No programa Análise Internacional desta quinta-feira (12), transmitido pelo Diário Causa Operária no YouTube, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou que a entrada do Hesbolá no confronto abriu uma nova etapa da crise regional e desmentiu a campanha de intriga feita pela imprensa sobre uma suposta hesitação da organização libanesa em participar da luta.
Ao comentar a situação, Pimenta declarou que a ideia de que o Hesbolá estaria relutante em agir não correspondia aos acontecimentos. Segundo ele, a organização havia apenas realizado um recuo tático, reorganizando-se para voltar à ofensiva no momento mais favorável.
“Eu acho que a questão da relutância do Hesbolá é pura intriga da imprensa. Há muita intriga nessa cobertura da guerra. O Hesbolá mostrou que se recuperou totalmente das perdas infligidas, que organizou um recuo tático e aproveitou a primeira oportunidade para contra-atacar. Então, essa ofensiva do Hesbolá desmente totalmente a perfídia da imprensa”, disse.
Na avaliação de Pimenta, a nova ofensiva também evidencia uma alteração mais profunda na posição de “Israel” dentro da crise. Segundo ele, a intervenção direta dos Estados Unidos mostrou que o país deixou de ser o principal instrumento militar do imperialismo na região e passou a depender abertamente do socorro norte-americano.
“Ficou claro com a ação norte-americana que ‘Israel’ já é um ator relativamente secundário. Nessa crise ele já não é o protagonista. Se a gente observar a história do enclave imperialista que nós chamamos ‘Israel’, vamos ver que, num primeiro momento, ele entra em guerra e consegue disciplinar todos os vizinhos. Quer dizer, ele é a principal potência militar da região. O que nós estamos vendo agora é que, ao invés de ‘Israel’ ser o instrumento principal do imperialismo, o imperialismo precisa entrar em campo para socorrer ‘Israel’”, afirmou.
Ainda sobre esse ponto, ele declarou que essa mudança representa uma “virada histórica” e sustentou que, caso os Estados Unidos não consigam se impor sobre o Irã, a situação regional tende a sair ainda mais do controle. Pimenta também relacionou esse quadro à fragilidade política dos países árabes da região, em especial as monarquias do Golfo, que, segundo ele, são Estados artificialmente constituídos e marcados por forte instabilidade.
“‘Israel’ está numa situação dramática. Vai depender muito da proteção do imperialismo. O imperialismo agora precisa proteger ‘Israel’. ‘Israel’ protegia os interesses imperialistas na região. Agora é o imperialismo que tem que proteger ‘Israel’”, resumiu.
Durante o programa, Pimenta também comentou os efeitos mais amplos do confronto sobre a situação internacional. Ao ser questionado sobre a guerra na Ucrânia, afirmou que um fracasso do imperialismo no caso iraniano tende a enfraquecer toda a ofensiva internacional conduzida pelos países imperialistas, fortalecendo, em contrapartida, Rússia, China e os demais países em choque com essa política.
“O enfraquecimento do imperialismo vai levar a um colapso da situação ucraniana. Eu não tenho dúvida nenhuma disso. É muito difícil eles manterem a situação. Todo grande evento na situação política mundial provoca uma onda de repercussões em vários setores. Se a situação se mantiver como está se mantendo até agora, o que vai acontecer é que provavelmente a contraofensiva imperialista mundial, cujo ápice é justamente a guerra contra o Irã, vai ficar enfraquecida. O imperialismo vai ter que recuar e se reorganizar”, declarou.
Segundo ele, esse desenvolvimento teria impacto direto sobre o governo de Vladimir Zelensqui. Pimenta afirmou que, se a situação iraniana permanecer nos termos atuais, o dirigente ucraniano estaria entre os principais prejudicados pelo novo quadro internacional.
“O Zelensqui tem que rezar para que a situação iraniana não se estabilize no ponto em que está, porque ele vai ser um dos grandes perdedores”, disse.
Outro tema tratado no programa foi a situação do Brasil diante da crise internacional e a política dos Estados Unidos para a América Latina. Pimenta afirmou que existe a possibilidade do imperialismo tentar impor no País, em 2026, um governo abertamente alinhado a Washington e, caso isso não seja possível, aumentar a hostilidade contra o Brasil, inclusive no terreno militar.
“Eu penso que o plano é o seguinte: se emplacar agora um governo neoliberal pró-Estados Unidos, um pró-cônsul norte-americano aqui em 2026, o plano é esse. Se não der, vamos para o plano B, que é hostilizar o Brasil até em termos militares. Eu acho que isso é uma possibilidade real. Eu venho falando isso há muitos anos”, afirmou.
