No programa Análise Internacional exibido no YouTube do Diário Causa Operária (DCO), nesta quinta-feira (29), o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, avaliou a possibilidade de uma guerra contra o Irã, relacionando o cenário militar no Golfo Pérsico à instabilidade financeira internacional e à alta do ouro. Para Pimenta, o avanço do metal precioso “é um sintoma” de que “a situação dos mercados” se tornou “arriscada”, num quadro em que cresce a incerteza sobre a dominação do dólar.
Ouro, dólar e ataque ao câmbio iraniano
Questionado por João Pimenta sobre a alta do ouro, Rui Costa Pimenta atribuiu o movimento ao agravamento da insegurança nos mercados. “O fator fundamental é a instabilidade dos mercados financeiros. Em primeiro lugar, o mercado cambial”, afirmou, apontando “uma situação de incerteza” em torno da hegemonia do dólar, somada ao peso da “gigantesca dívida pública norte-americana”.
Pimenta destacou que a volatilidade cambial atinge também o ambiente de especulação, “quase todo feito em dólar”, e disse que investidores buscam proteção no ouro. Além disso, citou iniciativas de países em conflito com o imperialismo para reduzir dependência da moeda norte-americana. “Há vários países que estão procurando também uma independência em relação ao dólar”, declarou, mencionando Rússia e China e a preocupação com moedas vulneráveis a pressões externas.
Ao abordar o caso do Irã, Pimenta relacionou a queda no valor do rial iraniano a uma ofensiva deliberada: “foi uma crise de desvalorização da moeda. Eu acredito que foi um ataque político, não foi uma desvalorização cambial ocasional”.
Frota no Golfo e risco de choque no petróleo
Na sequência, João Pimenta tratou do envio de uma força naval norte-americana para a região do Irã, mencionando bases e tropas em países do Golfo e a recusa de Arábia Saudita e Emirados Árabes de se envolverem na operação, inclusive com restrição do uso de espaço aéreo. Rui Costa Pimenta disse que a movimentação amplia a sensação de imprevisibilidade: “ninguém sabe o que vai acontecer. Nós temos aí a possibilidade de uma guerra e essa guerra não seria uma guerra simples”.
Para ele, o Irã não pode ser comparado a guerras recentes conduzidas pelo imperialismo: “o Irã não é o Iraque do Sadam Hussein, não é o Afeganistão também. O Irã é uma potência regional com grande capacidade de retaliação”. Pimenta destacou o peso estratégico do Golfo Pérsico no abastecimento mundial de energia: “o Golfo Pérsico é a via de escoamento de mais cerca de 30% do petróleo mundial”. Em caso de conflito, avaliou, haveria um choque de oferta de proporções inéditas: “você imagina a supressão de 30% do petróleo mundial, o petróleo iria a níveis de preço aí nunca nem imaginados”.
Trump, retórica e pressão por mais agressão
Ao ser perguntado sobre a escalada de agressividade do governo Donald Trump, João Pimenta citou episódios como o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e o aumento da tensão com o Irã. Rui Costa Pimenta respondeu dizendo que a análise deveria se basear em “fatos objetivos” e minimizou a tese de que Trump já tenha superado, na prática, o padrão imperialista dos governos anteriores. “Até o momento, Trump só [foi] mais agressivo do ponto de vista da retórica”, afirmou.
Pimenta mencionou que, na Ucrânia, Trump “não impulsionou a crise”; em Gaza, “arbitrou um cessar-fogo”, ainda que “precário”; no Iêmen e no Irã, teria recuado após bombardeios. Ele acrescentou que haveria pressão interna pela escalada: “há uma pressão de setores dentro do próprio governo Trump para que ele seja mais agressivo e ele evita”.
Ucrânia, Europa em armas e a política de guerra do imperialismo
Sobre a guerra na Ucrânia, Pimenta disse que o impasse expõe limites do governo Trump diante da pressão do imperialismo para manter o conflito. “Trump afirmou que acabaria com essa guerra em 24 horas e não conseguiu porque há uma pressão do imperialismo no sentido de dar continuidade à guerra”, avaliou. O resultado seria uma situação suspensa: “nem guerra, nem paz”.
Em comentário sobre declarações envolvendo Alemanha e Suíça, João Pimenta citou dificuldade alemã para fornecer munição antiaérea e uma proposta suíça de elevar impostos para reorganizar o Exército. Rui Costa Pimenta interpretou os sinais como preparação para confrontos maiores: “isso aí mostra bem o clima de guerra que existe na Europa os europeus estão se preparando para uma guerra contra a Rússia, sem dúvida nenhuma”. Ele acrescentou que “o Japão também se prepara para uma guerra contra a China” e resumiu: “é a política geral do imperialismo, é a política de guerra”.
Venezuela: petróleo, bloqueio e o sequestro de Maduro
A edição também voltou ao tema da Venezuela. João Pimenta mencionou declaração de Marco Rubio sobre uma compra de petróleo venezuelano, com US$500 milhões envolvidos, dos quais US$300 milhões teriam sido enviados ao governo venezuelano e US$200 milhões estariam congelados nos Estados Unidos. Rui Costa Pimenta afirmou que a operação favorece Caracas por abrir uma brecha no bloqueio: “é obviamente que a situação beneficia a Venezuela. Primeiro porque os Estados Unidos foi obrigado a abrir uma brecha nesse bloqueio e comprar petróleo”.
Pimenta rejeitou a acusação, citada no programa, de que a venda seria “capitulação”. “Foi apresentado como sendo uma capitulação o que é bobagem”, disse. Ele lembrou que, mesmo sob bloqueio, há contradições na política norte-americana, como a atuação da Chevron na Venezuela, e sustentou que a receita fortalece o regime venezuelano: “o recebimento de US$500 milhões reforça o regime político venezuelano”.
