Uma matéria publicada no dia 23 de janeiro pela Folha de S.Paulo, intitulada Livro de Haddad interpreta sentido de revoluções do século 20 e discute fase atual do capitalismo, trata do livro Capitalismo Superindustrial, de autoria do atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT). O texto apresenta o ministro como um intelectual que estaria buscando compreender o capitalismo contemporâneo a partir das transformações tecnológicas e sociais em curso.
No entanto, sua tentativa de “atualização” do marxismo revela o oportunismo de Haddad, que nega o papel da revolução socialista, relativiza a luta de classes com o objetivo de justificar, do ponto de vista teórico, a política de ajuste fiscal e submissão ao mercado financeiro que ele próprio comanda no atual governo Lula.
O livro apresenta uma tese central segundo a qual as revoluções do século XX, como a russa e a chinesa, não teriam sido socialistas, mas formas de “acumulação primitiva” para superar o atraso econômico frente ao “Ocidente”. Ao reinterpretar esses processos históricos como estratégias de “catch-up” capitalista, Haddad esvazia o caráter revolucionário dessas lutas e abandona a perspectiva da ditadura do proletariado como transição ao socialismo.
A ideia de que tais revoluções seriam apenas meios para o desenvolvimento nacional — e não tentativas de romper com o sistema capitalista global — serve, na prática, como justificativa para descartar a revolução como horizonte político real. Isso coincide perfeitamente com a política que o próprio autor aplica no governo: uma tentativa de “corrigir” o capitalismo que, no final das contas, é apenas uma tentativa de manter o capitalismo.
Outra parte importante do livro defende que o avanço da tecnologia teria fragmentado a classe trabalhadora em três novas “classes”: proletariado, precariado e cognitariado. Essa divisão, porém, ignora que, no marxismo, o critério fundamental para a definição de classe é a posição frente aos meios de produção. Os trabalhadores de “alta tecnologia”, ainda que exerçam funções intelectuais ou criativas, continuam vendendo sua força de trabalho.
Ao introduzir essas supostas novas classes, Haddad mina a possibilidade de unidade política da classe trabalhadora e reforça uma visão dispersa da sociedade, em que a luta de classes deixa de ser o motor da história.
A política econômica conduzida por Haddad segue os mesmos fundamentos do governo de Fernando Henrique Cardoso: austeridade fiscal, submissão ao teto de gastos (mesmo rebatizado), cortes sociais e defesa da ditadura do Banco Central.
A “superindústria” e a “renda do saber” descritas em sua obra mais recente servem para explicar a desigualdade global sem recorrer à teoria do imperialismo. A dominação dos países ricos sobre os pobres aparece como um “desequilíbrio tecnológico”, e não como uma ditadura dos monopólios. Essa ideia reforça a ilusão de que é possível ao Brasil se desenvolver dentro da atual ordem mundial, bastando investir em inovação e educação.
A promoção de sua obra pela grande imprensa, como faz agora a Folha de S.Paulo, não é gratuita. A obra de Haddad, portanto, cumpre uma função ideológica precisa: dar lastro teórico à política de submissão ao imperialismo.