Ao tratar das Forças Armadas latino-americanas, Pimenta declarou que elas cumprem, fundamentalmente, uma função de polícia interna, moldada pelo próprio imperialismo. Na sua avaliação, a região não foi organizada para possuir exércitos nacionais voltados a uma política independente de defesa externa.
“Essa função de polícia é a função que foi estabelecida pelo próprio imperialismo para os países latino-americanos. As Forças Armadas aqui exercem um mínimo papel de segurança das fronteiras etc., mas, sobretudo, são uma força policial aumentada, turbinada em relação à força policial tradicional. É uma guarda pretoriana contra o próprio povo”, disse.
Para ele, o problema brasileiro não é apenas militar, mas político. Pimenta afirmou que o regime nacional permanece submetido ao imperialismo e que o País, mesmo sob um governo de esquerda, não atua de forma independente no terreno internacional.
“O regime político brasileiro é totalmente controlado pelo imperialismo. Não podemos ter a menor ilusão quanto a isso. Nós somos vassalos do imperialismo, em particular do imperialismo norte-americano”, declarou.
Questionado sobre as possíveis oportunidades que o conflito poderia abrir para o Brasil, Pimenta afirmou que o País não está em condições de aproveitá-las, justamente por sua posição subordinada e por sua orientação econômica centrada na exportação de matérias-primas.
“O enfraquecimento do imperialismo lá vai, em alguma medida, enfraquecer o imperialismo dentro do Brasil. E aí? A situação do Brasil é tão negativa que, na verdade, qualquer tipo de oportunidade que apareça internacionalmente vai ser desperdiçada. O Brasil é um país que está resignado, no momento, a vender matéria-prima”, afirmou.
O programa também abordou a posição do Japão. Ao responder a uma pergunta do público, Pimenta classificou o país asiático como uma potência imperialista clássica, destacando seu desenvolvimento monopolista e sua tentativa histórica de colonizar partes da Ásia.
“O Japão é um dos países mais desenvolvidos do mundo. Passou rapidamente para o domínio dos monopólios. Todo mundo conhece os monopólios japoneses, como Sony e Mitsubishi. Na Primeira e na Segunda Guerra Mundial, procurou colonizar toda aquela região da Ásia. É um país imperialista típico”, declarou.
Em outro momento, ao comentar a postura da esquerda diante da guerra contra o Irã, Pimenta afirmou que as organizações de esquerda se mostram sem rumo diante do agravamento da crise internacional e sem definição clara sobre qual lado apoiar.
“A esquerda está sendo anulada pela evolução da crise internacional porque não tem parâmetro, não tem coordenadas para enfrentar essa crise. Eles não sabem de que lado se colocar. Na melhor das hipóteses, têm uma posição do tipo: ‘a guerra é ruim, os Estados Unidos estão agredindo o Irã, mas o regime político do Irã também não é bom’. Então é uma falta de perspectiva estratégica total e completa”, disse.
Também foram tratadas, no programa, as condições apresentadas pelo Irã para um possível encerramento das hostilidades. Segundo Pimenta, as exigências iranianas são severas, mas plenamente aceitáveis do ponto de vista do país atacado. Ele citou a exigência de garantias contra novos ataques, indenização pelos custos da guerra e reconhecimento dos direitos legítimos do Irã.
“As três condições do Irã são duras, mas todas elas são aceitáveis. Eles pedem garantia de que não vai haver novos ataques. Pedem indenização pelos custos da guerra porque foram atacados e têm o direito de exigir isso. E pedem também o reconhecimento dos direitos legítimos do Irã”, afirmou.
Ao comentar a situação da resistência palestina e o papel da direção iraniana, Pimenta disse que a resistência está em processo de reorganização, aproveitando a atual trégua precária, e comparou esse movimento ao processo vivido pelo Hesbolá antes da nova ofensiva. Sobre Ali Khamenei, afirmou que ele não atua apenas como dirigente religioso, mas como chefe de Estado com poder de veto e de orientação geral sobre os rumos da Revolução Islâmica.
“O Khamenei não é apenas um líder religioso, ele é um líder político também, mas não é o governo do Irã. Ele é chefe de Estado, não de governo. O poder dele é mais um poder de vetar determinado tipo de ação e de referendar as diretrizes gerais. Ele fala em nome de uma instituição que tem um peso popular muito grande”, explicou.
No encerramento de uma das análises sobre a situação militar da região, Pimenta afirmou que os acontecimentos recentes atingiram diretamente a posição estratégica de “Israel” no Oriente Médio e marcaram o fim de uma etapa anterior da correlação de forças.
“Não é o fim, mas que foi um golpe duro, foi. É o fim da era em que o país mais bem armado e mais perigoso do Oriente Médio era ‘Israel’. Isso acabou”, declarou.