Para Pimenta, a tentativa de mudança de regime falhou: “a maior parte da imprensa imperialista denunciou o fato de que o sequestro do Maduro não levou a uma mudança de regime, que é o que eles queriam”. E ironizou análises sobre submissão: “eu vi que alguns falavam que a Venezuela tinha se transformado numa colônia do Trump. Bobagem. Tem nada disso”.
Cuba sem petróleo e a luta contra o bloqueio
Ainda na América Latina, João Pimenta descreveu a situação cubana como “extremamente delicada”, citando pressão dos Estados Unidos sobre o México para interromper envio de petróleo e a queda no fornecimento. Rui Costa Pimenta disse não ver saída fácil: “não sei o que o governo cubano vai fazer para enfrentar essa situação, que é uma situação muito, muito difícil”.
Provocado sobre uma ação do governo brasileiro, Pimenta respondeu que a Petrobrás deveria fornecer petróleo para Cuba, mas descartou expectativa de que isso ocorra: “deveria, mas esperar que o governo brasileiro faça uma coisa dessa [é] muito difícil para não dizer que não vai acontecer de jeito nenhum”.
Questionado sobre por que Cuba não recua, Rui Costa Pimenta foi direto: “não tem condição”. E, ao avaliar riscos para a revolução, respondeu: “eu acho que sim”, relacionando a ameaça ao quadro mundial e à ofensiva imperialista contra Rússia, China, Irã e Venezuela. Para ele, a tarefa política prioritária dos que defendem Cuba é enfrentar o bloqueio: “a tarefa central é a luta contra o bloqueio uma política genocida, uma política criminosa”. Pimenta ainda criticou setores da esquerda que ignoram o bloqueio em suas análises, dizendo que isso os aproxima da propaganda imperialista: “ignorar isso coloca na realidade essa esquerda como propagandista do imperialismo, porque a imprensa imperialista fala crise econômica, crise social, mas não explica que tem como principal fator o bloqueio econômico”.
Extremo Oriente e uma guerra maior
Em pergunta enviada ao programa sobre a possibilidade de guerra no Extremo Oriente, Pimenta disse ver sinais de escalada a partir de um comentário sobre a China, citando uma matéria da revista inglesa The Economist a respeito de mudanças internas e tensão em torno de Taiuã. Para ele, há uma dinâmica de ação e reação: “um intensifica o ataque, o outro começa a reação. Difícil a gente não concluir que tudo caminha para uma guerra”.
Pimenta ampliou o diagnóstico para o conjunto dos conflitos: “uma guerra ou várias guerras que serão a mesma guerra”. E afirmou que a hipótese de uma conflagração geral não pode ser descartada: “a gente poderia tá vendo aí a Terceira Guerra Mundial. Eu acho que tá em curso já, né? Não foi deflagrada a guerra, mas tá em curso”.
ICE, repressão e disputa eleitoral nos Estados Unidos
Outro tema recorrente foi a política migratória do governo Trump e a atuação do ICE, discutidas após João Pimenta mencionar a morte de mais uma pessoa em protestos. Rui Costa Pimenta classificou o tema como “o lado mais brutal da política do Trump”, afirmando que o governo “se concentrou na luta contra os estrangeiros” com “uma política de repressão”.
Ele comentou especulações sobre a construção de uma milícia e cenário de guerra civil, mas disse não haver elementos conclusivos: “difícil ter certeza do que que ele tá fazendo”. Para Pimenta, a política pode funcionar como mecanismo de intimidação: “a impressão que eu tenho é que o Trump usa essa política como forma de intimidação da oposição”.
Em outra pergunta, sobre a captura eleitoral de protestos, Pimenta respondeu: “aparentemente sim”, afirmando que, nos Estados Unidos, tudo tende a ser puxado para esse terreno “enquanto não houver um movimento independente tanto do Trump como dos democratas”.
Palestina: cessar-fogo precário e ‘sucursal do Mossad’
No bloco sobre a Palestina, João Pimenta citou o anúncio de que o Hamas teria concluído sua parte do acordo, com devolução de cadáveres de prisioneiros de guerra, e relatou que o Estado de “Israel” manteve ataques e assassinou centenas desde outubro do ano anterior, além de denunciar prisões realizadas pelas forças da Autoridade Palestina contra opositores e ex-prisioneiros.
Rui Costa Pimenta disse que o problema do acordo seria estrutural: “chegou num ponto em que não há acordo possível”, porque “qualquer interrupção de hostilidades favorece a resistência armada”. Ele avaliou que o sionismo buscaria manter repressão “mais seletiva” para impedir a reorganização palestina.
Sobre a Autoridade Palestina, Pimenta afirmou que não caberia “nenhuma ilusão” e a caracterizou como aparelho a serviço do inimigo: “a Autoridade Palestina é na verdade uma sucursal do Mossad. Sua função fundamental é a repressão da luta do povo palestino contra o sionismo”. Segundo ele, o objetivo seria conter o crescimento da resistência na Cisjordânia, o que reduziria a capacidade da Autoridade Palestina de impor um arranjo após a guerra.
Em debate sobre a capacidade de resistência diante de cerco e devastação em Gaza, Pimenta afirmou que não se trata de um grupo isolado: “a resistência é uma legítima resistência nacional e popular palestina. Ela não é um grupo armado isolado. Ela tem o apoio da maioria da população palestina”. E concluiu: “isso daí é muito difícil de você derrotar”.
Assista ao programa na íntegra:





