Em entrevista à TV 247 nesta sexta-feira (20), Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), analisou a guerra contra a República Islâmica do Irã, criticou a chamada Lei Felca, comentou a crise em torno do Supremo Tribunal Federal (STF) e avaliou as articulações eleitorais do PT para as eleições de 2026.
Ao tratar da agressão dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã, Pimenta afirmou que o principal dado da situação é a capacidade de resistência demonstrada pelo país atacado. Segundo ele, o desempenho iraniano superou amplamente as expectativas iniciais e colocou o imperialismo diante de um impasse.
“Três semanas de resistência iraniana, eu acho que já é uma proeza que o Irã fez confrontado com a maior potência militar do mundo. Durante três semanas eles seguraram a situação, reagiram à altura, sofreram perdas logicamente, nem tinha como não ser. Mas tiveram um desempenho muito acima da expectativa geral das pessoas, com destaque para o que aconteceu ontem, que os iranianos derrubaram o F-35. É a primeira vez que acontece isso.”
Na avaliação do dirigente do PCO, a ofensiva imperialista entrou numa etapa em que os agressores procuram uma forma de recuar sem admitir abertamente o fracasso. Ao mesmo tempo, segundo ele, o Irã não demonstra disposição para aceitar qualquer saída que não leve em conta suas próprias condições.
“Eu acho que o imperialismo já está na política de sair de forma honrosa. Eles vão tentar apresentar algum resultado pontual, atacam num lugar, matam alguma pessoa, destroem alguma coisa significativa e aí saem. Só que o Irã não está muito para conversa também. O Irã está, na verdade, impondo, tentando impor, as condições para um eventual cessar-fogo.”
Pimenta também comentou os efeitos econômicos da guerra, especialmente no setor energético. Para ele, a escalada já passa por um ponto perigoso e pode evoluir para uma crise generalizada, com repercussões em vários países.
“Eu acho que, se eles não acabarem logo com esse conflito, nós vamos ver aí uma crise generalizada. Já está se generalizando, já está passando daquele limiar em que a crise pode ser totalmente generalizada e difícil de conter.”
Sobre os efeitos da guerra no Brasil, ele rejeitou a explicação de que a manutenção dos juros elevados pelo Banco Central decorra diretamente do conflito. Segundo Pimenta, a política monetária responde aos interesses dos banqueiros e ao esforço para manter a economia nacional paralisada.
“Esse problema da taxa de juros não tem nada a ver com a guerra. Isso aí é uma política dos banqueiros para o Brasil. Eles não querem, eles querem manter a economia congelada. Essa que é a grande realidade. Só pode crescer assim, vegetativamente ou através de fatores externos, como aconteceu no segundo governo Lula com as commodities. Agora, reanimação industrial, de jeito nenhum.”
Ao comentar as declarações de Donald Trump contra a OTAN, Pimenta afirmou que a irritação do presidente norte-americano expressa mais o fracasso da operação do que uma disposição real de dissolver a aliança militar. Segundo ele, os demais países imperialistas apoiaram a agressão ao Irã, mas não esperavam o nível de resistência encontrado.
“Ele montou uma operação muito particular. Ele queria ir lá atacar o Irã, achando que os iranianos iam abaixar a cabeça. E aí ele ia recolher uma vitória fácil. Aí o negócio todo se complicou. A posição do imperialismo é que o negócio já deu errado. Então ele teria que sair, não querem se meter num negócio que deu errado.”
A entrevista tratou também da chamada Lei Felca. Pimenta afirmou que a medida impõe um regime de vigilância sobre o uso da Internet e atinge especialmente a juventude. Segundo ele, a lei cria uma situação anormal ao submeter o acesso à rede a mecanismos de controle e identificação.
“Isso aí provoca uma situação de total anomalia na utilização da internet. Se a lei for levada ao pé da letra, todo mundo vai ter que colocar aí, sei lá, documento, biometria visual e tal, para acessar a internet.”
Para o presidente do PCO, o problema central não é a propaganda oficial em torno da “proteção da infância”, mas o fato de a lei restringir direitos políticos e democráticos dos jovens. Ele relacionou a questão ao papel da juventude nas lutas políticas do País, inclusive durante a luta contra a ditadura militar.
“Os jovens, para entrarem em qualquer tipo de aplicativo, praticamente qualquer coisa na internet, vão precisar de aprovação dos pais, em alguns casos não vão poder nem entrar. Quer dizer, eles estão submetidos a uma vigilância total. (…) Eu participei do movimento de luta contra a ditadura e os adolescentes eram a parte fundamental desse movimento. Agora eles não podem nem entrar na internet sem autorização dos pais, sem vigilância dos pais. Você imagina isso na época da luta contra a ditadura? Como seria difícil para os jovens?”
Ainda sobre o tema, Pimenta declarou que a burguesia procura restringir a Internet por vários meios, uma vez que não consegue conviver com um espaço relativamente aberto de circulação de informações e opiniões. Para ele, o governo Lula aderiu a essa política.
