à educação e combate ao analfabetismo, bem como aumento da expectativa de vida. Ainda assim, essas experiências permaneceram praticamente ausentes de sua reflexão teórica.

As razões dessa ausência podem ser debatidas. Contudo, é difícil ignorar que a defesa aberta do socialismo nos Estados Unidos da Guerra Fria implicava custos políticos e profissionais consideráveis – o que provavelmente impediria a fama de Rogers. Há uma ironia nisso: o próprio autor que defendia a realização das potencialidades humanas desenvolveu sua obra em um contexto que limitava severamente o debate sobre alternativas ao capitalismo. Em certo sentido, o próprio Rogers tornou-se vítima das condições históricas que sua teoria deixou de analisar.

Em última instância, quem pretende defender seriamente o florescimento humano precisa defender também uma organização econômica capaz de torná-lo possível. Isso implica superar a propriedade privada dos grandes meios de produção, planejar racionalmente a utilização dos recursos sociais, garantir emprego, eliminar a precarização do trabalho e assegurar condições dignas de existência para todos. Sem alimentação, moradia, saúde, educação e segurança material garantidas, o humanismo permanece uma promessa abstrata. Com elas, pode tornar-se um projeto concreto de emancipação humana.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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