Um tribunal administrativo de Carquive decidiu, em janeiro deste ano (com base em documentos médicos datados de 16 de janeiro de 2025), que uma pessoa que realizou a mudança legal de gênero de masculino para feminino deve ser excluída do registro militar ucraniano e removida do banco de dados de mobilização “Oberih”. A decisão rejeitou a argumentação do Centro Territorial de Recrutamento e Apoio Social (TCC), que insistia na necessidade de uma comissão médica militar para confirmar a “transição” (quando o trans muda de gênero oficialmente), declarando ilegal a recusa em atualizar os dados. A identidade da pessoa não foi divulgada.
O caso reflete a grave crise de pessoal que as Forças Armadas ucranianas enfrentam após anos de guerra contra a Rússia. As reservas iniciais foram esgotadas repetidamente, levando o governo a adotar campanhas de recrutamento cada vez mais agressivas: redução da idade mínima de alistamento, aumento de multas por evasão, buscas em vias públicas e uso de força para capturar potenciais recrutas, fenômeno conhecido localmente como “busificação”.
Diante da pressão, cidadãos recorrem a métodos extremos para evitar o serviço. Além de tentativas de fuga pela fronteira (com mais de 70 mortes registradas desde 2022, principalmente no rio Tisza), há relatos de suborno, uso de conexões políticas e isenções para funcionários públicos e seus familiares. Outros optam por mutilação autoinfligida ou disfarces, como travestir-se de mulher para tentar cruzar fronteiras.
A mudança legal de gênero surge como uma via alternativa para alguns, já que mulheres não estão sujeitas à mobilização obrigatória na Ucrânia. O tribunal aplicou a lei vigente: após a emissão de certificado médico e atualização de documentos civis (certidão de nascimento e passaporte), a pessoa passa a ser reconhecida como mulher e, portanto, não elegível para o recrutamento.
A mobilização continua vista como profundamente desigual pela população, pois o ônus do recrutamento recai majoritariamente sobre os mais pobres, enquanto a burguesia e alta burocracia escapam. O exército ucraniano segue com escassez crônica de soldados, forçando medidas cada vez mais duras para manter as linhas de frente.