“A burguesia não consegue conviver com a Internet. Então eles estão procurando cercear a internet de tudo quanto é lado. Não pode proibir, falar ‘chega, não vai ter Internet’, isso é impossível. Então proíbe esse, proíbe aquele, proíbe isso, proíbe aquilo. O Brasil, no governo Lula, infelizmente, entrou de cabeça nessas leis aí que proíbem tudo quanto é tipo de coisa.”
Outro tema da entrevista foi a situação de Jair Bolsonaro. Pimenta defendeu que o ex-presidente seja colocado em prisão domiciliar, citando o estado de saúde dele e afirmando ser contrário a medidas de caráter persecutório. Ao mesmo tempo, declarou que um agravamento do quadro de Bolsonaro seria negativo também para a esquerda.
“Não sou favorável a essas políticas de tortura das pessoas, seja lá quem for. E depois eu acho assim: essa melhora do quadro do Bolsonaro, vou dizer, é uma boa notícia para a esquerda, porque se o Bolsonaro afundasse, isso daí ia ter uma repercussão altamente negativa para a esquerda.”
Na parte dedicada à crise do STF, Pimenta afirmou que Alexandre de Moraes é o alvo central da operação em curso e que o tribunal se encontra numa situação de grande desgaste. Segundo ele, a população deveria ter acesso pleno às informações e não ficar à margem das disputas internas do regime.
“O correto seria dar publicidade às coisas. Finalmente, um regime político democrático, republicano, o povo tem que saber o que está acontecendo. Não pode ter maquinações às costas da população. Eu acho que o caso do Toffoli e do Moraes é favas contadas. Se eles vão renunciar, aí, ou vão acabar sendo caçados. Acho que acabou o reinado do Alexandre Moraes. E o STF está numa situação muito delicada, muito delicada mesmo.”
Na mesma linha, o dirigente do PCO declarou que o Supremo se desmoralizou ao levar adiante perseguições políticas e condenações que classificou como arbitrárias. Para ele, a crise atual é resultado desse processo.
“Eles colocaram um monte de gente na cadeia por motivos fúteis. Condenaram o Bolsonaro, perseguiram o bolsonarismo, levaram adiante todo um processo muito extraordinário de perseguição política e agora eles são pegos aí com a boca na botija. É muito grave. É uma situação que tem esse potencial de ser uma Mãos Limpas mesmo.”
Ao comentar a possível ida de Guilherme Boulos para o PT, Pimenta avaliou que a situação do PSOL tende a se agravar caso isso se confirme. Segundo ele, o partido já enfrenta dificuldades eleitorais e uma parte importante de sua militância não se adapta à política petista.
“Se o Boulos for para o PT, eles estão falando Boulos e Erika Hilton, se os dois forem para o PT o PSOL fica numa situação bastante periclitante enquanto partido. Pode perder cláusula de barreira e tudo mais. (…) Existe uma camada importante de militantes do PSOL que não consegue se adaptar completamente à política do PT.”
Sobre as articulações eleitorais de Lula para 2026, Pimenta afirmou que o PT procura montar uma frente ampla com setores da burguesia e do centrão, sacrificando candidaturas próprias nos estados em troca de apoio à disputa presidencial.
“O Lula está procurando articular uma frente única, uma frente ampla, digamos assim, para a eleição. Sem essa frente eu acho que o PT não tem a menor possibilidade de ganhar a eleição. (…) O PT vai sacrificar muitas posições. Não vai concorrer ao governo do Estado, está lançando governadores aí dos partidos burgueses. Vamos ver. É também uma política tradicional do Lula, que é sacrificar o PT em função de apoio para a presidência.”
Pimenta criticou ainda a incapacidade dos governos petistas de reverter as privatizações realizadas contra o patrimônio nacional. Ao comentar casos como o da BR Distribuidora e o da Eletrobrás, afirmou que o PT não levou sequer a denúncia política dessas operações até as últimas consequências.
“O PT nunca fez, na verdade, denunciar essas privatizações monstruosas. Se você não consegue reverter, pelo menos você cria um clima. (…) É uma política meio sem futuro, porque você atua na brecha. Cada governo de direita que entra afunda mais o País, daí vem o governo da esquerda e não reverte.”
Na parte final da entrevista, Rui Costa Pimenta declarou que a eleição de 2026, por si só, não resolverá os problemas estruturais do País. Segundo ele, a burguesia continuará pressionando por ataques contra a população, independentemente do resultado eleitoral, embora uma vitória de Flávio Bolsonaro represente um quadro mais grave.
“A burguesia quer a política do Milei. De uma maneira ou de outra, ela vai buscar essa política. Então a eleição não vai resolver o problema em si. (…) Eu acho que se o Flávio Bolsonaro ganhar vai ser pior. O Lula vai ter muito mais contradição e atrito, nós temos que olhar a coisa de um panorama mais amplo.”
Assista à entrevista na íntegra abaixo:





